Ética da dor

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A difícil tarefa de lidar com o sofrimento e de respeitar o limite que divide a notícia do espetáculo

“Fábio Henrique acabava de voltar de uma pelada de rua. Calçava chinelos com o símbolo do São Paulo. No peito, o brasão do Barcelona. Fã de Luis Fabiano e Messi, o garoto de 11 anos vive longe da sede dos times que admira. É maranhense, de São Luís. Ao entrar em casa com um sorriso no rosto, encontrou a avó falando com a Folha [reportagem da Folha de S.Paulo]. O sorriso desaparece ao ouvir o assunto. Fábio fica quieto, apoiado aos pés de Maria do Socorro Silva Lima, 57. O menino sai da sala e volta com um jornal. Aponta a foto do pai, Fábio como ele. O registro mostra o pai, Fábio Silva Lima, 30, e outros nove cadáveres, com perfurações de facas e tiros.”

Assim começa a matéria “Decapitações em Pedrinhas deixam legião de órfãos”, produzida por Juliana Coissi e Marlene Bergamo, e publicada em 12 de janeiro de 2014 na Folha de S.Paulo. Mais do que o relato sobre os efeitos do massacre penitenciário, a reportagem evidencia algo que nem sempre a sociedade e a imprensa se dão conta: a foto estampada no jornal pode ser, para muitos, a última recordação de uma vítima da violência ou de situações trágicas.

O fato de uma criança guardar consigo o jornal em que o corpo violentado do pai é exposto cruamente na primeira página escancara o quanto o jornalismo, não raramente, ultrapassa os limites da informação e fere a dignidade humana. É quando a imprensa, ela própria, faz suas vítimas.

Na tentativa de disciplinar a conduta dos profissionais, o Código de Ética dos Jornalistas orienta que “é dever do jornalista respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão” (artigo 6º, VIII). Outra recomendação diz que “o jornalista não pode divulgar informações de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes” (artigo 11, II). No calor dos acontecimentos, no entanto, essas regras passam despercebidas, como se não fosse muito clara a linha que separa a informação da curiosidade mórbida.

As vítimas da imprensa
Histórias que chocam a opinião pública testam, rotineiramente, a ética profissional. São casos que geram repercussão na sociedade, o que pode levar à pressuposição de que o público deseja obter aquele conteúdo que, muitas vezes, vai além da informação. Essa é uma tese que está mais próxima do senso comum do que de um dado concreto, reflete Rogério Christofoletti, professor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e autor do livro Ética no Jornalismo. “Eu não estou convencido de que as redações têm pesquisas de que têm público interessado nesse tipo de conteúdo. Não me rendo ao argumento fácil.”

Defendendo que as empresas de comunicação aperfeiçoem suas métricas, Christofoletti alega que levantamentos quantitativos, como tiragens e audiência, são insuficientes para avaliar o que o público realmente deseja saber (incluindo aí detalhes que nem sempre são imprescindíveis para transmitir uma informação). Ainda assim, não dá para negar também que situações atípicas despertem uma curiosidade mórbida. “Sabemos que o bizarro e a tragédia chama atenção, e se começarmos a expor isso, vai ter audiência”, pondera o professor da Unisinos Pedro Osório, diretor-presidente da Fundação Piratini entre 2011 e 2014.

É a velha questão do ovo e da galinha. Quem vem primeiro: o estímulo provocado pela mídia a favor do conteúdo sensacionalista ou o interesse do público nesse tipo de abordagem? Longe de uma resposta concreta, vai se buscando saciar um desejo que, natural ou criado, se manifesta na sociedade. Os detalhes sobre crimes ou tragédia estão constantemente presentes na cobertura jornalística. A questão é que esses pormenores fazem parte da intimidade de pessoas que, uma vez expostas à opinião pública, ficarão vinculadas aos fatos. É uma sentença eterna tanto para vítimas quanto para os culpados.

