Renda baixa com o tarro cheio

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Quando questionados se há um sobrevivente no campo, a resposta dos especialistas em agronegócio é unânime: o produtor de leite brasileiro. Ninguém enfrenta tantos desafios quanto ele para se manter na atividade, sustentar a família e ainda investir no próprio negócio — geralmente, com muito sufoco.

Nos últimos dois anos, fatores como custos crescentes de produção e baixo preço por litro, redução no poder de compra das famílias e aumento nas importações atingiram em cheio o tarro do agricultor. Alguns reduzem a produção e aumentam o cultivo de grãos ou hortaliças, procurando assim garantir um pouco de renda, mas muitos estão simplesmente desistindo do leite.

Ao direcionar a lupa para o Rio Grande do Sul, o cenário não é diferente. A produção de leite, embora gire R$ 4,6 bilhões por ano (valor do que é produzido no campo, industrializado e comercializado), segundo a Emater, ganhou status de atividade de risco. Em dois anos, 25 mil produtores abandonaram o leite e buscaram sustento em outras opções, como cultivo de grãos, fumo ou hortaliças. Eram 195 mil propriedades leiteiras em 2015 – ano passado, esse universo caiu para 173 mil propriedades no Estado.

A região Sul, capitaneada por Pelotas, é um dos principais polos produtores de leite no Rio Grande do Sul. Ano passado, o percentual de agricultores abandonando a atividade chegou a 9,5%. “Essa indefinição quanto ao preço torna difícil, para o produtor, fechar a conta. Aqui estão pagando R$ 0,80 por litro, isso mal cobre custos. Então ele se vê obrigado a mudar para sobreviver”, explica Ronaldo Maciel, gerente-adjunto da Emater em Pelotas.

Historicamente, o valor recebido por litro de leite oscila. Enquanto em junho do ano passado estava em R$ 1,25 por litro, entrou 2018 com o produtor recebendo, em média, R$ 0,94. É o menor preço em dez anos. A questão não é apenas de preço baixo, mas sim sem margem de ganho: se receber R$ 0,94 e o custo chegar a R$ 0,80, ainda há um pequeno lucro – o problema é quando o custo empata com o preço pago, aí a conta finaliza de um jeito só: prejuízo. É o que mais tem ocorrido nos últimos meses.

“Ano passado, o primeiro semestre, tanto para indústria quanto para produtores, não foi ruim. O cenário mudou nos meses seguintes e a indústria fechou o ano passado no vermelho. Mas esperamos uma recuperação nos próximos meses, com crescimento do PIB e aumento na renda”, avalia, Alexandre Guerra, presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do RS (Sindilat-RS).

A Associação dos Pequenos Laticínios do Rio Grande do Sul (Apil-RS) estima que 2017 fechou com aumento de 6% na produção de leite e queda de 4% no consumo – ou seja, no Brasil, há um excedente hoje de 10% do produto. Não à toa o preço acaba caindo e muitos operam no vermelho. “A recuperação depende, essencialmente, da elevação da renda da população, algo difícil em um país com 13 milhões de desempregados”, destaca Wlademir Dall’Bosco, presidente da Apil.

A queda drástica dos preços no segundo semestre de 2017 prejudicou as margens dos produtores e, para uma parcela mais vulnerável, estimulou o abate de vacas, a mudança de padrão genético do rebanho e a cria de bezerros para uma gradual transição para o mercado de corte. Tem sido comum, em muitas propriedades, o leite ceder espaço para o fumo: diversos produtores têm retomado o plantio de tabaco, cultura que tem comprador fixo e cujo valor pago por quilo passou de R$ 4,93 em 2011 para R$ 8,63 no ano passado.

Para o presidente da Federação dos Trabalhadores da Agricultura do RS (Fetag-RS), Carlos Joel da Silva, o caminho mais rápido é reduzir os estoques – segundo ele, o trabalhador não consegue, simplesmente, diminuir sua produção. “Ele fez investimentos, precisa pagar as contas. Os custos como energia elétrica e óleo diesel não param de subir”, ilustra.

A demanda por lácteos está diretamente ligada ao poder aquisitivo da população. Segundo pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), ligado à Universidade de São Paulo (USP), a busca por produtos como iogurtes e queijos (com exceção do leite UHT) é elástica à renda – ou seja, o consumo aumenta à medida que o poder de compra se eleva.

“O ano de 2017 começou bem e terminou muito ruim. Já faz três anos que o setor enfrenta problemas, o principal deles o enfraquecimento da demanda. Isso é causado pela redução na renda e ocorre desde 2017. A crise econômica se agravou, obrigando o consumidor a buscar alternativas”, explica Natália Grigol, pesquisa do Cepea.

Para a entidade, 2018 apresenta um panorama mais promissor – ao lado da demanda, as perspectivas de recuperação da atividade econômica devem melhorar as vendas. A taxa de juros e a inflação devem continuar em queda e o PIB deve crescer entre 2% e 3%. Com isso, é esperada uma melhora da taxa de emprego e aumento no consumo das famílias.

