Clico, logo desisto

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A linguagem nos transforma e as redes tem transformado a linguagem.
Adicionamos e deletamos, sem parcimônia. Nos tornamos absolutos.
Frente a tela temos poder, coragens e opiniões firmes.
Lançamos convites e fazemos comentários que, ao vivo, talvez não fizéssemos.

Vamos clicando e assim nos despedindo das nossas habilidades sociais. Alguns nem precisam mais delas já que recriamos nossa comunidade e ela, agora, é deletável. Sons de notificação dão conta das novidades que chegam visuais, mas silenciosas. A comunicação em rede não tem voz e as relações vão perdendo o tom.

As interações vão ao limite do que nos interessa. A rede não nos amplia, ela nos blinda e conecta entre os que nos são palatáveis. Digitalizamos nossos clubes e clãs. O diferente, mesmo na era da empatia, não nos interessa, espiamos sem interação. Vemos sem perceber e nesse passar de dedo na tela surgem as musas e aparecem os gênios. Somos todos celebráveis.

Não há muito o que descortinar, queremos que nos vejam em flashes e vamos nos mostrando em posts.

A rede afasta e ainda assim a gente se sente perto.
Até que ficamos somente com nosso reflexo
nossas próprias caras
e nossos pratos de comida
ego gordo e alma desnutrida.

Que a solidão é ameaçadora nos tempos modernos, sabemos
que as redes não aplacam a solidão, ainda não.