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Começa a era do Spam

Poucas coisas irritam tanto na internet quanto o spam. A grande maioria das caixas de e-mail sempre estão cheias deles, forçando os usuários a apagar diversas mensagens inúteis até selecionar apenas as que lhes interessam. Dependendo de quem está contando, acredita-se que o spam representa hoje 90% do tráfego mundial de e-mails – muito disso enviado através de robôs ou empresas especializadas em mensagens.

A maior infâmia do marketing na Internet começou há 40 anos. O primeiro spam foi enviado em 3 de maio de 1978 por Gary Thuerk, funcionário da empresa Digital Equipment Corporation (DEC). A mensagem, que convidava para uma apresentação de produtos da empresa, foi enviada para 393 usuários da Arpanet, rede de computadores gerida pelo governo americano e que, eventualmente, se transformou na internet.

A reação à mensagem enviada em 1978 também mostra o início de uma guerra contra o spam. Revoltados, usuários da Arpanet inundaram a caixa de entrada de Thuerk com reclamações e pedidos de retratação.

No entanto, a mensagem de Thuerk, além de limitada, pode ser considerada apenas como um mero convite. O primeiro caso célebre de spam comercial aconteceu em 12 de abril de 1994, graças a dois advogados do Arizona, Laurence Canter e sua esposa, Martha Siegel, que iniciaram a primeira campanha de spam comercial em massa do mundo. Eles usaram um script feito por um programador de Phoenix para criar anúncios para seus serviços jurídicos, que auxiliavam pessoas a conseguir o Green Card – o visto de residência nos EUA para estrangeiros.

O esquema envolvia incentivar as pessoas a se inscreverem na “loteria do Green Card”, que ocorre quando o governo dos EUA aloca uma quantidade limitada de vistos para não cidadãos, permitindo que eles permaneçam e trabalhem no país.

Canter e Siegel se ofereceram para fazer a papelada por uma taxa. Eles omitiram o fato de que aqueles que queriam entrar na loteria tiveram que enviar um cartão postal com seu nome e endereço para o departamento de Estado dos EUA.

Laurence e Martha Canter enviaram seu anúncio com o título “Green Card Lottery – Final One?” para ao menos 5.500 grupos de discussão da Usenet, um grande número na época. Não importava que a maioria dos destinatários não precisasse de tais serviços oferecidos – eles foram “spamados”. Como não pode deixar de ser nesses casos, várias linhas ESTAVAM EM MAIÚSCULAS.

O spam do casal provocou alvoroço. Seu provedor de serviços de Internet, Internet Direct, recebeu tantas queixas que seus servidores de e-mail caíram repetidamente por dois dias. No entanto, apesar da ira dos usuários contra os advogados, eles postaram novamente outro anúncio, em junho de 1994, para 1.000 grupos de notícias. Isso forçou a Usenet, pela primeira vez, a usar um robô que cancelava mensagens.

Em uma entrevista ainda em dezembro de 1994, eles afirmaram que o esquema lhes rendeu 1.000 contatos e que ganharam US$ 1 mil ao custo de apenas centavos. Em maio de 1994, criaram uma companhia chamada Cybersell. Costumavam se promover como experts em vendas online, chegando a lançar um livro chamado “Como Fazer uma Fortuna na Supervia da Informação”.

Em 1997, Canter perdeu o registro de advogado, em parte por práticas ilegais de publicidade. A Cybersell foi dissolvida em 1998 depois de falhar seguidamente em fornecer seus dados anuais e pagar suas taxas.

Mas um guia de marketing on-line desatualizado e uma empresa de vendas na internet falida não são o verdadeiro legado do casal. Isso seria o spam.

Não só a sua notória iniciativa do Green Card foi cínica, mas também marcou o fim da idade inocente da internet e o tempo em que a chamada “netiqueta” foi jogada para fora da janela. Ao fazer aquele primeiro spam comercial, eles abriram as comportas para as bilhões de mensagens não solicitadas que obstruem os sistemas da internet todos os dias.

Canter mais tarde alegou não se arrepender de liberar spam. “Alguém teria feito se não tivéssemos feito isso”, declarou.

E se houver um meio que valha a pena se comunicar, algumas empresas e grupos vão acreditar que vale a pena enviar spam. Painéis de mensagens, comentários de blog e sites de redes sociais têm que lutar contra o flagelo desencadeado pelo infame spam do Green Card de 1994.