Osório reforça que é preciso segregar a informação da exploração das sensações, o que leva o noticiário a se distanciar de seu propósito e entrar na seara do sensacionalismo. Entre os fatos que no período recente atraíram atenção eleva da imprensa por causa da grande comoção que geraram, ele lembra do incêndio da Boate Kiss. “Acompanhei bastante a cobertura da Kiss, presidia a TVE na época, e não lembro de detalhes ou de comportamentos graves a serem criticados, mas recordo que a equipe da Globo transformou a cobertura quase num relato, trabalhou muito com a sensação.”

Se faltam críticas mais severas nesse caso, elas sobram em relação ao caso do menino Bernardo Boldrin. A história é por si só chocante, mas no decorrer do andamento das investigações houve excessiva busca e exposição de detalhes que o professor considera que não precisariam ser divulgados, como áudios e vídeos da relação do menino com o pai e a madrasta.

“O jornalista consegue fazer isso de outra forma: basta dizer que há gravações sendo consideradas na investigação”, ensina. Como suíte da notícia principal, essa elucidação seria suficiente. Mas Osório recobra que essa tragédia foi primeira página do jornal de maior influência e circulação no Estado por muitos dias. “Os veículos de comunicação do interior se amparam muito no modelo dos tradicionais jornais. Ou seja, a Zero Hora deu aval para que essa prática se reproduzisse em outros locais”, analisa.

Outro ponto é que essa fórmula, de certa maneira, habitua o público ao formato da cobertura. “Quando tu faz isso, cria uma expectativa da audiência. Foi um erro, absolutamente desnecessário. Diga o aconteceu, e pronto.” E a exposição da intimidade do menino e sua família não ficou restrita ao Rio Grande do Sul.

O semanal Fantástico também exibiu matérias com excessivos detalhes da intimidade do menino e da família, ainda de luto pelo ocorrido. O passo a passo do crime também estiveram insistentemente presentes nas coberturas, chocando o público geral e traumatizando ainda mais os mais próximos do garoto. “É relevante a exposição? Acrescenta informação?”, questiona Osório. “Precisamos fazer essa discussão.” Christofoletti também defende o debate. “Em alguns países, existem conselhos de imprensa, que reúnem profissionais e população para discutir essas questões. Aqui, precisamos também envolver o público, para reorientar e capacitar a cobertura jornalística.”

As falhas são coletivas
Os erros não se dão de forma individual, alerta o professor Rogério Christofoletti. Há sempre um grupo de profissionais envolvidos na cobertura, e, espera-se que esse fato ajude a filtrar o que deve e o que não deve ser publicado ou veiculado.

Christofoletti lembra que há um processo na construção da notícia. Em um jornal impresso, a matéria é lida pelo editor antes da publicação, assim como uma reportagem de rádio ou de televisão é editada para posteriormente ser incluída na programação. Essa construção pressupõe que um abordagem inadequada possa ser observada e corrigida antes da veiculação.

O que ocorre é que, segundo o autor, a cobertura habitual em certas áreas acaba embrutecendo. “De forma geral, o ideal é que o profissional tivesse respeito de maneira que conseguisse frear seus instintos. Mas no mundo real, muitas vezes, os profissionais se atropelam.” Essa correria diária inclui, ainda, uma sobrecarga de trabalho, que dificulta ainda mais a reflexão imprescindível diante de fatos de grande comoção, seja um drama familiar ou uma tragédia coletiva.

“Não é porque o jornalista seja insensível, é porque se torna um processo de moer carne”, frisa. No atropelo do piloto automático, como fazer prevalecer a ética, que exige tanta cautela e reflexão? “Tem que ampliar uma discussão da formação dos profissionais”, responde Christofoletti. Não se trata apenas da graduação, mas de uma “reciclagem contínua como cursos in company, em coletivos, para que a gente volte a se sensibilizar”, acrescenta.

Nesse sentido, as perspectivas não são muito positivas, pondera o professor Pedro Osório. O cenário atual é de redução das equipes nos veículos de comunicação. Com menos profissionais, um primeiro ponto imprescindível, que é a participação de mais pessoas no processo de construção da notícia e troca de experiência entre os profissionais, vai ficando cada vez mais inviável.

