COMPARTILHAR

De job em job

Perfil em ascensão, o freelancer é o caminho para quem busca flexibilidade e autonomia

Com uma experiência de quase 15 anos em marketing digital e atuação principal como diretor de arte, Henrique Pochmann decidiu ser “freelancer full-time” em 2014. Frisar o tempo integral é importante, pois denota que o trabalho freelancer não é apenas um complemento de renda ou algo esporádico quando é possível conciliar com outras tarefas. Boa parte dos freelancers, no entanto, começam dividindo o tempo entre um emprego convencional e o freela. O “full-time” é como avançar um nível, algo que só se consegue com dedicação e acertando com os erros.

Foi assim com Pochmann. Ele passou por todas as etapas: fez freelas eventuais, errou, voltou atrás, tentou de novo e hoje, mais maduro, não só tem domínio das condições de trabalho e conhecimento para lidar com os desafios impostos a quem decide trabalhar sozinho como alcançou um patamar de qualidade, dedicação e preço que lhe permite desenvolver um trabalho por vez.

Se dedicar ao freela foi uma decisão que Pochmann tomou duas vezes na vida. Na primeira, era ainda inexperiente e trabalhava no departamento de marketing de uma empresa, para qual propôs trabalhar como eventual. “Só que eu ainda estava despreparado. Achei que soubesse trabalhar sozinho, mas eu não consegui dar conta”, relata. Um contrato mal negociado, prevendo atendimento a tudo o que a empresa demandasse, o impediu de atender outras empresas e buscar novas oportunidades. Não deu certo.

“Pensei que não fosse para mim”, conta. Assim, voltou a trabalhar em agências. Só que, mais uma vez, se viu diante de uma estrutura que não era compatível com o seu perfil. “Eu não dependia necessariamente da iniciativa de outras pessoas, gostava de trabalhar de forma independente.” A burocracia e a hierarquia não pareciam fazer sentido.

Pochmann decidiu, então, mudar outra vez. Abriu um escritório de comunicação com mais um sócio, projeto que embora não tenha sido continuado, rendeu mais contatos. A essa altura já reunia características imprescindíveis para um freelancer: já tinha portfólio, networking e era conhecido no mercado. Chegou o momento de entrar de cabeça.

 “O que mais me motivou para a carreira de freelancer foi a flexibilidade de horários e a autonomia dos projetos”, resume Henrique Pochmann. Por outro lado, reforça que há instabilidade e que é preciso estar preparado para lidar com uma série de fatores que podem dificultar ou até mesmo inviabilizar o sonho de trabalhar a qualquer hora e em qualquer lugar.

 “Eu sempre recomendo: faça o caminho normal que todo mundo faz, vá para agência, pegue experiência, constitua um portfólio e faça networking.” Isso, reflete, possibilita que o profissional veja como uma empresa funciona, como são atendidas as demandas e quais são as etapas.

Unindo as duas pontas
Com as aceleradas mudanças promovidas, sobretudo, no decorrer do século 21, em que ferramentas tecnológicas têm favorecido negócios digitais, manter uma agência publicitária com grande estrutura tem sido cada vez mais complexo e dispendioso. Enxugar as operações se tornou questão de sobrevivência para empresas. Por outro lado, essa necessidade abriu as portas para o trabalho remoto.

Foi atento a esse cenário que Gabriel Carlos Matias usou a experiência no ramo para fundar a própria agência. Tendo trabalhado diretamente com Walter Longo, hoje presidente do Grupo Abril, e após atuação como head de marketing da Amil, Matias teve a ideia de criar uma agência sem funcionários, em 2014, a Crowd. A proposta, alinhada ao momento atual, permitiu ao empreendedor atender seus clientes sem ter custo fixo com pessoal e ao mesmo tempo deter capacidade de entrega de trabalhos praticamente ilimitada e ágil, já a operação se dá a partir da contratação de mão de obra remota sob demanda.

No decorrer do primeiro ano, Matias foi criando uma lista de fornecedores. O mailing dos freelancers parceiros era mantido em uma planilha, como uma base expressiva: já contava com mil pessoas cadastradas. Não havia demanda para tantos freelas, condição que levou a outra ideia. A sugestão veio do pessoal do Vale do Silício, para onde Matias viajou no fim de 2015. Por que não abrir aquele banco de profissionais para outras empresas? Estava, assim, formado mais um negócio.

Aquela que seria apenas uma agência sem funcionários, decidiu contratar alguns freelancers, buscar investidores e expandir sua atuação. O ano de 2016 foi dedicado a buscar sócios, capital e consolidar um sistema adequado a nova proposta. Hoje, a Crowd tem dez sócios e atua em três frentes de negócios: Crowd Service, Crowd Network e Crowd Hunting.

