Manter saúde mental se tornou um desafio comum a todos

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Depois de passar pela fase de lidar com o desconhecido veio a exaustão de mais de um ano de incertezas

Primeiro, foi o baque psicológico de lidar com uma doença totalmente desconhecida, que colocou o mundo de ponta cabeça de uma hora para outra e que provocou rupturas sociais, econômicas, sanitárias e familiares. Ninguém passou incólume. Seja pelo impacto direto da Covid-19, seja por seus efeitos no mercado de trabalho ou do isolamento social que, entre idas e vindas, vigora no Brasil desde março de 2020. Passado mais de um ano, veio a fase da exaustão mental por tanto tempo vivido com incertezas, medos, mortes e mudanças.

Para alguns, as dificuldades vêm do isolamento social, da distância da família e dos amigos. Para outros, vem do oposto: a convivência 24h do dia com a família, sem a divisão do local de trabalho e da residência, e sem a necessária pausa de tempo e espaço para manter o equilíbrio mental. Entre os efeitos da Covid-19 pode-se dizer que também incluem, indiretamente, um abrangente leque de danos psicológicos e psiquiátricos. E como a saúde mental afeta o corpo de diferentes formas, causando baixa da imunidade, cuidar da mente se tornou ainda mais essencial.

A psiquiatra gaúcha Elisa Mello, logo no início da pandemia começou a escrever um e-book sobre os impactos do novo cenário mundial na saúde mental. Um ano depois, Elisa e Gilmara Bueno, coautora, já atualizam o livro O impacto da Covid-19: O que podemos aprender com a pandemia (ReValorizaVida, 141 páginas, à venda na Amazon) devido à continuidade da crise sanitária e seus danos. A psiquiatra destaca que agora se debruça a entender os impactos diversos da exaustão mental, e seus reflexos físicos e comportamentais.

/divulgação

“De forma abrupta tivemos de buscar uma nova forma de viver e ainda estamos em processo adaptativo. E agora sabemos que isto não vai mudar tão cedo e as coisas não voltarão a ser como eram. Entramos em uma fase de exaustão mental. Quadros estáveis se descompensaram, e pessoas que nunca tiveram histórico desenvolveram doenças psiquiátricas”, explica Elisa

Quando começou a pandemia, relata Elisa, logo houve aumento da ansiedade, da tristeza, da compulsão em suas diversas formas, da irritabilidade. Avançaram os diagnósticos de depressão, de violência doméstica, de separações e abusos. Um cenário mental que, ela avalia, trará sequelas gigantescas em âmbito individual e coletivo.  Ela agora incluirá no livro estudos científicos publicados neste período de mais de um ano. No caso dos idosos, alerta, a atenção deve ser reforçada.

Um dos estudos que Elisa está agregando à obra é uma pesquisa da Universidade de York sobre o impacto do isolamento na imunidade dos idosos. O isolamento tem aumentado o risco de morte em 14%, por vários fatores. Um deles é que como reação do stress se reduz a produção de leucócitos, que nos ajudam a defender o organismo de infecções, por exemplo. Outro levantamento mostra que o isolamento social junto com a solidão nos idosos aumentou em 30% as doenças cardíacas e acidentes vasculares cerebrais.

Mas como identificar, mesmo à distância, se o problema está tomando uma dimensão maior? Elisa explica que muitas vezes a alteração comportamental do idoso frente à depressão não é igual à dos jovens. E que, ainda que o tema seja tabu, o idoso também está sujeito à idealização suicida, de tentativas e do suicídio consolidado. Uma das coisas que pode ajudar a evitar esse cenário é separar o distanciamento físico do isolamento afetivo e emocional – e buscar formas constantes de acompanhar esse idoso.

“Há perda da vontade de fazer as coisas, sensação de dor no corpo, mudanças exageradas no apetite, insônia ou dormir muito durante o dia, confusão mental, o afastamento das conversas da família pelo WhatsApp, do contato por telefone ou de qualquer forma”, exemplifica Elisa.

Independentemente da idade, a psiquiatra diz que é preciso estimular a busca diária pelo sentido da vida através da sua história, de suas vivências e experiências prévias. Identificar o que torna cada momento importante.  A motivação, diz a médica, é algo interno e que não se faz sobre as expectativas e conceitos de outras pessoas. É importante buscar medidas comportamentais práticas, como manter uma rotina saudável e com boa alimentação, buscar um hobby e uma atividade regular.