Euclides da Cunha, acima de tudo, um infeliz: uma vida marcada pelas tragédias

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No dia 5 de outubro de 1897 terminou o que seria um dos maiores conflitos da história do Brasil: a Guerra de Canudos, confronto entre o Exército Brasileiro e os integrantes de um movimento popular e messiânico liderado pelo líder religioso Antônio Conselheiro. O conflito teve início em 1896 na então comunidade de Canudos, no interior da Bahia. Após a derrota de três expedições militares contra a comunidade religiosa, a destruição total do arraial tornou-se prioridade para o governo brasileiro. O resultado da ofensiva foi o massacre de até 20 mil sertanejos, a morte de 5 mil militares, a destruição total de Canudos e a degola de muitos prisioneiros de guerra.

O relato mais importante sobre a guerra foi escrito pelo jornalista Euclides da Cunha, em seu livro Os Sertões. Embora com uma linguagem difícil para novas gerações, e uma narração quase enciclopédica da terra, do povo e do conflito de Canudos, o texto ainda é considerado uma obra-prima essencial da literatura nacional. No entanto, poucos sabem que o autor foi um homem introspectivo e infeliz, da infância ao túmulo, por uma série de tragédias que marcaram sua vida.

Engenheiro, militar, funcionário público, escritor e jornalista, Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em 20 de janeiro de 1866 na Fazenda da Saudade, em Santa Rita do Rio Negro, hoje Euclidelândia, distrito de Cantagalo, no Estado do Rio de Janeiro. Órfão da mãe aos 3 anos, justamente com a irmã mais nova, Adélia, passou a ser criado pelo tios, Urbano e Rosinda Gouveia, em Teresópolis (RJ). Não por muito tempo. Em 1870, tia Rosinda também morreu. Ele e a irmã passaram então aos cuidados de outra tia, Laura Moreira Garcez, em São Fidélis. Em 1877, nova transferência, desta vez para Salvador, onde foi viver com os avós maternos.

A instabilidade familiar, que influenciou afetivamente sua formação, refletiu-se nos estudos. Foi de escola em escola até se matricular no Colégio Aquino, onde descobriu os ideais republicanos, sob orientação de Benjamin Constant.

Em 1884, editou com colegas o periódico O Democrata e publicou o primeiro artigo, A Viagem. No ano seguinte, cursou a Escola Politécnica, no Rio, que logo deixou, por falta de recursos.

O próximo passo foi a Escola Militar da Praia Vermelha, porta de entrada do Exército, no qual ficou dois anos. Foi preso e expulso por rebeldia: quebrou seu sabre, recusando-se a prestar continência ao ministro da Guerra do Império, Tomás Coelho. O médico da escola considerou Euclides doente dos nervos.

Ele viajou então a São Paulo, onde foi bem recebido pelos republicanos e conheceu Julio Mesquita, diretor do jornal A Província de São Paulo, hoje O Estado de S. Paulo. Com a Proclamação da República, em 1889, foi reintegrado ao Exército pelo novo ministro da Guerra, o antigo mestre Benjamin Constant.

Na casa de um dos conspiradores republicanos, o major Sólon Ribeiro, que entregou ao imperador Pedro II a intimação para que deixasse o País, conheceu a filha dele, Anna, de 15 anos, com quem se casou dez meses depois, em 1890. Euclides tinha 24 anos. Em 1892, quando concluiu na Escola Superior de Guerra os cursos de Estado-Maior e Engenharia Militar, passou a colaborar regularmente com O Estado de S. Paulo, com o pseudônimo José Dávila ou as iniciais E.C. Quando o jornal ainda era “A Província”,, escreveu em 1888 dois artigos com o pseudônimo Proudhon.

Euclides desligou-se do Exército em 1896, quando trabalhava como engenheiro na construção da Estrada de Ferro Central do Brasil, por designação do presidente Floriano Peixoto. Três anos antes, manifestou em 1893 sua insatisfação com a punição dos envolvidos na Revolta da Armada e os rumos do novo governo. Estava fora do serviço público, em novembro de 1897, quando partiu para a Bahia a convite de Julio Mesquita, como enviado especial para cobrir a Guerra de Canudos.