Uma atividade peculiar
Ao contrário de outras atividades rurais, a produção de leite tem suas peculiaridades. O produtor não pode estocá-lo à espera de preço, como faz quem planta soja ou milho. Lida com um produto altamente perecível, que necessita de resfriamento eficiente e transporte sem demora até a indústria. Já o café, por exemplo, pode permanecer até dez anos guardado em silos à espera de preço melhor.

O gerenciamento também é complicado. Novamente comparando com os grãos, em que há um calendário anual e o agricultor pode planejar custos com maior eficiência, a atividade leiteira exige trabalho diário: faça chuva ou faça sol, seja feriado ou dia útil, a vaca deve ser ordenhada. “Na cadeia de gado de corte, por exemplo, o produtor ainda tem poder de negociação. Pode segurar um pouco o boi. Na pecuária leiteira isso não existe”, explica Natália Grigol, do Cepea.

Em nenhuma outra atividade rural a falta de mão-de-obra é tão problemática. A produção leiteira é característica da agricultura familiar: segundo dados da Emater, em média, as propriedades rurais não ultrapassam 19 hectares. São pessoas da própria família que tocam o negócio, muitas vezes passado de pai para filho. Um trabalho que, por mais que a tecnologia e a assistência rural sejam eficientes, ainda é consideradO penoso e afugenta muitos jovens, que buscam melhores condições de vida em centros urbanos.

Mesmo assim, agricultores como Éder Machado da Silva, da localidade de Linha Porongos, em Estrela, ignoram o cenário desolador e investem na atividade, apostando na persistência como forma de se manter no negócio.

Através do Programa de Gestão Sustentável da Agricultura Familiar, operacionalizado pela Emater por meio de convênio com a Secretaria de Desenvolvimento Rural Pesca e Cooperativismo (SDR) do Governo do Estado, Silva tem conseguido equilibrar as finanças, na atividade que desenvolve desde o começo de 2017.

Desde então, aumentou o rebanho (atualmente, nove vacas produzem 100 litros diários de leite) e investiu em uma sala de ordenha canalizada, com resfriador. Segundo o agricultor, a gestão da propriedade é essencial – além de registrar todas as informações da propriedade em uma planilha, procurou ainda a redução de custos como forma de permanecer na atividade. Silva passou a, ele mesmo, produzir as mudas para a eventual necessidade de implantar novas áreas com pastagens para o gado.

De acordo com a Emater, a forma de trabalho adotada por Silva e por sua família (a esposa atua em uma indústria, mas deve retornar para a propriedade e o filho de 17 anos já auxilia na rotina diária) é uma tendência para os próximos anos, especialmente em meio ao cenário de instabilidade vivido pelo setor.

Logística cara e baixa produtividade
Soja, milho, carne bovina, avicultura – para onde se olhe nas principais pautas do agronegócio, o Brasil disputa palmo a palmo o mercado internacional com grandes players como Estados Unidos, Europa, Rússia e China. Entretanto, quando o tema é leite, o cenário muda.

O País fica longe dos indicadores de países como Nova Zelândia e nossos vizinhos do Mercosul Argentina e Uruguai – nestes, a produtividade alcança 12 mil litros por vaca/ano. No Brasil, a média é de 3 mil litros por vaca/ano.

Houve evolução nos volumes. O Brasil saltou de uma produção anual de 20 bilhões de litros de leite em 2000 para cerca de 36 bilhões de litros em 2017 (dados ainda estimados). Minas Gerais lidera o ranking de estados produtores, enquanto Rio Grande do Sul e Paraná disputam ano a ano o segundo lugar e estão praticamente empatados.

“Um dos nossos maiores problemas é que a produção de leite está espalhada pelo País inteiro. Isso resulta em altos custos de captação, para a indústria, e também gastos elevados com a logística para levar o produto para a indústria e depois ao varejo”, avalia João Cesar de Resende, pesquisador da Embrapa Gado de Leite, de Juiz de Fora (MG).

Segundo Resende, outro ponto é a baixa escala – no Brasil, o setor é pulverizado em pequenos produtores. Novamente, na Argentina e na Nova Zelânda, para comparação, ocorre o contrário: são distâncias menores, com fazendas concentradas em áreas geográficas pequenas. Isso aumenta a competitividade destes países porque o custo de produção é menor que o registrado no Brasil.

Mesmo internamente, essa distribuição irregular se torna um empecilho. “Quando vendemos para outros estados, nosso leite custa mais nos principais mercados consumidores, como Rio e São Paulo. Perdemos competitividade devido ao frete elevado. Enquanto isso, grandes produtores, como Minas e Goiás, estão mais próximos”, avalia o presidente do Sindilat-RS, Alexandre Guerra. Na visão do dirigente, seria necessária uma ação mais direta do governo neste ponto, com desoneração fiscal, principalmente no leite UHT.

