Dificuldades vão da convivência familiar a dilemas existenciais

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É preciso respeitar um novo formato de vida pessoal, que pode ter migrado para o isolamento solitário ou para a convivência familiar durante 24h diárias – e todos os atritos que isso pode implicar. Mais do que nunca, respeitar o que é possível dentro do atual cenário é uma das chaves para preservar a saúde mental, diz Mara Lins, psicóloga e diretora da Faculdade do Centro de Estudos, da Família e do Indivíduo (Facefi).

Tudo isso com um nível de estresse acumulado, primeiro pela incerteza e insegurança, agora pelo cansaço da permanência da pandemia. Mara destaca que nenhuma família ficava 24 horas por dia junto e ainda mais em um cenário onde muitos perderam a renda e sua atividade laboral – além das muitas mortes no Brasil e no mundo.

“Acrescenta-se a isso o fato de que boa parte da população viveu um longo tempo com uma série de cuidados e restrições, acreditando que logo as coisas voltaram ao normal. E a grande questão é que isso não aconteceu. Fica a sensação de que nada foi útil ou eficiente ou suficiente”, analisa Mara.

Mara Lins – Arquivo Pessoal

A psicóloga lembra, ainda, da sobrecarga vivida por quem tem crianças em idade pré-escolar, cujas mães demonstram um nível de estresse maior do que a média. Isso porque é preciso lidar com a energia represada e a falta de local para correr e pular. Em outras horas, há a necessidade de ajudá-la a estudar, o que também é uma tarefa difícil.

“Nem todo mundo domina o conteúdo que precisa ser explicado à criança. É preciso acompanhar a escola, ensinar o que não sabe e manter a atenção da criança na frente do computador para que ela siga estudando”, explica Mara.

A psicóloga acrescenta que há muitos relatos de rupturas em relacionamentos, tanto pelo stress da convivência quanto pelo embate de ideias políticas e sobre a condução do enfrentamento à pandemia.

“Quando nem os cientistas têm uma certeza, todo mundo se sente ainda mais perdido e vai ser preciso de tempo para se conseguir algo mais concreto. Quem tem a sorte de poder estar dentro de casa mantendo pelo menos parte da sua renda, se cuidado, deve lembrar sempre que isso é um privilégio atualmente. Em qualquer situação de crise, a primeira medida é não tornar tudo mais difícil para não piorar as coisas”, pondera Mara.

Outro tema comum nos consultórios, relata a psicóloga, é que a pandemia promoveu uma reflexão forçada sobre o fato que todos sabem, mas que muitas vezes fica oculto na consciência: não somos imortais.

“Essa questão da finitude da vida é muito mais complexa para nós, ocidentais. Os orientais trabalham melhor com esse tema desde sempre. Agora precisamos pensar na qualidade de vida em meio a pandemia, fazer escolhas mais sensatas, que tenham a ver com o que é realmente importante. Aquela briga vale a pena? O que estou fazendo para cuidar de mim, e dos outros?  São perguntas como estas que devem ser feitas constantemente”, recomenda a psicóloga.

Mais do que com incertezas, é preciso lidar com fatos
Ricardo Nogueira, médico psiquiatra e responsável técnico da Libertad Complexo de Saúde Mental, de Canoas, explica que deixamos de lidar com as incertezas do início da pandemia e hoje estamos lidando com fatos. E a realidade, especialmente de quem foi alcançado pelas mortes, tem se refletido em mais internações, pedidos de ajuda, tentativas de suicido, abuso de álcool e drogas e abalado quem nunca antes precisou de ajuda profissional.

No dia em que conversava com a reportagem, Nogueira havia internado no mesmo dia dois pacientes – entre muitos outros atendidos. Um havia perdido o pai e mãe para a Covid. O outro amargava o medo de perder a esposa, entubada na UTI.

“Antes uma pessoa serena, foi levado à clínica pelo genro, psicótico e fora da realidade. Ele surtou ao se deparar com uma notícia na televisão, de que 80% dos pacientes intubados faleciam, o que era a situação da esposa”, relata Nogueira, que é autor do livro Pela Vida, da editora Athos, também disponível na Amazon.com.

Parte do tratamento foi com injeções de esperança, diz o médico. Nogueira, que também é coordenador de saúde mental do IBSaúde e diretor da Coopmed-RS, recomenda que as pessoas busquem, ainda que em casa, evitar a superexposição a notícias ruins.

“Precisamos lembrar que apesar de serem estatísticas, acompanhar o noticiário hoje não é algo nada saudável. O Brasil era o quinto país em número de depressões no ano passado e devemos avançar para o segundo ou primeiro lugar dada a situação mental da população”, estima Nogueira.

Em maior ou menor proporção, a necessidade de ajuda profissional para suportar o atual cenário é crescente, diz Brenda Schmitt, psicóloga do Sesc Lajeado, cidade que no ano passado registrou alguns dos maiores índices de contaminação pela Covid-19.

Ela lembra que a rotina alterada leva ao aumento geral da ansiedade. Um dos grandes vetores é o medo de se contaminar ou da contaminação de familiares. Outro, o temor da perda do trabalho e da estabilidade financeira.

“Essa mudança brusca da rotina, mortes, falta de controle e quebra dos planos que se tinha para o futuro gera uma angústia natural e generalizada”, relata Brenda.

Mantenha a mente sã
Uma caminhada matinal ajuda a reduzir bastante a ansiedade. Melhora a produção de endorfinas e a geração de serotonina.

Trabalhe a espiritualidade, tente buscar um hobby ou exercitar a criatividade buscando algo que goste ou até mesmo já fez no passado e nunca mais exercitou. Atividades culinárias e cuidar de plantas, por exemplo, ou pintura com aquarela e o artesanato. Pense dentro da sua realidade o que é possível e te dará prazer.

É recomendado ter uma organização e rotina de atividades e evitar acordar e ficar o dia inteiro em casa de pijama.

As famílias estão muito tempo juntas e há muito tempo, isso não é bom para o nível de estresse. Em caso de conflitos, a primeira forma de lidar um pouco melhor com isso: primeiramente pense e respire. Ao parar para respirar nos comunicamos com a mente de uma forma um pouco melhor e a tendência é diminuir pensamentos que muitas vezes são negativos.

Faça uma listinha do que realmente é importante na vida, no trabalho, em casa como parceiro e amigo. Depois, pense com qual pequeno passo se pode ao menos se aproximar daquilo que listou como importante. Essa lista serve mais ou menos como uma bússola para orientar naquele pequeno passo possível de ser dado.

Dicas de atenção com os idosos
Aos familiares de quem é mais idoso é recomendável nunca descuidar da atenção com essa pessoa, buscando o diálogo. É importante escutá-la, validar sentimentos positivos, reconhecer conquistas deste momento que podem ser pequenas, e não apenas o que é negativo.

Use recursos da tecnologia como vídeo chamadas para manter a proximidade com esses familiares e verificar como eles estão se cuidando neste período.

Faça um alimento se possível leve para idoso. É uma forma também de ter um contato, saber se ele está se alimentando direito, se está tomando água corretamente e se está dormindo bem.

Muitos deixam de se alimentar e de tomar os remédios que deveriam, têm apatia ou se tornam mais agressivos, se acham um peso na vida dos outros e também sofrem quedas frequentes, em parte pela fragilidade da vida que estão vivendo naquele momento.

Idosos que têm uma condição de saúde mais de risco podem praticar uma atividade física bem leve, mas fazer algo aos poucos todos os dias é importante.
Fontes: Elisa Mello, Mara Lins, Ricardo Nogueira e Brenda Schmitt