Saiu convencido de que a rebelião de Antônio Conselheiro era uma ameaça à República. “Um jagunço degolado não vale uma xícara de sangue”, observou num de seus primeiros despachos. No entanto, mudou de opinião ao chegar ao sertão. “Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo”, escreveu. Sua visão do povo do interior do Brasil também foi transformada com o conflito. Sua frase “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, ficaria marcada na história da literatura nacional.

As reportagens que fez no interior da Bahia foram o embrião de Os Sertões. A primeira edição do livro saiu em dezembro de 1902, após meses de revisões e correções. Euclides, que tivera quatro filhos com Anna (uma menina morreu de varíola aos 4 anos), vivia em São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo. O livro de 633 páginas, com tiragem provável de 2 mil exemplares, esgotou-se em poucas semanas. Respeitáveis críticos da época, como Araripe Júnior, José Veríssimo e Sílvio Romero, receberam Os Sertões com entusiasmo. Em 1903, Euclides foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Funcionário público em São Paulo, onde fez obras em Lorena e outras cidades, Euclides perdeu o emprego por causa de mais uma entre sucessivas crises do café. A convite do Itamaraty, participou de comissão no Alto Purus para fixar os limites geográficos de Brasil e Peru.

Contraiu malária em Manaus e, ao retornar da Amazônia, voltou a manifestar sintomas de uma antiga tuberculose. Apesar de doente, trabalhou no gabinete do barão do Rio Branco, escreveu artigos para o Jornal do Commercio e publicou mais um livro, Contrastes e Confrontos.

Seu casamento começou a ruir ao descobrir que Anna o traía com um tenente do Exército, Dilermando de Assis, um rapaz bonito e bem mais novo do que ela. Embora Anna quisesse, Euclides não se separou. Remoía o ódio e chamava o filho Luís de “espiga de milho no meio do cafezal”.

O menino era loiro, como Dilermando, enquanto os outros filhos eram morenos. Em 1906, enquanto o marido se tratava da malária, Anna teve outro filho – chamado Mauro – o amante, mas o bebê viveu apenas sete dias.

Num sábado, o filho Sólon, então com 17 anos, ouviu o pai anunciar: “Amanhã, tudo se acaba, mato-os”. Euclides tomou emprestado o revólver de um primo, alegando que era para matar um cão hidrófobo. No domingo, 15 de agosto de 1909, pegou um trem bem cedo, levando no bolso um talão de cheques e uma foto dele com Anna, de quando eram noivos. Parecia agitado e nervoso ao entrar na casa 214 da Estrada Real de Santa Cruz, no bairro de Piedade, Rio de Janeiro. Foi atendido por Dinorah de Assis, irmão de Dilermando.

Falou que queria ver o dono da casa e avisou que estava ali para matar ou morrer. Euclides perguntou pela mulher e foi entrando. Disparou duas vezes contra Dilermando, que estava no quarto. Campeão de tiro, Dilermando sacou a arma e, segundo palavras registradas no livro de autodefesa ao ser julgado, disse: “Fuja, doutor, não quero lhe matar”.

No tiroteio que se seguiu, duelo de vida e morte segundo o criminalista Evaristo de Moraes, advogado de Dilermando no Tribunal do Júri do Rio de Janeiro, em maio de 1911, Dilermando foi atingido. Embora ferido, atirou duas vezes em Euclides.Uma bala acertou o pulmão direito do escritor, que caiu morto.

Um dos primeiros a chegar ao local, o escritor e deputado Coelho Neto, telegrafou ao presidente da República, Nilo Peçanha, ao barão do Rio Branco e a Rui Barbosa, para dar a notícia. Às 12h30, o Jornal do Commercio recebeu um telegrama. “Nosso colaborador ultimamente andava se queixando de moléstias, mas não notamos alteração maior na fisionomia dele”, escreveu o jornal.

A necropsia apontou lesões cerebrais, com sinais de processo de demência progressiva. O corpo foi sepultado no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Cinco anos depois, seu filho Euclides da Cunha Filho, o Quidinho, tentou vingar o pai e teve o mesmo fim: morreu pelas mãos de Dilermando.

Dilermando foi absolvido nos dois casos, chegou ao posto de general e morreu de câncer em 1951, aos 63 anos. Em 1982, os restos mortais de Euclides da Cunha e de seu filho Quidinho foram trasladados para São José do Rio Pardo.