Crédito menos seletivo é desafio para 2019

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Duas realidades aparentemente antagônicas marcaram o cenário do crédito rural no Rio Grande do Sul em 2018. De um lado, os investimentos cresceram na ordem de 22%, impulsionados por juros mais baixos do Plano Safra 2018/2019 e pela rentabilidade alcançada em culturas como a soja — para quem colheu bem, leia-se metade norte do Estado. De outro, mais um ano de retração nos contratos individuais de custeio (4%), que reflete as crises setoriais em culturas como arroz, trigo e milho. Os dados são relativos aos meses de janeiro a outubro e constam no Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor) do Banco Central.

No período, os gaúchos tomaram quase R$ 4 bilhões no sistema oficial para financiar melhorias na produção e novas tecnologias, contra R$ 3,3 bilhões no ano anterior. “Significa que os encaminhamentos das feiras se confirmaram”, analisa o economista-chefe do Sistema Farsul, Antônio da Luz. Principal exposição agropecuária do Estado, a Expointer 2018 somou R$ 2,3 bilhões na comercialização de máquinas e implementos agrícolas, alta de 18%. Outra data forte, a Expodireto Cotrijal, vendeu 4% a mais no geral (R$ 2,2 bilhões) em 2018, sem discriminar o destino da compra.

O maior volume de investimento é mesmo para máquinas e implementos agrícolas: R$ 928,1 milhões nos 10 primeiros meses do ano, aumento de 16% no volume de crédito tomado. Outros segmentos de destaque no ano foram adubação intensiva de solo (82%), colheitadeiras (41%) e tratores (15%). Silos (179%) e armazéns e depósitos (36%) também cresceram em valores, mas não em contratos firmados.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) estabeleceu nove modalidades de investimento no Plano Safra 2018/2019. Destas, oito tiveram queda na taxa de juros, entre 0,5 e 1,5 pontos percentuais, em comparação com o ano-safra anterior. A outra (armazém até 6 mil toneladas) era inédita. Foi colocada sob taxa de 5,25% ao ano, menor valor entre todas as linhas. Vale lembrar que esses valores são praticados dentro do montante a juro controlado, ou seja, podem variar nos recursos livres.

Além das melhores condições de crédito, a Farsul acredita em estímulo ao investimento pela “recuperação tímida” do ambiente macroeconômico e pelo fato de os investimentos terem encolhido nos últimos quatro anos. Isso teria contribuído para os agentes financeiros mostrarem mais disposição a emprestar.

Silo – Sistema de armazenamento – Foto: Wendersen Araújo

Já a análise do custeio, que representa quase dois terços do crédito rural no Estado, é bem menos animadora para o setor. O montante avançou acima da inflação (5%), mas com 8,7 mil contratos a menos (4%). A maior parte da perda é na soja (4,3 mil), o que pode representar tanto o prejuízo causado pela estiagem na Metade Sul, quanto a capitalização da Metade Norte — a ponto de os agricultores dispensarem o sistema oficial de crédito para financiar a lavoura.

A realidade mais preocupante, porém, é a dos arrozeiros. Foram 18% menos contratos em relação a 2017, dado que é atribuído ao crescente endividamento do campo, ocasionado pelos preços baixos na colheita há duas safras. Sem condições de apresentar garantias bancárias, parte dos produtores abandonou a atividade, enquanto os mais persistentes apelam aos engenhos e a outras alternativas fora do crédito oficial.

A situação fez a Federação das Associações de Arrozeiros do Estado (Federarroz) recomendar aos produtores que não tomassem recursos para a safra “com vencimento na colheita” — em outras palavras, com acerto prévio na indústria. “Não plantem para não aumentar o prejuízo”, afirma o presidente da entidade, Henrique Dornelles. “Diminuir a lavoura ou mesmo parar é uma atitude de gestão.”

Henrique Dornelles – Crédito: Flávio Burin/Divulgação

Outro setor que teve baixas relevantes é o do leite. Quase 25 mil produtores abandonaram a atividade em 2017, conforme levantamento da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado (Emater/RS). Foi o pior ano do leite dos últimos 12 anos em termos de remuneração, confirmou estudo da Universidade de Passo Fundo (UPF), com queda acumulada de quase 8%.

Antônio da Luz, da Farsul, cobra soluções do governo federal, alegando que o crédito mais seletivo é uma ideia contrária aos objetivos do Plano Safra. “Perdemos quase 10 mil produtores este ano. Entre 2014 e 2017, foram 30 mil. Precisamos repensar o sistema de crédito rural no Brasil, o que passa por liberalizar o crédito, atrair open banks, fintechs, investimento estrangeiro, por meio de sistemas de proteção cambiais, como hedges aperfeiçoados”, avalia o economista. “O Plano Safra é quadrado, protetivo a algumas instituições financeiras. Temos que abrir mais esse mercado.”

Antônio da Luz, da Farsul

Outro pleito é o fortalecimento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, em que a União apoia a contratação com 30% a 40% do valor (há limite anual). Para os próximos três anos, o plano é destinar R$ 450 milhões, R$ 468 milhões e R$ 487 milhões ao programa, respectivamente. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), por outro lado, entende serem necessários R$ 1,2 bilhão ao ano, para triplicar a cobertura no campo. Entidades apostam que o seguro traz mais garantias de adimplência e facilitaria o empréstimo dos bancos. A ideia já foi apresentada, informalmente, à ministra da Agricultura do futuro governo, Tereza Cristina (DEM/MS).

Para 2019/2020, Selic na meta
A taxa de juros de custeio no Plano Safra 2019/2020 deve, no mínimo, acompanhar a Selic em 6,5% ao ano. Essa é a demanda com que trabalha a Farsul, enxergando contrassenso no fato de os valores controlados (7% a.a., exceto médios produtores, Pronamp, com 6% a.a.) estarem acima da taxa de referência do mercado hoje.

A base do argumento é a projeção da inflação para 2019 — 4,07% no último Relatório Focus do Banco Central, abaixo da meta — e da Taxa Selic (7,5% a.a.), em trajetória de queda no mesmo Focus. “Abre espaço para baixar o juro do crédito rural”, afirma o economista da entidade, Antônio da Luz.

Em relação aos recursos, o volume atual de depósitos à vista e em poupança, que compõem o montante disponível a juro controlado do Plano Safra, apresentam crescimento em relação ao ano passado, na comparação entre outubro de 2017 e 2018. A primeira fonte manteve os R$ 173,9 bilhões. Já a poupança teve alta de quase R$ 9 bilhões (1,16%) em 12 meses e se aproxima dos patamares de 2015. Restam ainda, porém, cinco meses para a definição — difícil de arriscar previsões nesse sentido.
Destaque- Foto: Marcos Santos – USP Imagens