Energia limpa: biodiesel ganha espaço nos motores

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Em poucos meses, o percentual de biodiesel misturado ao diesel no Brasil vai passar dos atuais 10% para 11% (conhecido como B11). Em resolução recente, o Ministério de Minas e Energia informou que a medida valerá a partir de junho de 2019.

Até 2023, o percentual deve chegar a 15%. De acordo com o ministério, a medida “oferece previsibilidade ao setor, incentiva a geração de empregos e investimentos na área de combustíveis.”

A resolução permite ainda os distribuidores de combustíveis autorizados a adicionarem, voluntariamente, uma quantidade maior ao biodiesel vendido ao consumidor final, desde que a mistura não supere o limite máximo de 15%.

Segundo a União Brasileira do Biodiesel (Ubrabio), desde o início do programa de biodiesel no Brasil em 2008, o setor tem mostrado capacidade de ofertar mais biocombustível do que a demanda. Deste modo, o preço do biodiesel vem diminuindo ao longo do tempo, tornando-se cada vez mais competitivo em relação ao diesel fóssil. Atualmente, são 51 usinas de biodiesel em operação no País.

A elevação da mistura obrigatória para B11 deve impactar diversos setores. Na avaliação da Ubrabio, a produção de biodiesel promove o aumento da industrialização e reduz o preço do farelo de soja, com impactos diretos na produção de proteínas. Enquanto isso, a ampliação do uso de energia renovável reduz as emissões de gases de efeito estufa e poluentes, melhorando a qualidade do ar e da saúde.

O aumento no uso de biocombustíveis faz parte do Renovabio, programa do governo federal que busca melhorar a eficiência energética e a redução de emissões de gases causadores do efeito estufa na produção.

O programa vai contribuir para que o Brasil cumpra os compromissos firmados no âmbito do Acordo de Paris sob a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Entre as metas da convenção está a de reduzir as emissões de carbono em mais de 10% até em 2028.

Segundo o ministério, a estimativa é que a produção do biodiesel brasileira passe de 5,4 para mais de 10 bilhões de litros anuais, entre 2018 e 2023, o que representa um aumento de 85% da demanda doméstica.

Em termos de preços, o biodiesel impacta menos o valor final na bomba. No último leilão de biodiesel realizado pelo governo federal em fevereiro, o combustível teve uma redução de 11,4% nos valores para abastecimento do mercado entre março e abril deste ano. Foram vendidos 977 milhões de litros, ao preço médio de R$ 2,33 por litro, o menor valor dos últimos 18 meses.

Com oferta recorde nesse leilão, superando 1,1 bilhão de litros no bimestre, o setor de biodiesel está cada vez mais competitivo. Quem se beneficia disso é o consumidor. Estima-se que o diesel B (mistura com 10% de biodiesel, atualmente em vigor) seja vendido cerca de 3 centavos mais barato nos postos do Brasil, em função dessa redução de preço no leilão.

Entre as matérias-primas, uma maior mistura deve elevar a demanda por óleo de soja para a produção do biodiesel no Brasil. Atualmente, cerca de 80% do biocombustível é fabricado a partir do derivado de soja. Desde 2008, quando o Renovabio começou a operar, o Brasil deixou de importar 32 bilhões de litros de diesel fóssil apenas com a mistura gradual de biodiesel no litro final do combustível.

O programa também beneficia a agricultura familiar: são 200 mil famílias de pequenos agricultores fornecendo soja para o Renovabio. Por meio do Selo Combustível Social, os produtores enquadrados nos critérios do Programa Nacional de fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) podem fornecer a matéria-prima diretamente para as usinas de biodiesel. O Selo Social é exigido pelo governo federal para a participação nos leilões de venda de biodiesel da Agência Nacional do Petróleo (ANP).

A mudança nos transportes
Estudo divulgado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério da Minas e Energia, mostra que a produção de energia para o setor de transportes será particularmente afetada pela transição energética que começa a se consolidar no mundo. A segurança energética, a prevenção às mudanças climáticas e o controle da poluição nas grandes cidades são três importantes fatores a serem levados em consideração nesse processo.

Segundo a EPE, os biocombustíveis terão um papel fundamental na redução das emissões de gases de efeito estufa no setor transporte até 2050 no Brasil. No caso dos veículos pesados para transporte de carga e passageiros (caminhões e ônibus, por exemplo) a transição do diesel fóssil para tecnologias como a híbrida e a elétrica representa um desafio grande.