“É uma profissão muito autoral, mas o jornalista não fala por si, o seu trabalho é uma manifestação que representa (ou deveria representar) a sociedade”, estabelece. “Adicionalmente, temos um código de ética que determina condutas, por exemplo, condena o sensacionalismo, mas não há uma receita, cada caso é um caso.” Partindo desses dois pressupostos, Osório conclui que “ninguém acha esse caminho sozinho.”

Segundo ele, é indispensável que os jornalistas tenham o hábito de se manterem atualizados e que as redações possuam um grupo de diverso de profissionais, sobretudo com experiência em coberturas mais complexas. “Mas, com frequência, isso não é possível. Então, temos que nos basear no que aprendemos.”

“Nada é fácil de entender”
Arthur Dapieve, jornalista e autor do livro Morreu na contramão – O suicídio como notícia, é cuidadoso com as palavras que usa, não para alimentar um tabu, mas para promover a reflexão. Com frequência usa o termo “morte voluntária” no lugar de suicídio. Afinal, é disso que se trata. Mas há uma análise mais aprofundada sobre como abordar o assunto na imprensa? “Há a tentativa de simplificar”, observa.

“Nada é fácil de entender.” Dapieve parafraseia a letra de Renato Russo, que retrata um suicídio. O excerto que vale como alerta para que a imprensa reconheça que esse tipo de cobertura tem muitas limitações, seja na busca por respostas (quando, muitas vezes, elas não estão claramente colocadas) ou na forma como a questão será abordada, ponto importantíssimo a ser observado pelos potenciais efeitos que essas notícias podem gerar.

Além de lidar com motivações que são “complexas e abstratas”, o jornalismo se defronta com um problema de saúde pública que, se não for adequadamente abordado, pode ser estimulado. Nesse sentindo, explica Dapieve, a cautela primordial é tratar do assunto com discrição, sem detalhar o modus operandi.

“De fato há uma porcentagem de suicídio por imitação/identificação”, valida. A replicação do ato não é algo contemporâneo. Há registros que datam de mais de dois séculos sobre prática do suicídio por identificação. Em 1774, ano da publicação do livro Os sofrimentos do Jovem Werther, escrito por Johann Wolfgang Goethe, houve uma onda de suicídios inspirados pela história do protagonista, que ao final do livro se mata por amor.
O fato foi tão emblemático que a psicanálise adotou o termo Efeito Werther para referir-se à condição de pessoas propensas a copiar o ato, sobretudo, quando praticado por ídolos, como ocorreu, por exemplo, no período da morte de Marilyn Monroe e Kurt Cobain, lembra Dapieve. De acordo com estudos sobre o assunto, os jovens estão entre o grupo mais suscetível à imitação.

A Organização Mundial da Saúde produziu um material específico sobre como a imprensa deve abordar o tema, chamado Prevenção ao Suicídio: Um Manual para Profissionais da Mídia. Nele, há uma série de recomendações a serem seguidas tanto para casos em geral como em casos específicos. O manual indica também fontes confiáveis para falar da questão.

Dapieve soma-se aos que defendem a importância de compartilhar os dilemas na cobertura desses casos com os colegas de trabalho. Ao final, fica claro que, assim como não se erra sozinho, também é difícil seguir o caminho mais adequado sem discussões amplas com demais profissionais.

Erros sem punição
Quando jornalistas violam o Código de Ética não há uma punição mais séria capaz de dissuadir as práticas condenadas. Assim, os erros se repetem e se propagam sem responsabilização. Há, no máximo, uma nota pública de repúdio e a desfiliação daqueles que são sindicalizados. São sanções de efeito irrisório se comparado com o impedimento exercício da profissão, como ocorre nos conselhos de medicina na Ordem dos Advogados do Brasil diante de condutas antiéticas.

