Dificuldades sufocam produtores de arroz

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Talvez o item da pauta agrícola mais merecedor de atenção na atualidade, juntamente com o setor leiteiro, seja a lavoura de arroz, que sofre problemas de competividade devido a diversos fatores. O tema foi amplamente debatido durante a abertura da colheita do arroz, ocorrida em fevereiro, em Cachoeirinha.

Questões como entrada de arroz do Mercosul, preços baixos e endividamento nunca saem de cena quando se tratam de cenários da lavoura orizícola. Segundo o economista-chefe do Sistema Farsul, Antônio da Luz, os três problemas têm algo em comum: não são causa, mas consequência.

Ele cita, por exemplo, a questão do endividamento. “Estamos sistematicamente gastando energia em um assunto que não termina. Ficar renegociando dívidas não resolve acesso ao crédito nem acaba com o débito. É como enxugar gelo”, destaca.

Luz salienta que o arroz importado via Mercosul leva em conta as oportunidades de mercado. “Nas commodities, só se ganha de um jeito bastante frio: ou mata ou morre. O arroz não entra por acaso. O preço dele é ruim porque não cobre nossos custos, mas para a concorrência é muito bom”, afirma.

Os países vizinhos contam com um custo de produção inferior aos praticados no mercado interno, seja na compra de máquinas agrícolas e agroquímicos, ou nas condições de armazenagem. Ainda assim, o economista da Farsul conta que os orizicultores brasileiros precisam apresentar competitividade.

No mercado internacional, ocorre o oposto: é esperada uma alta nos preços para o decorrer de 2018, segundo Sérgio Roberto Gomes dos Santos Júnior, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Ele utiliza informações do Departamento norte-americano de Agricultura (USDA) para justificar esta expectativa mundial, que dão conta de uma redução na produção mundial do cereal para a próxima safra e expansão dos estoques chineses. Com relação ao Mercosul, destaca que o Uruguai voltou a ser um importante país importador do mercado brasileiro, e já o Paraguai vem colocando muito arroz no Brasil, onde o Rio Grande do Sul tem previsão de queda de área e de produtividade.

Quanto aos preços, o especialista da Conab afirma que a redução observada no ano passado, atrelada principalmente com a redução da demanda interna e externa que resultou no aumento do estoque de passagem e pressão nos preços, ocasionou o panorama atual: o valor por saca de arroz, em média R$ 35,05 no Rio Grande do Sul, está abaixo do preço mínimo, de R$ 36,01.

Segundo o diretor comercial do Irga, Tiago Barata, as dificuldades do setor arrozeiro, principalmente, se devem à forte diminuição do preço do cereal – praticamente voltando ao patamar de três anos atrás. Barata enumera ainda que os custos de produção têm crescido em uma velocidade muito significativa, causando a inviabilidade econômica da atividade.

“Neste último ano, tivemos uma ligeira redução dos custos em razão da diminuição do preço do arroz – referência para vários indicadores que compõem estes custos -, mas isto não trouxe alívio para o setor.Nos últimos 14 anos, o produtor acumulou prejuízo de 124 sacos por hectare, isso considerando o custo de produção e produtividade média levantados pelo Irga e o preço médio anual levantado pelo Cepea”, conta o diretor do Irga. Barata destacou que a sustentabilidade econômica da atividade produtiva de arroz no Rio Grande do Sul depende de mudanças nas questões estruturais. “Precisamos corrigir questões ligadas à tributação, custo de produção, logística e consumo”.

Para o engenheiro agrônomo Felipe Carmona, doutor em Ciências do Solo e sócio diretor da Integrar – Gestão e Inovação Agropecuária, a integração lavoura pecuária colabora para a redução dos custos de produção (compostos pelas operações da lavoura, fertilizantes e defensivos agrícolas).

Conforme Carmona, nas últimas sete safras houve um aumento de mais de 93% nestes insumos. “Ao utilizar o plantio direto, a diversificação de culturas e a criação de animais há uma redução no uso de herbicidas e adubos e, consequentemente, uma diminuição de valores. Há muita coisa a ser feita da porteira para dentro para ajudar a resolver parte dos problemas das lavouras arrozeiras”, observa.

De acordo com o professor Ernani Carvalho Costa Neto, coordenador do núcleo de Agronegócio da ESPM Sul, há exemplos práticos de ações para melhorar a produtividade em um momento em que o preço do arroz vem caindo, e os custos, aumentando.

Investir em inovação, segundo ele, é um caminho. Implementar novos processos, como o controle de pragas, ajuda a evitar desperdícios. “Não podemos controlar o preço final do produto, pois isso vem do mercado, mas devemos trabalhar com o que é possível, como os custos de produção”, avisa. A saída, para ele, é aumentar a produtividade nas lavouras de arroz mesmo em menores áreas cultivadas. “A empresa que quiser se destacar terá de ter representatividade, vigor e, principalmente, resiliência para não se acomodar”, finaliza.

Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Arroz (Abiarroz), Elton Doeler, essa situação do arroz não é nova e o setor, como um todo, deve encontrar uma solução construída com inteligência para sustentar o preço do arroz. “A grande questão é que o mercado é soberano e vive de expectativas. O setor produtivo vem sofrendo uma concorrência muito forte. Precisamos ter um grande comprador, chamado governo”, acredita.