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Fake news para um mundo fake

Tudo que já foi pauta de mesa de bar agora vira post. E com a mesma veemência que esbravejavam no convescote, alguns digitam e postam enfurecidos suas teses. Lamentavelmente a era passou a ser de certezas, antagônicas e bélicas que se enfrentam publicamente em redes sociais. Tudo isso agora é cenário de informações e subsídios ao leitor que foi trocando, pouco a pouco, o folhear de jornais e semanários pelo rápido deslizar na tela. Além do cidadão fonte, que pode cometer erros clássicos na narrativa informativa ou ainda confundir o jornalismo com ativismos, que é seu por direito, temos ainda a armadilha, muito perigosa, da fake news.

Impossível não fazer referência ao falecido Umberto Eco, filósofo e escritor italiano, que dizia: “O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. Por idiotice, ou não, uma onda de inverdades ou textos carregados de opiniões viraram as fontes da sociedade conectada. Se por um lado a agilidade da internet é uma vantagem preciosa para quem se mantem antenado ao que acontece ao redor do mundo, por outro, a simultaneidade e a pressa tiraram o espaço precioso da reflexão.

Vale pinar algo aqui: o fake news sempre existiu com o arcaico nome de boataria. A questão é que a velocidade era discada. Antes era preciso pegar um telefone, enviar um folheto ou coordenar um boca-a-boca para fazer uma notícia falsa fluir. Agora, num clique, um boato se espalha e viraliza.

A rapidez da internet tem disso, tempo virou um fator mais importante que fontes ou fatos e nos últimos anos a boataria em rede se tornou uma atividade econômica lucrativa. Existe uma espécie de indústria que movimenta bilhões de dólares criando e postando notícias falsas. E não se pode responsabilizar apenas blogs ou portais de origem duvidosa. Quando o debate esquenta e nos cobrimos deste manto da era das certezas, jornalistas e articulistas mixam o que mais valioso tem de sua profissão ao ativismo que deveria ser privado. Já que ocupam um perfil pessoal nas redes, lançam mão de defender situações que muitas vezes não tem como checar a veracidade.  Com isso vão influenciando pessoas que os seguem e os respeitam graças a suas carreiras, mas, também, as suas imagens construídas por meio da força de grandes veículos de comunicação. Fica mais dramático quando as pessoas não se dão conta de que não é só a “política” e o governo, que a “ninguém pertence” que sofre com isso. A mira vai para empresas, indústrias e pessoas, cuja reputação pode ser destruída gerando danos humanos e matérias de grandes proporções.

Quanto mais respostas aparecem, mais perguntas deveríamos formular, mas não é assim que vem acontecendo. Somos uma sociedade com preguiça a refletir. Além disso, vamos perdendo habilidades sociais graças ao avanço do “convívio em rede”. A gente se aproxima dos parecidos e bloqueia quem nos contesta. Paramos de dialogar e passamos a postar, comentar, intervir e curtir. Isso cria um cenário perfeito para que a notícia de pouca reflexão se espalhe, desde que ela ampare nossas especulações. Nós que postamos que estamos #plenos, quando na verdade nos sentimos aos pedaços, somos receptores perfeitos ao fake.

Se num futuro não muito distante não teremos a diferença do real e do virtual, quanto valerá uma informação verdadeira? Não apenas o jornalismo como segmento precisa proteger a sociedade das práticas anti-éticas como também o leitor precisa torna-se responsável pela comunicação enquanto processo, que depende dele organicamente.