Comunicação nem sempre rompe o silêncio

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O silêncio nem sempre é paz. Às vezes é a maneira encontrada para colocar uma “pedra sobre os assuntos”. Tantas pedras colocadas acabam represando mil perguntas sem respostas, palavras não ditas, histórias não reveladas. Quando alguém, sufocado, consegue tirar uma pedra por fim, acaba por se arriscar a ser soterrado, matando não apenas o espaço gigante entre a pergunta sem resposta como, também, a chance de dar significado ao vazio que vai ser formando.

O silêncio nem sempre é sábio. As vezes é o medo de revelar a si próprio. O não dito nem sempre é voltado aos outros, o silêncio começa na gente. Começa dentro. Não falar às vezes é tentar matar em si aquilo que poderia nos liquidar diante do outro. Por isso, alguns, ao contrário de silenciar, falam nada sem parar. Falam, falam e falam, mas não dizem. Não contam. Com estes, não se conta.

A virtude da comunicação está ficando escassa justamente num momento em que se pode falar até da lua. Canais não nos faltam. Falta o fluir. Falta a escuta. A comunicação está ficando sem escuta e deste jeito não vai romper o silêncio. Sem a escuta, a comunicação só reforça os vazios ou as pedras sobre os assuntos, barrando a palavra, matando direitos.

Leva tempo até que se entenda que a comunicação não é ponte onde palavras vão atravessando de um lado a outro. Comunicação é usina. Ampara a escuta, dá espaço para a fala e a partir do que é coletado se constrói significados reais.

A comunicação não muda só quem escuta, transforma, também, quem fala. E as palavras, figuras e significados vão tomando espaço e construindo uma história conjunta com versões particulares, com fatos compartilhados. Numa mesma base de fatos se pode ter diferentes verdades, o que não se pode é tomar como base uma verdade, já que não resulta sempre de uma construção conjunta. A comunicação como exercício unilateral é o que vai tornando as versões mais importantes que os fatos.

Por isso, todos os dias me empenho para silenciar, escutar e falar. Me empenho para construir comunicação que transforme quem fala e quem escuta. Pessoas, empresas, projetos. Numa conexão profunda, todos se afetam. Comunicação, para mim, é uma conexão profunda.

Todos os dias me esforço para criar a palavra, dar forma a imagem, dar espaço a fala, dar tempo ao silencio porque acredito na comunicação como cidadania, como ética, como existência.  A cada instante entendo que informação é respeito e comunicação é construção e cura.