David Nasser – O ilusionista do jornalismo

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Poucos profissionais da imprensa brasileira foram tão famosos e polêmicos quanto David Nasser. Possivelmente o jornalista mais renomado das décadas de 1940 e 1950, Nasser conseguia reunir, em um mesmo indivíduo, muito talento e sensibilidade, nenhum escrúpulo, e excessiva brutalidade.

Era um homem de imenso talento. Escreveu livros de grande repercussão – quase sempre apoiados ou baseados em suas próprias reportagens – e compôs cerca de 300 músicas. Foi repórter numa época em que jornalismo e entretenimento eram, muitas vezes, indistinguíveis. Seus textos eram primorosos, embora boa parte deles estivesse cheio de “licenças poéticas” – quando não eram mentiras deslavadas.

Terceiro dentre sete irmãos, David Nasser nasceu na cidade paulista de Jaú, em 1º de janeiro de 1917, filho de imigrantes libaneses. Viveu a infância no Rio de Janeiro. O pai, Alexandre Nasser, era comerciante de joias e pedras preciosas – e nunca fora fotógrafo das expedições do marechal Cândido Rondon e da Coluna Prestes, como David chegou a escrever em seus artigos, anos mais tarde. Quando tinha nove anos, a família mudou-se para Caxambu, no sul de Minas Gerais. Foi entregador de pão na cidade mineira. De volta ao Rio de Janeiro, trabalhou numa loja de joias e ajudava na renda familiar como camelô. Teve meningite, que lhe deixou seqüelas. Andava com dificuldade, cambaleante, tinha os movimentos das mãos atrapalhados, derrubava coisas, sujava-se quando comia. Datilografava com dois dedos.

Aos 17 anos, fez estágio como contínuo em O Jornal, onde conheceu o magnata da imprensa Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados. A permanência em O Jornal, contudo, foi breve. Após desentendimento com Urbano Ganot, diretor do diário, foi demitido.

Em 1936, Nasser foi contratado por Roberto Marinho, diretor de O Globo, onde atuou por quase nove anos. Data desse período o início de sua carreira como letrista, época em que passou a frequentar o Café Nice, ponto de encontro de compositores e intérpretes, que ficava próximo à redação de O Globo. Seu primeiro sucesso foi “Nega do cabelo duro”, de 1940, em parceira com o lutador de boxe Rubens Soares. No ano seguinte, compôs “Canta, Brasil” em parceria com Alcyr Pires Vermelho, inspirada em “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, sucesso absoluto no carnaval de 1939. Herivelto Martins foi outro dos muitos parceiros musicais, com quem escreveu inúmeras canções, como “Camisola do dia”, “Pensando em ti”, “Ave-Maria no Morro” e “Atiraste uma pedra”.

Em 1943, Nasser foi para a revista O Cruzeiro, dos Diários Associados, em meio a uma importante reforma gráfica e editorial que fez do semanário uma revista de fotorreportagem. Jean Manzon, experiente fotógrafo francês, foi o expoente dessa modernização. Veio para o Brasil em 1940 quando, na Europa, a França sofria a invasão alemã. Aqui, trabalhou no Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão de controle e censura à imprensa do Estado Novo (1937-1945).

 

Com Jean Manzon, David Nasser formou uma das duplas mais lendárias da história do jornalismo brasileiro, tendo produzido reportagens antológicas para a revista semanal O Cruzeiro

Freddy Chateaubriand convidou Nasser para fazer parte da equipe do semanário. Prometeu-lhe que suas matérias seriam assinadas, o que não ocorria em O Globo, de onde saiu definitivamente em 1944.

David Nasser e Jean Manzon se tornaram a primeira grande dupla de repórter e fotógrafo do jornalismo brasileiro. Manzon trouxe para O Cruzeiro a sua experiência na revista francesa Match, na qual eram publicadas diversas reportagens fotográficas repletas de imagens raras e exclusivas, obtidas com espertezas, como ofertas de retratos a funcionários do segundo escalão, formando assim uma rede de informantes, ou ainda forjando situações.

Uma das reportagens mais famosas da dupla foi “Barreto Pinto sem máscara”, publicada em 29 de junho de 1946. Exibia o deputado federal Edmundo Barreto Pinto, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), trajando cueca samba-canção e fraque. O deputado acabaria cassado por quebra de decoro parlamentar. Na versão de Barreto Pinto, a dupla havia prometido que só usaria a imagem da barriga para cima, como conta Luiz Maklouf Carvalho, no livro Cobras Criadas, que descreve a carreira da dupla em O Cruzeiro.

