Quanta alegria… contar o rádio no interior!

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Gratidão e alegria são as palavras que devo a Julio Ribeiro por abrir espaço para as histórias e estórias do rádio interiorano, justamente neste abril de 2018, quando completo 30 anos de microfone. Fizemos um rádio diferente daquele feito em grandes emissoras da capital. Atenção ao que afirmo: diferente, ou seja, nem melhor nem pior. A paixão, não resta dúvida, é básica na vida de qualquer radialista, independente da cidade, estado ou país em que exerça seu dom. Mas os locutores e técnicos interioranos precisam de algo mais. Temos grandes emissoras, grandes profissionais e acima de tudo, muitas vivências. E grandes desafios.

A rotina, via de regra é de equipes enxutas, com profissionais multiuso e limites orçamentários rigorosos. E a “concorrência” é a grande mídia, sempre hegemônica e com o status de ser da capital. O duelo parece desigual, para grandes ou pequenas coberturas, para a rotina de notícias ou músicas. Mas aí aparece o algo mais que me refiro. A alegria de lidar diretamente com seus ouvintes, na esquina mais movimentada da cidade, na padaria, na igreja é proporcional a responsabilidade da cobrança. Quantas mancadas viram lenda, sendo ampliadas de tempo em tempo? Quantos elogios vindos do tio, do amigo do avô, dos colegas de trabalho do pai, dos vizinhos. Essa é a gasolina que impulsiona as carreiras, resultando em grandes profissionais que tantas vezes chegam a capital, mas também em grandes profissionais que optam em seguir em seus recantos. Em um ou outro destino, as memórias são fartas.

E essa coluna servirá justamente para isso: contar as histórias interioranas. Faço uma única ressalva: histórias engraçadas também serão lembradas. Escrevo ‘também’, porque haverá espaço para grandes coberturas, desafios vencidos e não apenas para risadas. Pois o pitoresco não deve ser regra. Pelo contrário. Há muito trabalho sério e dedicado no rádio do interior. E por isso, alegria e gratidão ao amigo JUlio Ribeiro.

Colegas do interior, atuais ou no passado, não me deixem sem histórias para contar… esperando os e-mails para rodrigog@uniaofm.com.br. Na primeira coluna, só uma historinha…

QUANDO O TUBO CAI NA HORA H…

Lembrança de Sérgio Jost, diretor da Revista Expansão, outrora repórter da Rádio Santa Cruz.

Corria o ano de 1994 e a Pitt Corinthians encantava o Brasil com seu basquete competitivo, que resultaria no título de campeão brasileiro para a equipe gaúcha. Reta final da competição e jogo decisivo em São Paulo. A equipe esportiva da Rádio Santa Cruz pronta para cobrir. Mas sem patrocínios vendidos, o gerente da época vetou a viagem, orientando a transmissão por “tubo”, ou seja, através das imagens que chegariam pela televisão. Leandro Siqueira era o narrador, Sérgio Jost o repórter. Um telão seria o alvo da transmissão. Tudo pronto e, de repente, a Band, canal que faria a transmissão, anuncia que o jogo será transmitido em vídeo tape, ou seja, horas depois do acontecido. Pavor instalado. Como transmitir o jogo? E ai, aparece a criatividade interiorana. As rádios Gazeta, principal concorrente da Santa Cruz na Terra do Fumo, e Gaúcha estavam fazendo a transmissão. Siqueira, pegou um rádio, colocou fone de ouvido e passou a narrar o jogo ouvindo a narração da rádio rival. Para não se confundirem, Jost se separou de Siqueira e acabou no banheiro da emissora, ouvindo a Gaúcha e repetindo as informações do decano Régis Höher. Concentração pouca era bobagem: ouvir a própria transmissão, a dos concorrentes e falar ao mesmo tempo. Impossível explicar, mas foi feito. Missão dada, missão cumprida.

Findo o jogo, na mais completa ingenuidade, ambos foram para o centro de Santa Cruz. Logo reconhecidos, os ouvintes não vacilavam em perguntar: “Ué, vocês não estavam em São Paulo? Jogo não passou na TV e vocês transmitiram?”, ao que Sérgio Jost respondia: “nada, tínhamos um circuito interno com imagens exclusivas”, saindo de fininho sem dar mais explicações.