Entre os sócios, três atuam diretamente nas operações. Além de Matias, entraram Juan Zaragoza, que vem de uma família que atua no ramo há três gerações, e Ricardo Longo, filho de Walter Longo. “Nasci nesse universo e acompanhando o desenvolvimento do mercado, toda essa mudança”, conta Zaragoza. A afinidade com a proposta foi imediata. Zaragoza e Matias, que já eram amigos antes da sociedade, compartilhavam da mesma visão. Mentor do grupo, Walter Longo indicou o filho, que também acumula experiência no mercado da comunicação (Ricardo Longo é fundador da FingerTips, que atua no segmento mobile), para se associar ao projeto.

Depois de um ano de estruturação, a Crowd lançou, no início de 2017, seu novo formato de atuação no mercado. O Crowd Service é o serviço típico de agência, prestado desde a criação da empresa. As novidades vieram com a inclusão da plataforma de ligação entre freelancers e empresas contratantes.

“Começamos a facilitar a burocracia para as equipes reduzirem custos”, define Zaragoza. A facilidade também se aplica aos freelancers cadastrados no sistema. Com registro simples e gratuito, o profissional se coloca à disposição para conseguir jobs em seu ramo de atuação, desde que restrito à comunicação e marketing.

Em um ano, a plataforma alcançou 6 mil freelancer registrados e tem cerca de 500 clientes. Mais de 80% dos contratantes são empresas do ramo publicitário, como Oglivy, Grey, VML, DPZ&T, Y&R, entre outras.

Seu nome, sua marca
O trabalho freelancer pode ser desafiador, mas também oferece muitas vantagens. Liberdade para se trabalhar de onde quiser, proximidade com a família, domínio do próprio tempo, ganhos adicionais ou remuneração superior a de um emprego convencional são possíveis benefícios. Para aproveitá-los ao máximo (e quem sabe até alçar voos maiores) é preciso se consolidar.

Você tem perfil?
O freela não é para qualquer um. Nem todo mundo se dá bem trabalhando de forma isolada, por isso, é fundamental refletir se você detém essa habilidade e se é capaz de gerenciar demandas e prazos.

Experimente
Normalmente, quem atua como freelancer já conciliou trabalhos extras com um emprego fixo. Para quem não quer correr o risco de trocar o certo pelo duvidoso e tem tempo para incluir algum job na rotina, essa pode ser uma experiência que demonstrará se essa é a sua praia.

Network
Prospectar é um desafio que pode ser minimizado com uma boa rede de contatos. Manter-se atualizado e próximo de quem conhece e aprecia seu trabalho facilitam bastante a conquista de   novos jobs. Isso não exclui a importância da divulgação e da busca por serviços. Para        quem está começando, uma saída é utilizar as plataformas que fazem a interface entre quem quer contratar e quem quer oferecer mão de obra.

Quanto vale seu trabalho?
Precificar o job é complexo, pois não pode ser apresentado um preço que não seja adequado.             Por um lado, não é viável sugerir um valor que não seja possível justificar ou que esteja desalinhado com o praticado. Por outro, reduzir muito o preço pode ser fatal à sua carreira de freelancer. Você deve levar em conta os custos e o valor da sua hora de trabalho, mas    precisa estar sempre atento às práticas do mercado.

Qual é a sua capacidade de entrega?
Saber exatamente quanto trabalho você consegue assumir e em quanto tempo é capaz de devolvê-lo é fundamental. Primeiramente, porque você precisa negociar com o cliente o que irá fazer e quando irá entregar. Além disso, é necessário que você saiba com o máximo de exatidão possível quanto tempo do seu dia será necessário para realizar uma tarefa, seja porque se dedica a outro trabalho ou porque tem compromissos pessoais/adicionais que                também não podem ser relegados.

Responsabilidade, agilidade e qualidade
É o seu nome que está em jogo e ele é o seu maior patrimônio profissional. De nada adianta conseguir trabalhos excelentes, mas entregá-los de forma insatisfatória. Para quem utiliza plataformas de contratação de freelas, esse é um erro fatal. Muitas delas permitem que o cliente classifique o profissional em uma série de critérios. A Crowd, por exemplo, permite que os contratantes deem notas relativas à responsabilidade, agilidade e qualidade. Classificações ruins podem dificultar a conquista de novos trabalhados ou de melhores trabalhos. Mesmo para quem não recorre a esse tipo de sistema, a dica não perde a importância, já que as críticas se propagam e as portas podem se fechar.