“Nos próximos anos, haverá a necessidade de elevados investimentos, considerando que a infraestrutura para abastecimento destas novas tecnologias é inexistente, embrionária ou localizada, restringindo o uso somente a determinadas regiões geográficas no Brasil”, aponta o relatório. O biodiesel, ao contrário, se apresenta como uma janela de oportunidade neste sentido, uma vez que os veículos a diesel já estão aptos a serem abastecidos com biodiesel

Bioquerosene em aviões já é uma realidade
Não é só no solo que a energia limpa ganha espaço no mundo: nos céus, a bioquerosene de aviação é a principal aposta das companhias de aviação para reduzir os impactos na formação de gases de efeito-estufa.

O pioneirismo coube à Gol, que, em 2013, realizou o primeiro voo comercial (Congonhas-Brasília) de uma aeronave utilizando biocombustível – uma mistura de 25% de óleo de milho e de gorduras residuais junto ao tradicional combustível de origem fóssil.

O bioquerosene de avião é a principal aposta das companhias de aviação para reduzir os impactos na formação de gases de efeito-estufa. O pioneirisno coube à Gol, que, em 2013, realizou o primeiro voo comercial (Congonhas-Brasília) de uma aeronave utilizando biocombustível – uma mistura de 25% de óleo de milho e de gorduras residuais junto ao tradicional combustível de origem  fóssil

Três anos antes, a TAM realizou uma viagem de 45 minutos utilizando querosene tradicional e 50% de combustível feito a partir de pinhão manso em uma das turbinas. Os resultados do voo atestaram um consumo menor. Bem antes, em 2005, a Embraer lançou o Ipanema, um avião com motor totalmente movido a etanol.

Responsável por 2% das emissões de dióxido de carbono do planeta, a aviação internacional corre contra o tempo para reduzir seu impacto ambiental. Até 2020, o setor precisará atingir um crescimento neutro de carbono e, até 2050, reduzir pela metade suas emissões de CO2.

O mercado para crescer é imenso. Conforme a Ubrabio, o Brasil consome 7 bilhões de litros de querosene de aviação – o equivalente à capacidade autorizada para produção de biodiesel no país, hoje em 7,7 bilhões de litros por ano.

A bioquerosene pode ser feita a partir de óleo de soja e também de cana-de-açúcar, mas há outras opções. Em Minas Gerais, pesquisadores e empresas estão investindo em estudos com a macaúba, uma palmeira nativa, cujos frutos podem fornecer óleo para produção de bioquerosene e matéria-prima para diversos produtos da chamada química verde. Esta é uma proposta de biomassa sustentável para produção de biocombustível de aviação no País.

Para que o Brasil atinja as metas citadas acima, de reduzir o impacto na formação de gases de efeito estufa, serão necessários 4 bilhões de litros de bioquerosene em 2030.

Aumento na demanda por fontes renováveis
A demanda global por energia renovável crescerá em um ritmo sem precedentes nas próximas décadas, informou a British Petroleum (BP) em relatório. Combustíveis como biodiesel, fontes elétricas, energia solar e eólica vão passar dos atuais 4% para 15% da matriz energética global até 2040.

A China deve permanecer como maior consumidora de energia do mundo (mais, inclusive, que os Estados Unidos) até 2040, apesar de que a Índia deva ultrapassá-la em termos de crescimento de demanda a partir da próxima década.

A necessidade chinesa por energia cresceu 5,9% ao ano nas últimas duas décadas, mas deve reduzir para 1% ao ano até 2040, conforme sua economia muda de indústrias de energia intensiva para serviços. Também influi o fato de que grandes cidades como Pequim e Xangai terão regras mais rigorosas para frear a poluição do ar.

Ainda no relatório, a demanda por petróleo (uma das fontes mais poluentes de energia) deve se estabilizar em 108 milhões de barris por dia em meio ao crescimento dos veículos elétricos e maior eficiência dos motores nas ruas das cidades.

A demanda global por energia renovável crescerá em um ritmo sem precedentes nas próximas décadas, informou a British Petroleum (BP) em relatório. Combustíveis como biodiesel, fontes elétricas, energia solar e eólica vão passar dos atuais 4% para 15% da matriz energética global até 2040.