Caso o Brasil fosse exportador de leite, poderia “enxugar” o mercado interno e melhorar os preços para produtor e indústria. Aqui, mais uma vez, outra lição de casa ainda não executada: além de não exportar o excesso de leite, nós ainda importamos lácteos – principalmente, leite em pó (55% do volume total) uruguaio e argentino. “Eles têm maior produtividade e custos menores que os nossos. Difícil competir”, salienta Guerra.

E a balança comercial dos lácteos é amplamente desfavorável ao Brasil. Em 2017, o País importou US$ 562 milhões e exportou apenas US$ 113 milhões (principalmente leite condensado e leite em pó) – um déficit, em dólares, de US$ 449 milhões. A boa notícia é que 2017 terminou com redução nas compras – cerca de 7% menos. Os dados são da Viva Lácteos, associação que reúne os maiores laticínios do Brasil. Atualmente, as exportações alcançam 53 países, nove a mais que em 2016.

Marcelo Martins, presidente da Viva Lácteos, ressalta que o Brasil deve apostar na exportação para consolidar a sua posição no mercado internacional, mas identifica entraves nesse cenário. “Tivemos um aumento de 4% na produção de lácteos em 2017 em relação a 2016, mas não conseguimos embarcar o excedente porque o nosso preço de mercado interno está desalinhado em relação aos valores praticados no exterior. Em 2016, a diferença era de 70% e caiu para 25% em 2017. Por esse motivo, a única maneira de sermos competitivos é aproximar o nosso preço ao do mercado internacional”, avalia.

Já o pesquisador Glauco Carvalho, da Embrapa Gado de Leite, afirma que o leite está se tornando uma atividade cada vez mais profissional no Brasil. “O setor leiteiro sempre aguentou desaforos, mas isso está mudando e mudando muito rápido. Neste sentido, a velocidade das decisões e a capacidade de adaptação vai fazer toda a diferença”, conta.

Para ele, produzir leite é uma das atividades mais complexas da agropecuária e por ser complexa, nem todos terão êxito e serão competitivos. “Por outro lado, muitos produtores vão seguir crescendo com a incorporação de tecnologias de produção e de gestão. Nesse processo, trabalhar a motivação das pessoas, realizar treinamentos e a buscar por maior produtividade é um fator primordial”, completa.

Consumo per capita: muito a crescer
Se os custos elevados tiram competitividade do leite brasileiro no concorrido mercado internacional, uma das alternativas é elevar o consumo per capita de leite e derivados entre a população brasileira. Por aqui, cada habitante consome, em média, 160 litros anuais de leite e derivados (como queijos, iogurtes, requeijão e outros produtos). A título de comparação, há países europeus com média anual de 250 litros por habitante – na vizinha Argentina, essa relação é de 240 litros por ano.

João Cesar de Resende, da Embrapa Gado de Leite, sugere uma campanha governamental incentivando o consumo de leite. Segundo ele, é necessário aumentar as vendas na faixa etária que menos consome o produto, como adolescentes e adultos jovens. “Leite é bom para a saúde e temos que atingir essa turminha dos 17 anos em diante, consumidora de refrigerantes”, pondera.

A seu favor, sobra informação positiva: o leite não é um alimento facilmente substituído por outro produto, porque é difícil consumir todos os nutrientes necessários em uma dieta saudável sem incluir lácteos, principalmente o cálcio, o potássio e a vitamina D, que estão relacionados à saúde pública.

Para Wlademir Dall’Bosco, presidente da Associação dos Pequenos Laticínios do Rio Grande do Sul (Apil), aumentando o consumo per capita para 180 litros por habitante/ano, o Brasil já conseguiria atingir um ponto de equilíbrio, no mercado interno, satisfatório para produtor, indústria e consumidor de laticínios. “Precisaríamos, para isso, de um aumento entre 10% e 15% na compra desses produtos pela população brasileira”, completa ele.

A cadeia do leite no Rio Grande do Sul
– alcança 491 dos 497 municípios do Estado
– 173 mil propriedades (96 mil produzem para consumo próprio; 65 mil fornecem para indústria; 3,5 mil vendem leite cru direto a consumidores; 7,8 mil vendem produtos como queijos e iogurtes)

Rebanho
– 1,3 milhão de vacas

Produtividade por animal
– 3,4 mil litros/ano

Volume anual RS
– 4,4 bilhões de litros

Riqueza
– Cerca de R$ 4,6 bilhões por ano

A cadeia do leite no Brasil
– atinge 1,3 milhão de propriedades rurais

 Rebanho
– 23 milhões de vacas

 Produtividade por animal
– 3 mil litros/ano

 Volume anual
– 36 bilhões de litros

Principais produtores
– Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás

 Riqueza
– Cerca de R$ 30 bilhões por ano

Por Cristiano Vieira