A Era do Pôster

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Publicidade e arte sempre mantiveram relações próximas ao longo da história. Não raro, peças publicitárias eram inspiradas na literatura, artes visuais e filmes, e sempre foi comum o intercâmbio de ideias entre as duas áreas. No entanto, talvez o período em que essa simbiose foi mais forte foi a Belle Époque (1880-1918), durante a Era de Ouro do Pôster.

No final do século XIX uma febre tomou conta da Europa e das principais cidades da América, com uma nova forma de publicidade. Nas ruas e praças das cidades que viviam a pleno a Revolução Industrial proliferavam imagens coloridas e exuberantes criadas por alguns dos mais talentosos artistas do período, extasiando uma população carente de beleza.

Durante séculos, a produção e impressão de imagens era um processo muito trabalhoso e caro, que necessitava prensas gráficas imensas e técnicas complexas.Isso só mudou no ano de 1796, com a invenção da litografia. A técnica, criada pelo ator e dramaturgo tcheco Alois Senefelder, consiste em desenhar sobre uma base, que originalmente era feita da rocha calcário, e tratar a superfície com soluções químicas que fixam o desenho. No fim do século XIX, o uso de placas de zinco no lugar das de pedra passou a permitir a preparação de peças com diferentes cores, para produzir cartazes coloridos e de tamanhos variados, de um jeito fácil e barato.

Esse avanço permitiu a existência do pôster, apesar de destituído de cor e valor artístico, mas a arte da propaganda ainda não havia sido inventada. Para isso ocorrer, era necessária a intervenção do francês Jules Cheret (1836-1932). Considerado o precursor do affiche (pôster de publicidade), guiou uma geração espetacular de artistas. Nomes como Alphonse Mucha, Pierre Bonnard, Jean-Louis Forain, Henri de Toulouse-Lautrec, entre outros, lideraram essa revolução do design e em grande parte se inspiraram na estética das gravuras japonesas. As paredes dos edifícios e os muros de Paris nunca mais foram os mesmos ao serem adornados de obras de arte que passaram a compartilhar da mundanidade cotidiana.

 O sucesso da estética empregada nos pôsteres construiu uma ponte entre a ideia de arte nobre e elevada dos museus e a cultura visual popular dos cartazes, exposta nos espaços públicos. Eles eram frágeis, mas deslumbrantes – e uma nova forma de arte passava a ser reconhecida pelos colecionadores. Criaram-se exibições, clubes e publicações para debater sobre o assunto na Europa e nos Estados Unidos. Os trabalhos eram no estilo Art Nouveau, característico da época, com o uso de arabescos e linhas sinuosas.

O desenho de pôsteres atraiu grandes nomes do mundo das artes, mesmo em épocas posteriores, como Picasso, Matisse, Warhol, Hockney e Lichtenstein. No Brasil, Di Cavalcanti produziu affiches para companhias exportadoras de café.

A maior parte do século XX foi influenciada pela propaganda impressa, pelos affiches espalhados por vilas e cidades. Difícil traçar a história do período sem ressaltar seu poder de mobilização. Foi a mídia visual mais importante politicamente antes da ascensão da TV e do cinema. O pôster serviu a todo tipo de produto e propósito. Ajudou a enaltecer tiranias, mas também a ridicularizá-las. Em momentos de guerra, trazia mensagens de esperança e propagava ideias que mudaram o comportamento da sociedade. Não surpreende que continue influente. Um exemplo é o pôster de Shepard Fairey para a primeira campanha de Barack Obama: em um fundo azul e vermelho, destacava-se o semblante do então candidato e a palavra hope (esperança).

Há também um tipo de pôster que passou a ser valorizadíssimo em coleções particulares, alcançando cifras estratosféricas: os de cinema. Se o original da versão do filme Frankenstein de 1931 (só se tem notícia de um exemplar, com 2 x 2 m) um dia for colocado à venda, chegará a vários milhões de dólares. O pôster de Metropolis, a célebre distopia de Fritz Lang, de 1927, pode valer hoje cerca de US$ 2 milhões. Designers como Saul Bass (Um Corpo Que Cai) e Bill Gold (Dirty Harry) fizeram a história do cinema tanto quanto alguns diretores.