Exposição Lento Crepúsculo inaugura na Pinacoteca Ruben Berta e no Paço Municipal

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A Pinacoteca Ruben Berta abre suas portas, hoje,  para a exposição Lento Crepúsculo. Na quinta, dia 06, o Paço Municipal inaugura a segunda parte da mostra, que integra a programação do 5º Kino Beat, reunindo obras de 22 artistas com curadoria de Chico Soll, Fernanda Medeiros e Gabriel Cevallos. O evento, com entrada franca, tem patrocínio master da Oi e patrocínio Stella Artois, apoio cultural do Oi Futuro com financiamento Pró-Cultura RS, Secretaria de Estado da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul.

Utilizando como ponto de partida o conceito de abundância, a exposição coletiva apresenta obras que abordam a dimensão do termo e que exploram os seus possíveis transbordamentos: de informações, de discursos, de crises, de sentimentos, e até mesmo o reflexo disso no meio-ambiente.

O “lento crepúsculo” foi como o escritor argentino Jorge Luis Borges nomeou o seu longo processo de perda da visão. Em uma série de sete conferências realizadas em 1977 no Teatro Coliseu em Buenos Aires, o autor usou a sétima conferência, La Ceguera, para falar de sua doença congênita. Borges foi perdendo a visão desde o momento em que nasceu, e ao longo de meio século de vida ficou cego de um olho e com a visão parcial do outro. Esse processo inexorável e gradual de cegueira ele nomeou de “lento crepúsculo”. “Aparentemente nessa conferência Borges se afasta do seu estilo mais marcante, o de criar mundos e ficções, e se atém de forma prática a sua condição pessoal. Apenas aparentemente, pois a potência de vida e força das palavras do autor foram suficientes para dar início ao universo desta exposição, a metáfora do lento crepúsculo foi a gênese, o gatilho criador para explorar e experienciar as nossas cegueiras”, revelam os curadores.

“Para nós, cabe investigar a metáfora por trás dessa cegueira lenta e gradual, e dos riscos de ignorar as pressões e os excessos do mundo”, afirmam. “Esta exposição foi concebida no auge de um processo eleitoral denso e traumático, em que sentimentos contraditórios contaminaram as escolhas dos trabalhos”. Integram a mostra 22 obras, entre fotografias, vídeos, livros de artista, obras gráficas e objetos, além de pinturas, que problematizam a questão da abundância no universo das artes visuais, assinadas por Aleta Valente, André Severo, Andressa Cantergiani, Berna Reale, Bill Maynard, Carlos Krauz, Carmela Gross, Coletivo Habitantes, Gisele Beiguelman, Guilherme Dable, Intransferível, Ivan Grilo, Letícia Lopes, Marion Velasco e Adauany Zimovski, Martin Heuser, Leopoldo Plentz, Nicolas Maigret, Regina Silveira, Romy Pocztaruk, Talita Menezes e Tyrell Spencer. A exposição conta com quatro obras do acervo das pinacotecas Ruben Berta e Aldo Locatelli e duas do acervo da Fundação Vera Chaves Barcelos.

“Nos acostumamos com os pontos cegos da nossa existência, mesmo que o principal museu do país queime nas chamas do descaso, ainda sim as labaredas desse horror não serão suficientes para iluminar os nossos caminhos. O comportamento de manada e o tsunami de insensibilidade que transborda das redes sociais, soterra a cada post inflamado com discurso de ódio a utopia do ciberespaço como o local da “civilização da mente”.

Integram a seleção dos curadores as obras “Cantando na chuva”, de Berna Reale, “Odiolândia”, de Giselle Beiguelman –  criada em 2017 e onde reúne comentários publicados nas redes sociais sobre as ações da Prefeitura e do Governo do Estado de São Paulo na Cracolândia entre maio e junho daquele ano, e “The Pirate Cinema”, registro de performance de Nicolas Maigret, que torna a atividade e geografia escondida das transferências Peer-to-Peer visíveis. O projeto é apresentado como vídeo registro  de uma sala de monitoramento, onde são exibidas transferências Peer-to-Peer em tempo real em redes utilizando o protocolo BitTorrent.

O filme “Cidades Fantasmas”, de Tyrell Spencer, vencedor do Festival É Tudo Verdade em 2017, e a performance “Neblina”, de Marion Velasco e Adauany Zimoviski, são alguns dos destaques, assim como a obra inédita “Luzia”, de Letícia Lopes, criada especialmente para a exposição. A obra é composta de uma pintura e um poema do escritor português Herberto Helder (1930 – 2015). A pintura estrutura-se a partir do entendimento de sua própria forma como uma espécie de lápide, onde estão representados um epitáfio e uma imagem do Museu Nacional do Rio de Janeiro em chamas. O poema (apropriado) explícita e enfatiza a intenção da pintura de apontar para os vários e reveladores cruzamentos entre as linguagens verbal (poética/simbólica) e imagética (pictórica/cromática), desdobramentos do processo criativo acionados pela reflexão acerca dos conceitos de luz, fogo, destruição, criação, e,principalmente, da beleza inata às grandes transformações.

A exposição “Lento Crepúsculo” segue em cartaz até 11 de janeiro, nos horários e dias de funcionamento dos dois espaços.