Combate ao desperdício alimentar

COMPARTILHAR

Falta de planejamento na ida ao supermercado e esquecimento de alimento no refrigerador são alguns dos motivos apontados por consumidores que resultam em desperdício de alimentos. Pesquisa encomendada pela multinacional Unilever indicam que 60% das pessoas, de algum modo, perdem comida por descuido.

Os dados se somam à estimativa da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) de que cerca de 1/3 de todo o alimento produzido no mundo seja desperdiçado ou descartado.

Os grupos de alimentos mais desperdiçados na América Latina são as frutas e hortaliças (55%), as raízes e tubérculos (40%), os pescados (35%) e os cereais (25%). Quando o não aproveitamento de alimentos ocorre na cadeia de produção e distribuição, o termo aplicado é o da “perda”. Quando o problema ocorre no consumo, especialista usam “desperdício”.

Uma iniciativa da Embrapa pretende reduzir pela metade esse desempenho negativo até o ano de 2030. Essa é uma das metas (meta 12.3) de um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável estabelecidos pelas Nações Unidas em 2015 (Consumo e Produção Responsáveis).

Na cadeia de produção, é possível evitar que parte da comida produzida vá para o lixo. Um exemplo é qualificar o acondicionamento dos alimentos durante seu transporte até os locais de venda. Outra medida é melhorar as embalagens de modo que elas possam acompanhar o produto o máximo de tempo possível, o que melhora a conservação.

Neste ano, entre 5 e 11 de novembro, ocorre a Semana Nacional Contra o Desperdício de Alimentos. O objetivo é aumentar a compreensão e fortalecer a ação de todos os setores da sociedade, principalmente consumidores, produtores agrícolas, indústrias alimentícias, comércio e varejo, pesquisa e inovação, com a finalidade de contribuir para a redução de perdas de alimentos no País.

Muitos alimentos são perdidos na cadeia de produção, como no escoamento da safra até ao consumidor final, por exemplo. Para o analista da secretaria de inovação da Embrapa, Gustavo Porpino, esse é um dos principais desafios. “Os circuitos no Brasil são muito longos e temos que pensar em soluções que ataquem os problemas das perdas no início da cadeia, derivadas da deficiência de infraestrutura. Também devemos pensar no desperdício no final da cadeia, na etapa do consumo familiar”.

Outra frente de atuação da Embrapa no combate ao desperdício de alimentos é a campanha #SemDesperdício, lançada no final de 2016. Assim como a semana nacional de conscientização, o objetivo da campanha é aproximar o tema desperdício de alimentos do dia a dia dos brasileiros, buscando gerar um impacto positivo nos hábitos de consumo alimentar e comportamentos.

Para Murilo Freire, pesquisador da Embrapa Agroindústria de Alimentos, a capacitação e as ações de educação e conscientização sobre desperdício de alimentos são fundamentais. “Nós já realizamos ações em escolas públicas e sabemos que crianças e jovens se tornam multiplicadores de informações junto a seus familiares”, exemplifica.

Uma perspectiva de futuro
A redução de perdas e desperdícios de alimentos integra a megatendência Intensificação e Sustentabilidade dos Sistemas de Produção Agrícolas do Documento Visão 2030, lançado pela Embrapa este ano. O documento representa o planejamento estratégico da Empresa para o horizonte 2030 de acordo com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

As megatendências, no total de sete, apontam desafios para a agricultura brasileira para os próximos anos. E de acordo com o documento, a questão do desperdício de alimentos nos domicílios é um fenômeno social que somente agora começa a ser estudado e melhor compreendido.

“As famílias também descartam quantidades consideráveis de alimentos devido a fatores culturais, como, por exemplo, cozinhar mais do que o necessário e apresentar grandes porções de alimentos à mesa”, informa o documento que também reconhece que o enfraquecimento do sistema público de extensão rural dificulta a transferência de tecnologia para a redução das perdas pós-colheita, bem como a insuficiência de investimentos na melhoria logística que traz consequências para o escoamento seguro da produção.

Outro dado alarmante diz respeito à situação dos solos. Em evento recente no Brasil, o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), José Graziano, alertou que um terço dos solos globais está degradado. Segundo ele, além dos impactos já sentidos negativamente na produção de alimentos – hoje mais de 815 milhões de pessoas sofrem com a fome e a desnutrição –, essa situação prejudica também a geração de energia e produção de fibras.

O desafio, na alimentação do futuro, é conseguir enfrentar o crescimento populacional diminuindo a área plantada e o uso de fertilizantes no solo. Hoje, a área mundial destinada à produção agrícola é de 682 milhões de hectares. Especialistas ponderam que 600 milhões são suficientes para alimentar 10 bilhões de pessoas. A chave é aumentar a produtividade sem avançar em outras regiões.