Carlos Heitor Cony, o escritor tornado Jornalista

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No último dia 5 de janeiro o Brasil perdeu o romancista, escritor e jornalista Carlos Heitor Cony. Com 91 anos, ele estava internado no Hospital Samaritano do Rio de Janeiro, e morreu em decorrência de falência de múltiplos órgãos.

Nascido em 14 de março de 1926, em Lins de Vasconcelos, zona norte do Rio de Janeiro, Cony fora considerado “mudo” pela família até os quatro anos de idade. Só emitiu o primeiro som ao levar um susto na praia de Icaraí (Niterói) ante o surgimento de um hidroavião vermelho vindo do mar em direção à areia.  Em 1941, quando já estava com 15 anos, uma cirurgia poria fim ao problema.

Filho do jornalista e funcionário público Ernesto Cony Filho – morto em 1985 aos 91 anos e celebrizado em 1995 como protagonista de “Quase Memória” – e de Julieta de Moraes Cony, aprendeu a ler e escrever com o pai. Aos 11 anos, depois da primeira comunhão na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Guia, em Mangaratiba, Cony começou a frequentar o Seminário de São José, no Rio Comprido. Dois anos depois, iniciou a carreira de seminarista.

A experiência no seminário o marcou para toda a vida.  Lá estudou latim, português, grego, francês, italiano, música, matemática, filosofia, psicologia, ética e até cosmologia. Em entrevista à revista “IstoÉ”, em 1993, afirmou que “a única coisa que eu realmente quis na vida foi ser padre”. O ceticismo, porém, o impediu. “Comecei a duvidar de tudo”, explicou certa vez.

Solidificou uma personalidade marcada pelo ceticismo, alérgica a grupos e assumidamente individualista. “Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe”, diz a certa altura o protagonista do romance de estreia de Carlos Heitor Cony, “O ventre”.

Em 1946, aos 20 anos, como quem busca um novo eixo, o ex-seminarista ingressa na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Abandona a instituição, porém, no ano seguinte. De 1948 a 1950, frequenta o Curso de Preparação de Oficiais de Reserva (CPOR). Nesse intervalo, casa-se em 1949. Nascem as filhas Regina Celi (1951) e Maria Verônica (1954). Ao longo da vida, Cony teve mais três casamentos formais e duas uniões informais – além de um filho, André Heitor, nascido em 1973.

Ainda em 1946, começou a colaborar para a imprensa, ajudando o pai no “Jornal do Brasil”. Em 1947, recebeu sua primeira carteira de jornalista como setorista da Gazeta de Notícias na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Mas sua carreira começaria para valer em 1952, como redator na Rádio Jornal do Brasil.

O primeiro romance (“O Ventre”) é escrito nesse ano. Em 1956, o autor o inscreve sob pseudônimo para o Prêmio Manuel Antonio de Almeida, concurso da Prefeitura. A comissão julgadora considera o livro “muito bom”, mas nega-lhe o prêmio por achá-lo rude e pessimista demais para uma competição oficial. Em apenas nove dias, para cumprir o prazo de inscrição, o autor produz seu segundo romance, “A Verdade de Cada Dia”, e com ele vence o concurso, em 1957. Com “Tijolo de Segurança”, recebe o mesmo prêmio, em 1958.

Os três romances viriam a ser publicados respectivamente em 1958, 1959 e 1960 pela Civilização Brasileira, dirigida por Ênio Silveira, que “adota” Cony como autor de ponta da prestigiosa editora. Seguem-se “Informação ao Crucificado” (1961), “Matéria de Memória” (1962) e “Antes, o Verão” (1964).

Nesses romances, Cony já assumia a postura de enfrentamento que marcaria toda a sua trajetória pessoal e profissional. “Eu não fui o jornalista que se transformou em escritor, fui um escritor que se transformou em jornalista”, disse.

Em 1961, entrou no “Correio da Manhã” e lançou “Informação ao crucificado”, romance em forma de diário sobre um jovem seminarista em crise existencial. Um ano depois, deu início à coluna “Da arte de falar mal” e publicou “Matéria de memória”. Em 1964, mais uma ficção sua é editada, “Antes, o verão”. Considerado pouco politizado por seu pares, antes e depois do golpe militar, Cony foi atacado tanto pela direita quanto pela esquerda, que cobrava engajamento partidário. Ele respondeu em uma de suas crônicas: “Sou inteligente o bastante para não ser de direita, mas muito rebelde para ser de esquerda”. Em outro texto da época, disparou: “No dia em que me der na telha, pegarei no fuzil – e, ainda que não saiba manejá-lo, saberei contra que lado atirar”.