Como “grande ilusionista” do jornalismo, Nasser escreveu sobre uma visita que fez junto com Manzon a aldeia xavante, onde os índios teriam sido fotografados pela primeira vez. A matéria trazia 26 fotos em 20 páginas. O fato é que eles nunca chegaram perto dos indígenas. Duvida-se até mesmo que Manzon tenha de fato feito as fotos. O material teria sido aproveitado de um filme feito pelo DIP, departamento de propaganda do Estado Novo, onde Manzon havia trabalhado.

A dupla conseguiu fotografar May-lin Soonn Chiang, mulher de Chiang Kai-shek, o líder chinês, que esteve no Brasil em 1944. Era um furo. Ao que se apura, o próprio David Nasser, vestido de mulher, se fez passar pela chinesa. Numa ”reportagem” de 1944 (43 dias nas selvas amazônicas), ele diz ter passado longa temporada na selva, sem ter colocado os pés fora do Rio de Janeiro.

Para concorrer com Nelson Rodrigues, que publicava o folhetim Meu Destino É Pecar, em O Jornal, sob o pseudônimo de Suzana Flag, David Nasser inventou uma personagem para o Diário da Noite, outra publicação dos Diários Associados: Giselle – A Espiã Nua Que Abalou Paris. O Diário da Noite anunciou que comprara “com exclusividade” as memórias da bela mulher que dormia com nazistas obtendo informações para as forças aliadas durante a Segunda Guerra Mundial. Para garantir a verossimilhança, o Diário chamou a série de “documentário” traduzido do original francês por um certo jornalista italiano chamado Carlos Tancini, que estaria de passagem pelo Rio de Janeiro – e que nunca existiu. A série escrita por David Nasser teve 59 capítulos. Jean Manzon, era o encarregado de produzir as fotos de Giselle. Segundo Freddy Chateaubriand, “nunca houve Giselle, ela nunca abalou Paris, mas o Diário da Noite foi o jornal de maior circulação daquela época. O Manzon trazia aquelas fotos não sei de onde, e o David escrevia com aquela facilidade”.

David Nasser, em 1947

Nasser foi homenageado em 1954 por Assis Chateaubriand, seu admirador, por quem era chamado de “beduíno de uma figa” ou “turco louco”, com uma matéria de oito páginas em O Cruzeiro, sob o título “David, o repórter”. Dali em diante, ele apareceria no expediente da revista como “repórter principal”.

Em 1959, Nasser tornou-se também um dos diretores de O Cruzeiro e passou a assinar o primeiro artigo da revista. Na TV Tupi, suas crônicas foram lidas no programa “Diário de um repórter”, entre 1962 e 1970. Não aparecia ao vivo – era fanho, tinha a dicção atrapalhada. Seus textos eram lidos por Alberto Curi, e “assinados” por uma imagem em que aparecia datilografando.

Um de seus principais inimigos políticos foi o gaúcho Leonel Brizola. Durante todo o ano de 1963, Nasser escreveu vários artigos insultando Brizola. A desavença entre os dois chegou à agressão física, quando, em dezembro de 1963, num encontro casual no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, foram ao chão, aos socos. Sobre o episódio escreveu: “se Kennedy, que era Kennedy, não pode evitar a bala de um louco de Dallas – como poderia eu escapar ao coice de um pangaré de Carazinho? São acidentes do trabalho.”

Com o golpe de 1964, estreitou relações com os militares, fazendo ampla defesa do regime e aderindo ao discurso ufanista. Tornou-se guru de Mário Andreazza, ministro dos Transportes, e foi abastecido por informações sigilosas sobre guerrilha urbana. Suas relações com militares, fazendeiros e empreiteiros influentes contribuíram para seu crescimento financeiro durante o período.

Durante as décadas de 1960 e 1970, Nasser defendeu publicamente a atuação dos “empreiteiros de Jesus”, como chamava os esquadrões da morte de policiais. No Rio de Janeiro, foi criada o grupo Scuderie Le Cocq, uma homenagem ao detetive Milton Le Cocq, morto em 27 de agosto de 1964. Quando a Scuderie Le Cocq foi legalizada, em 1971, Nasser foi oficialmente escolhido seu presidente de honra.

Em junho de 1967, David Nasser foi afastado de O Cruzeiro por causa de artigo no qual criticava a política comercial do governo brasileiro. No mesmo ano, embora mantivesse o nome no expediente da revista dos Diários Associados, passou a escrever para a revista Manchete. Voltou à revista O Cruzeiro em 1970, e seguiu ligado à publicação até 1975, ano em que a revista saiu de circulação. Finalmente, em 1976, retornou à Manchete.

Deixou uma fortuna em imóveis e fazendas à esposa, Isabel, quando faleceu em 10 de dezembro de 1980, vítima de câncer de fígado. Seu corpo foi velado no prédio da Manchete. Atendendo a um desejo seu, a bandeira da Scuderie Le Cocq guarneceu o caixão.