O Brasil que a Plim-Plim quer ver

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É só abrir a oportunidade de aparecer na telinha da Vênus Platinada (cáspita, quem ainda chama a Rede Globo assim?) que o povão se coça. Assisto numa boa aos diversos quinze segundos de fama individual, em dupla, trio e até grupal pipocando pelos 5.570 municípios dos 8 milhões, 515 mil e 770 metros quadrados do território nacional. Viajo por um Brasil mais real e gosto disso.

Mas imagino que a proposta original visasse a, dois pontos: caracterizar a presença da poderosa em todos os cantos e recantos, pontilhando progressivamente o mapa; fazer isto por meio da interatividade com a audiência e, de quebra, revelar paisagens bem legais de cada comunidade, os tais marcos visuais caracterizadores. Porto Alegre, por exemplo, tem a ponte do Guaíba, o tchê Laçador, a Arena da OAS e o Gigante da beira do rio que não é rio, dizem, mas lago. Ah! Quase me esqueço do ocaso do Sol mais lindo do mundo…

Se era isso, furou! O pessoal começou a fazer “vídeo selfie” para mostrar lixão, rio assoreado, buraco na via pública e por aí vai. Está diferente do esperado, certo, mas continua um bom negócio para a Vênus. Seguem excelentes as expectativas, tanto as de promoção institucional quanto as de retorno financeiro. Ninguém acessa o Termo de Uso e Outras Avenças da Plataforma Colaborativa TV para descobrir que o material enviado poderá ser utilizado pela Globo a seu (dela) exclusivo critério e sem limitação de prazo.

Incontáveis ninguéns, então, não ficam sabendo que ao cederem a própria imagem vinculada ao entorno estarão concedendo à Globo “automática e gratuitamente, em caráter irrestrito, irrevogável e irretratável”, licença para  “utilizar/fixar o Material, na íntegra ou em partes, nas obras audiovisuais por esta produzidas…”. Nem que ela poderá “dispor livremente do material” e dar-lhe “qualquer utilização econômica, sem que ao INTERNAUTA caiba qualquer remuneração ou compensação…”. Poderá a Globo “comercializá-lo em qualquer suporte material” e “ceder os direitos sobre o Material a terceiros, ou, dar-lhe qualquer outra utilização, podendo, ainda, reduzi-lo, alterá-lo, compactá-lo ou editá-lo”.

Que coisa, não é? Quanto maior a quantidade de vídeos enviados, maior o potencial de comercialização após tratamento por análises quantitativas e qualitativas. Me ajudem, por favor, a encontrar alguma declaração tranquilizadora, pois até na Política de Privacidade Globo.com só aparecem os direitos da organização de utilizar as nossas informações cadastrais e de navegação com valor de mercado.

Sinto, pelo teor das falas, que já há futuros candidatos postando vídeos. Não é um arrepio à legislação eleitoral? Qual a política de veiculação adotada pela Globo? Como se dá a seleção do que vai ao ar? Todos os vídeos enviados terão divulgação em canal aberto nas emissoras próprias e afiliadas das respectivas regiões e preservados na internet, com acesso liberado a todos os partidos políticos? Há muitas perguntas mais que são necessárias para fazer evaporar, via respostas bem aceitáveis, minha desagradável sensação de que estamos frente a mais uma usurpação midiática.

Acredito que muita gente – talvez até você, leitor ou leitora – ainda não se deu conta da profundidade e impacto do clima geral de insatisfação que, felizmente, nos assola. Felizmente? É, felizmente! Cansada de tantas tretas e mutretas, a cidadania está botando a boca no trombone, o nariz onde não é chamada, as mãos nos cartazes e faixas de protesto ou apoio e os pés nas difíceis trilhas que levam à Democracia plena, não a este arremedo de democracia que a Imprensa com catarata, a Política zarolha e a Justiça cega estão nos oferecendo.