Debater ou não debater, eis a questão

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Consagrado como um recurso aliado da democracia, o debate eleitoral pode tanto impulsionar candidaturas como miná-las. Isso foi evidenciado no primeiro debate televisionado, ocorrido em setembro de 1960, tendo como protagonistas John Kennedy e Richard Nixon, candidatos à presidência dos Estados Unidos.

Embora o embate entre políticos raramente tenha a capacidade de definir uma eleição, só a ideia que se constrói a respeito de quem venceu e de quem perdeu o debate já demonstra a força desse mecanismo. Na ocasião, tanto Kennedy quanto Nixon saíram vencedores. Quem ouviu o debate pelo rádio, considerou que Nixon se saiu melhor. Para os telespectadores, Kennedy ganhou.

A performance de Kennedy em frente às câmeras foi determinante para o sucesso que obteve, aponta Janaina Frechiani Lara Leite, mestre em Ciências da Comunicação. Cerca de 75 milhões de pessoas acompanharam o debate pela televisão e outras 15 milhões, pelo rádio. “Aquele que se saiu melhor foi aquele que teve uma postura mediaticamente mais adequada. A maioria das vezes o debate é muito longo e muito chato, por isso se sai melhor aquele candidato que consegue compreender a mecânica do próprio debate.”

Para o público, o confronto televisivo é mais uma forma de obter informações sobre os candidatos. Segundo a Organização Debates International, cerca de 90 países realizam debates no formato consagrado por Kennedy e Nixon. “O debate eleitoral preserva o próprio princípio democrático”, avalia Janaina. “Tem um caráter histórico e simbólico muito importante.”

No Brasil, a prática foi efetivamente inaugurada em 1989, durante a primeira eleição direta após a redemocratização. Emblemática, a disputa eleitoral foi marcada pelo grande número de candidatos: 22 no total. Foram realizados seis debates no primeiro turno e dois no segundo.

Candidato com maior intenção de votos, Collor não participou de nenhum debate realizado durante o primeiro turno. No segundo turno, aceitou os embates com Lula. Foram dois confrontos que revelaram mais o estilo dos candidatos do que suas propostas, avaliou o jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, nas páginas do jornal Folha de S.Paulo, em 16 de dezembro, véspera do pleito de 1989.

Àquela altura o fato mais controverso da eleição já suscitava discussões e reflexões sobre o poder de influência da televisão: a edição feita pela Rede Globo do último debate entre os candidatos, reconhecidamente em favor de Collor. A questão é até hoje estudada, como previu Lins da Silva. “A campanha de 1989 é cheia de lições para o futuro. Na área da comunicação de massas, uma das mais expressivas é a compreensão do exato papel da TV num processo eleitoral: é importante, pode ser decisivo, mas não é único, nem preponderante.”

Quase duas décadas depois da eleição de 1989, o Brasil enfrenta o pleito mais surpreendente de sua história. “Desde 1989 não tem uma eleição com tantos candidatos e nem com tantas possibilidades em aberto. A imprevisibilidade faz com que o debate ganhe uma importância maior este ano”, enfatiza Janaina. São 13 candidatos, uma quantidade grande para uma campanha de apenas 45 dias. Aliás, 45 dias conturbados, marcados pela polarização política e uma série de indefinições.

O papel do debate, nesse contexto, é importantíssimo. A massa de indecisos costuma definir o voto no fim de semana em que vão às urnas, destaca Carmen Regina Abreu Gonçalves, doutora em Ciências da Comunicação e professora da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Tradicionalmente, o último debate das eleições é realizado pela Rede Globo, dois dias antes do pleito. “É o debate com maior audiência”, comenta Carmen. Mas se os debates são assim tão importantes, por que há candidatos que optam por não participar?

Foi o caso de Collor no primeiro turno em 1989, de Lula no último debate do primeiro turno de 2006 e, neste ano, de Jair Bolsonaro (PSL), que, embora já tivesse anunciado que não participaria mais de debates, foi efetivamente impedido de comparecer em decorrência do atentado sofrido na primeira semana de setembro. Os três têm em comum o fato de liderarem s intenções de votos.

“A decisão de participar ou não participar do debate é um momento muito importante e singular, depende da campanha”, explica a pesquisadora. Para quem já tem um eleitorado consolidado, debater com outros candidatos é correr o risco de expor fraquezas e fragilidades. Essa visibilidade, no entanto, é importante para quem precisa cativar o público. “No segundo turno, o debate tem impacto maior, pois concentra a discussão em dois candidatos.”

Nixon x Kennedy  – Crédito: Domínio Público