Repórter policial na ditadura

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O espírito e os gestos do repórter sempre sofreram influência da notícia e dos entrevistados. Quem cobria o Parlamento se vestia e se comportava como um deputado, data venia. Os setoristas do Executivo pareciam altos funcionários das repartições públicas, engravatados, de difícil acesso. Os jornalistas de economia podiam ser confundidos com um empresário em dificuldades financeiras. A editoria de esportes lembrava uma concentração de time de futebol. A cultura parecia o camarim de um teatro. Os repórteres de polícia ostentavam revólver na cintura. Os editorialistas usavam suspensórios como o dono do jornal. A academia, com produção em série de focas, trouxe mais neutralidade às redações.

O gaúcho tem tradição em ler polícia, não só nos tabloides, mas até no standard Correio do Povo, de Breno Caldas. As novas gerações saídas da “escolinha”, assim designada pelos antigos jornalistas, oxigenaram a editoria, na cobrança e fiscalização da polícia, contra a corrupção e na defesa dos direitos humanos. A morte do preso político sargento Raimundo Soares, em 1965, o Caso das Mãos Amarradas, cadáver encontrado no Guaíba, no segundo ano da ditadura, foi denunciado pela imprensa gaúcha.

A edição policial teve peculiaridades na ditadura. A Folha da Tarde fazia, nos anos 1970, uma cobertura melodramática, teatro grego de tragédia e sátira, com humor, bem de acordo com a postura irreverente de seu editor Antônio González. A Folha da Manhã, em seu momento auge, ficou marcada por uma cobertura contra a polícia. Seguia a linha Robin Hood, a defesa do fora-da-lei que roubava da nobreza para dividir entre os pobres. Nos anos 1980, a Zero Hora deu uma guinada do policialesco, sua marca registrada desde a Última Hora, para o relato literário, sob o comando do elétrico e violonista José Antônio Ribeiro, o Gago. Destacou-se o texto brilhante de Clóvis Ott, correspondente internacional que cobriu a Revolução dos Cravos, em Portugal, em 1974, pelo Correio, e no retorno ao Brasil só conseguiu emprego como repórter policial. Na concorrência com a Zero, Breno Caldas me tirou da Folha, aos 32 anos, e me colocou como editor do Correio para ampliar o espaço e assinar uma coluna diária de historietas criminais, sem romper a fleuma do jornal. Inacreditável: o doutor Breno parou a Redação para me apresentar como novo reforço.

Delinquentes de Porto Alegre possuem tatuagens de palhaço no
ombro, que os identifica como matadores de policiais

Nos anos de chumbo, a cobertura centralizava-se nas delegacias especializadas. A Brigada Militar tinha estrutura militar de difícil acesso e a Polícia Federal pior ainda. Parava-se na portaria. Eu odiava. Ao contrário do livre trânsito aos diversos setores do Palácio da Polícia, menos o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), no segundo andar, e DCI (Divisão Central de Informações), no terceiro, órgãos voltados para a repressão política. Nas entrevistas coletivas, muitas perguntas ficavam sem resposta “nada a declarar”. Mas na formulação da pergunta, reproduzida em nosso texto, passávamos o recado ao leitor. Era um jogo de coragem.

Tanto a Caldas quanto a Zero tinham rádios varredura, proibidos, capazes de ouvir os sinais da polícia e assim facilitar a cobertura factual 24 horas. Conhecíamos os códigos e acompanhávamos o deslocamento das viaturas para atender as ocorrências mais graves. À tarde, nas especializadas, ampliávamos o noticiário com as investigações. Os desdobramentos dos assassinatos de repercussão e dos roubos espetaculares eram divulgados diariamente como se fossem novelas em capítulos.

Entrevistas coletivas: “nada a declarar”

Bandidos e mocinhos
Surgiam anti-heróis, como se fossem bandidos do faroeste. Notabilizaram-se Ringo, Orelha de Burro, Rejanir Ferreira, Morem Pinto e tantos outros. Levantávamos infância, família e trajetórias de crimes. Policiais também se tornavam estrelas como os xerifes. O comissário Pielewski era uma espécie de Sherlock Holmes da Delegacia de Homicídios. Nomes de delegados figuravam nos títulos como justiceiros. Todos conheciam Apolo, Barbedo, Sobbé, os irmãos Müller. A luta do mocinho contra o bandido. A lei contra o crime, denunciando excessos, como o Esquadrão da Morte. A imprensa deve ser isenta, mas não neutra. Estar ao lado da vítima e ajudar a sociedade se defender da criminalidade hedionda. Cobrar ações e valorizar quem faz o enfrentamento.

O palhaço e a lágrima
Os excessos policiais devem ser denunciados. Mas a imprensa não pode ignorar e deveria exibir os delinquentes que possuem tatuagem de um palhaço no ombro. Ela identifica os matadores de policiais em Porto Alegre. Uma lágrima preta embaixo do olho aponta o assassino profissional.

Cobertura nas delegacias especializadas

A intuição do velho repórter
Início de mês, 6 de março, dia de pagar as contas. Passavam das 16h e a agência do Banrisul da Avenida Getúlio Vargas, no Menino Deus, já estava fechada. Nos caixas eletrônicos havia duas senhoras idosas, um homem maduro e outro jovem. Eu havia esquecido os óculos. Pedi ao rapaz de lentes escuras, parado no pequeno balcão dos impressos e grampeador, para que me confirmasse o total da fatura do cartão, precisava digitar. Atendeu-me prontamente e comecei a realizar os pagamentos. O sistema caiu. Ouviu-se um barulho em cada terminal, em sequência, rápido, como se estivessem abrindo uma gaveta de metal. Brinquei com o senhor ao meu lado. “Estão arrombando os terminais por dentro”, disse sorrindo. Nem eu levei a sério a intuição do velho repórter.

Cinco ou seis homens saem do banco carregando mochilas. São fortes, músculos de academia, roupas esportivas, passos largos, cadenciados. Nenhuma “vítima da sociedade”. Pareciam guardas de valores, mas sem uniformes. Fiquei olhando para eles, intrigado. O último a sair, me disse como se fosse funcionário: “Dentro de dois minutos o serviço estará normalizado.” Na calçada, pegaram para a esquerda. O cliente maduro empurrou a porta giratória e percebeu que ela estava liberada. O tesoureiro apareceu, suado, barba por fazer. Pediu para que nos retirássemos. O banco tinha sido assaltado. O gerente se aproximou para ajudar a fechar o banco. Os funcionários e os guardas continuavam amarrados em alguma dependência interna.

O cara que leu o valor do meu cartão de crédito sumiu antes dos assaltantes saírem. Talvez fosse cúmplice controlando a entrada durante o roubo. Eles não eram favelados, nem assaltantes comuns. Devem ter sido recrutados no comércio exterior de armas e carros roubados. Os ladrões levaram as fitas de gravação das câmeras. No dia seguinte, a agência continuava fechada. A notícia não saiu na imprensa.

(*) Repórter desde 1969. Professor de Jornalismo na PUCRS durante 40 anos – 1977/2017. Autor dos romances Sombras Douradas e Acrobacias no Crepúsculo, novela A Santa sem Véu e Contos do tempo da máquina de escrever.