FHC, Dia da Imprensa e euzinho

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Aí, então, nas despedidas, apertei firme a mão do Presidente, olhei firme olho no olho e, com a voz firme, perguntei/provoquei: “O senhor não acha que as pressões sofridas no passado por Hipólito da Costa são semelhantes às que as rádios comunitárias sofrem atualmente no Brasil?”. Fernando Henrique Cardoso não desviou o olhar nem retirou a mão, mas evitou comprometer-se: “É possível”, respondeu. Ponto final.

Sabe aquela sala do Palácio do Planalto onde acontecem as coisas? Participei, em 1999, da solenidade em que FHC assinou texto legiferante mais curto que coice de porco por meio do qual o Dia da Imprensa no Brasil deixou de ser o 10 de setembro, trocado que foi pelo 1º de junho. O artigo 1º da Lei 8931, de 13/10/1999, garante isso. E o artigo 2º e último define a entrada em vigor na data da publicação pelo DOU – o Diário Oficial da União. Nada mais consta.

Estávamos no 178º ano da Independência e 111º da Independência. Na sala, ao longo da comprida mesa, diziam presente a delegação da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), dirigentes das patronais Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT). Creio que também estava o deputado federal que é pai do atual prefeito de Porto Alegre.

O 10 de setembro alude ao surgimento, em 1808, da Gazeta do Rio de Janeiro, jornal editado pelo Frei Tibúrcio José da Rocha que limitava-se à divulgação de comunicados do governo e informes sobre a política internacional. Perdeu relevância para o legado de Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça e seu Correio Braziliense, que completa 210 anos neste 1º de junho de 2018 – ou um pouco depois, polemiza Mário Messagi Júnior, doutor em Comunicação pela Unisinos e professor do Departamento de Comunicação da UFPR.  Defendia o fim da censura, da escravatura e da Inquisição. As cerca de cem páginas por edição valorizavam o jornalismo interpretativo. Editado e impresso em Londres, reza a lenda que chegava clandestino ao Brasil e desta forma era lido por cerca de 500 assinantes.

O jornalista Hipólito da Costa nasceu em 13/08/1774 na Colônia do Sacramento, hoje integrada ao território uruguaio. Faleceu em Londres em 11/09/1823. Um ano antes suspendera a circulação do Correio Braziliense por considerar que a publicação já cumprira o seu papel. É patrono da Cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras, ocupada por Affonso Arinos de Mello Franco.

O bicentenário do jornal foi registrado na edição do Observatório da Imprensa transmitida pela TV Brasil em 10/06/2008. No Editorial, antes do debate ao vivo, Alberto Dines perguntou: “Que pecado cometeu Hipólito da Costa para ser esquecido numa data tão gloriosa? O que há de errado na sua biografia para incomodar tanto os donos da verdade? Só porque era maçom, só porque combateu a censura e a Inquisição, deve Hipólito ser condenado ao esquecimento? ”.

A data cheiíssima do bicentenário só teria sido lembrada, do Mampituba para cima, por O Estado de S. Paulo e pelo Correio Brasiliense, título apropriado em 1960 por Assis Chateaubriand para o conglomerado dos Diários e Emissoras Associados. Dines por certo não teve conhecimento da intensa programação que marcou a efeméride aqui no Rio Grande do Sul.

Nas terras gaúchas, por iniciativa da ARI, iniciou a campanha nacional pela alteração do Dia da Imprensa; a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) foi sensível à proposição e a ela não se opôs; o deputado federal gaúcho Nelson Marchezan era do PSDB, partido de FHC, e foi quem apresentou e defendeu o projeto de lei; Paulo Cabral de Araújo era presidente da ANJ 1999 e simultaneamente do Condomínio Acionário dos Diários Associados, no qual o Correio Brasiliense “ressurgiu”. Estas articulações viabilizaram a troca do Dia da Imprensa no Brasil.