Em seus textos, até 1964, Cony não abordava a política com frequência. Também por isso tentavam rotulá-lo de “alienado”. E o escritor provocava: certa vez, disse que largou no meio o filme “Vidas secas” (1963), de Nelson Pereira dos Santos, porque se sentia entendiado ante a visão de uma vaca. Contudo, foi uma das primeiras vozes a se levantar contra o regime militar, com a coluna intitulada “Da salvação da pátria”, em 2 de abril de 1964, apesar da posição de amplo apoio do “Correio da Manhã” ao golpe.

Um de seus textos mais duros, “A revolução dos caranguejos”, rendeu ameaças anônimas contra suas filhas e uma operação policial na sua casa, em Copacabana. As crônicas do período foram reunidas no livro “O ato e o fato”.

Durante a ditadura, Cony foi preso seis vezes e também enquadrado na Lei de Segurança Nacional pelo então ministro da Guerra, General Costa e Silva (que mais tarde se tornaria presidente). O maior período de detenção foi após a decretação do AI-5, em 1968.

A situação ficara insustentável. Cony aproveitou um convite para ser jurado do prêmio Casa de las Americas e viveu quase um ano em Havana, em Cuba. Retornou ao Brasil para assumir um cargo no grupo “Manchete”, a convite de Adolpho Bloch. Foram mais de 20 anos na Bloch Editores, onde dirigiu as revistas “Ele & Ela” e “Desfile”, além de participar da redação da “Manchete”, onde também foi editor e na qual voltou a publicar crônicas que, apesar dos anos de chumbo, eram plenas de alusões simbólicas à ditadura.

Em 1974, publicou aquele que pretendia que fosse seu último romance, “Pilatos”. Antes, lançara “Balé branco” (1966) e “Pessach: A travessia” (1967), com duras críticas ao Partido Comunista Brasileiro, o que lhe rendeu um boicote do Partidão, além de “Quem matou Vargas”, publicado em capítulos na revista “Manchete”. No entanto, nenhum alcançaria a repercussão de “Pilatos”. “Considero este meu romance definitivo. Depois dele, não tinha mais nada a fazer”, disse em entrevista a “Folha de S. Paulo”, em setembro de 2012.

Mas Cony voltou a publicar um livro, por um motivo que pode ter surpreendido os que viam apenas como um cético. No início dos anos 1990, sua cadela Mila ficou doente e ele voltou a escrever “para suportar o sofrimento de ouvir seus gemidos”, como disse ao Globo em 2012. O resultado foi “Quase memória”, mescla de ficção e autobiografia em que o narrador parte da descoberta de um envelope com a letra do pai, morto havia dez anos, para fazer uma revisão lírica e afetuosa do passado.

Lançado em 1995, o livro se tornou um grande sucesso, vendendo mais de 400 mil exemplares, e foi adaptado para o cinema em 2015, pelo diretor Ruy Guerra. Cony o definia como “um desabafo” e relegava os romances que publicou depois a um lugar secundário em sua obra, mero resultado de “pressões comerciais”. Mas muitos leitores e críticos saudaram livros como “O piano e a orquestra” (1996), “A casa do poeta trágico” (1997) ou “A tarde da tua ausência” (2003). “Quase memória” e “O piano e a orquestra” venceram o Prêmio Jabuti, assim como “Romance sem palavras”, em 2000. Em 1996, Cony também recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (ABL), pelo conjunto da obra. O último romance do autor, “A morte e a vida” (2007), abordou o polêmico tema da eutanásia.

Enquanto retomava a carreira de romancista, continuava na imprensa. Na década de 1990, após deixar a Bloch, Cony voltou a colaborar com a “Folha”, numa coluna que manteve ativa até a sua morte. Em 2000, foi eleito o quinto ocupante da cadeira número 3 da Academia Brasileira de Letras, na vaga de Herberto Sales. Mas várias vezes direcionou sua ironia seca à instituição, que em entrevista ao Globo chamou de “jardim de infância às avessas”.

Em 2004, o escritor foi muito criticado ao ter aprovado o seu direito a uma pensão vitalícia de R$ 23 mil (valores da época) como compensação à sua demissão do “Correio da Manhã”, em 1965, por críticas ao regime militar. Em um texto no site “Observatório da Imprensa”, Cony rebateu dizendo que apresentou um dossiê de mais de 100 páginas para comprovar a perseguição sofrida e que, se estivesse a cargo do postulante decidir o valor, “teria pedido quantia maior”.