Entre jornalistas sequer há a discussão sobre os casos. O professor Rogério Christofoletti pontua que o mais agravante é que não se tem nem mesmo um canal para as pessoas possam denunciar matérias que consideram ofensivas ou inadequadas, como ocorre, por exemplo, na publicidade. “Poderíamos ter essa possibilidade de ter uma depuração mais forte, mas é necessário que haja o convencimento da categoria de que precisamos assumir as prerrogativas de dar os títulos e também caçá-los”, argumenta. “O jornalista está desprovido de um órgão que facilite esse tipo de discussão. Se tentou há algum tempo criar o Conselho Federal dos Jornalistas, que debateria questões relacionadas à profissão, mas que não foi para frente”, lamenta Pedro Osório.

Falhas que pegaram mal

Boate Kiss
O incêndio ocorrido em Santa Maria, região central do Rio Grande do Sul, ganhou destaque na imprensa mundial. As imagens registradas por fotógrafos e cinegrafistas regionais foram adquiridas e retransmitidas pelos maiores veículos de comunicação do mundo.

Mas a cobertura não ficou restrita só àquele momento. A tragédia que vitimou mais de 240 jovens em 27 de janeiro de 2013 até hoje é lembrada, sobretudo por parentes, que usam a data para prestar homenagens, o que atrai, justificadamente, a atenção da imprensa. Em 27 de janeiro de 2016, o jornal O Estado de S.Paulo publicou em seu site a matéria “Santa Maria homenageia mortos da Boate Kiss”, só que ilustrou a notícia com uma foto da banda Kiss. A gafe, um descuido de muito mau gosto, ficou no ar tempo suficiente para ser duramente criticada pelos leitores. A foto foi posteriormente alterada, mas na matéria, possível de ser verificada no site do jornal, não há qualquer menção, pedido de desculpa ou errata sobre o episódio.

 Chapecoense
O acidente com o voo que levava a equipe da Chapecoense para Colômbia, em novembro de 2016, foi mais um desafio colocado à imprensa. Entre as vítimas, estavam não só jogadores e equipe técnica, como também colegas jornalistas, o que aprofundou ainda mais o desafio de noticiar a tragédia. Houve momentos de extrema sensibilidade na cobertura ao vivo, como ocorreu com o repórter da TV Globo, Ari Peixoto. Durante a entrada ao vivo no Jornal Hoje, o jornalista chorou ao falar da liberação dos corpos dos colegas. Com a voz embargada, se desculpou por um ato que é tão humano, que foi imediatamente compreendido pelos profissionais que compartilhavam daquela angustia e pelo público.

O que as pessoas não perdoaram e criticaram bastante foram outras abordagens, que soaram como falta de respeito, e de ética. O site Catraca Livre, por exemplo, perdeu 400 mil seguidores de uma hora para outra somente em sua página no Facebook por usar o acidente para atrair visualizações. Foram escorregadas imperdoáveis para boa parte dos seguidores: “Medo de voar? Saiba como lidar com isso!”, “Passageiros que filmam pânico em avião”, “10 mitos e verdades sobre viajar de avião”, “10 fotos de pessoas em seu último dia de vida” (nesta, usando, inclusive, selfies feitas pelos próprios jogadores). Nas matérias, vinculavam o conteúdo ao acidente aéreo. Posteriormente, nem o pedido de desculpa do fundador Gilberto Dimenstein conseguiu reverter a imagem negativa gerada.

As reportagens sobre a chegada dos corpos à Santa Catarina no Jornal Nacional e no Fantástico mostraram as mesmas cenas em que a repórter Kiria Meurer, da RBS Santa Catarina, filma momentos que estavam restritos às famílias das vítimas. Apesar de todos os jornalistas estarem advertidos para que não filmassem familiares no trajeto ao aeroporto para recepção dos corpos e nos primeiros momentos do velório, Kiria usou o próprio celular para fazer as imagens, admitindo para os telespectadores que as gravações não foram, oficialmente, permitidas

Suicídio – O que não fazer
Não publicar fotografias do falecido ou cartas suicidas
Não informar detalhes específicos do método utilizado
Não fornecer explicações simplistas
Não glorificar o suicídio ou fazer sensacionalismo sobre o caso
Não usar estereótipos religiosos ou culturais
Não atribuir culpas

Fonte: OMS – Prevenção do Suicídio: Um Manual para Profissionais da Mídia