China X EUA: bom para o Brasil

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O mercado mundial de soja, ao mesmo tempo que depende da variação de preço da commodity, tem na política comercial outro fator importante: a guerra tarifária recente entre Estados Unidos e China, por exemplo, pode representar uma oportunidade para o Brasil aumentar a venda da oleaginosa para o gigante asiático.

A questão deve ser analisada levando em conta diversos fatores. Desde o início deste ano, o presidente norte-americano, Donald Trump, impôs uma série de tarifas às importações chinesas. Em retaliação, a China elevou taxas para importar diversos produtos dos norte-americanos – principalmente soja.

A demanda chinesa pela oleaginosa é enorme, e o Brasil saiu na frente: vendemos, apenas no ano passado, 51 milhões de toneladas de soja para a China, enquanto os Estados Unidos ocupam o segundo lugar, com 30 milhões de toneladas. “O foco dos Estados Unidos é reduzir o déficit comercial com a China, por isso essa guerra tarifária. Os chineses compram muita soja porque é crescente a busca por proteína animal no mercado interno”, avalia Lucílio Alves, pesquisador de grãos do Cepea e professor da Esalq/USP.

Há diversos cenários, inclusive tendo o Brasil como beneficiário. Haveria espaço para a soja nacional entrar com mais força na China ocupando parte das importações norte-americanas. Por outro lado, os números deste ano mostram que os Estados Unidos não devem ter prejuízos: parte da soja que a China deixou de comprar deles está indo para o mercado europeu, principalmente Alemanha.

“Certamente, com a China deixando de comprar, sobra soja nos Estados Unidos e os preços caem. Por isso a União Europeia adquire um produto mais barato. Então, claro, o Brasil poderia vender mais em quantidade no primeiro momento, mas os preços terminariam se ajustando no mercado internacional”, avalia Alves.

Outro ponto a ser considerado é que poderia haver maior demanda chinesa por milho dos Estados Unidos, uma vez que o país asiático tem uma política crescente de misturar etanol na gasolina. “Isso vai exigir um crescimento expressivo de moagem de milho para este sim, e isso implicaria menor demanda dos asiáticos pelo nosso milho”, conta o pesquisador do Cepea.

Conforme o Instituto Econômico de Pesquisa Aplicada (Ipea), há razões para o produtor nacional sorrir. Tanto o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (United States Department of Agriculture – o USDA) quanto a Conab apontam o país como o principal fornecedor para os chineses.

Outro ponto importante é que o longo período de seca na Argentina entre os meses de janeiro e março deve reduzir em 13 milhões de toneladas a expectativa de produção do grão. A colheita no vizinho está praticamente concluída. A estiagem prolongada e, depois, a umidade excessiva impactaram fortemente o setor: a produtividade chegou a 2 mil quilos por hectare, o mais baixo desde 2009.

Por outro lado, é preciso estar alerta que, da mesma forma com que a China aumentará sua dependência da soja brasileira, o Brasil deve se tornar cada vez mais dependente dos chineses na venda. Isso porque tradicionais compradores de soja, como Rússia e países do leste europeu, estão aumentando suas produções da oleaginosa e se tornando autossuficientes.

Outra preocupação é o aumento dos custos com frete devido à indefinição sobre uma tabela de frete. A elevação dos custos, tanto para chegada de insumos quanto para o escoamento da produção, pode reduzir ainda mais as margens de lucro dos produtores. Desde maio, boa parte da safra ainda não havia chegado aos portos simplesmente porque não se sabe o custo com o frete.

Soja cresceu 112% no RS
Dados divulgados recentemente pela Emater mostram que a área total cultivada com soja no Rio Grande do Sul é de 5,71 milhões de hectares, o equivalente a 3,29% a mais em relação à área cultivada na safra anterior. Se levada em conta a evolução da cultura no Estado nos últimos 10 anos, há uma ampliação de 112% na produção (de 8,02 milhões de toneladas, em 2009, para 17,08 milhões de toneladas, em 2018), enquanto que a área cresceu 49,35%.

Entretanto, as informações da Emater indicam que a produção total desta safra será 8% menor em relação ao ano anterior (18,57 milhões de toneladas), resultante principalmente de fatores climáticos adversos em algumas regiões. Em relação à riqueza, levando em conta o preço médio praticado em maio, o valor bruto da produção no Rio Grande do Sul equivale a um montante de R$ 22 bilhões.

A produtividade média é de 3 mil kg/ha (50 sacas/ha), 10% menor que a média da safra anterior. Apesar disto, a produtividade esperada é a segunda maior dos últimos 10 anos, ficando atrás apenas da média da safra passada.

Há uma variação significativa na produtividade em diferentes regiões do Estado. Na zona Sul, na região de Pelotas, por exemplo, a produtividade gira em torno de 1,7 mil kg/ha (28,9 sacas/ha), enquanto que na região de Santa Rosa, no Noroeste, chega a 3 mil Kg/ha (50 sacas/ha) e a região de Passo Fundo, no Norte, vai além média e soma 3,6 mil kg/ha (60,3 sacas/ha).

No País, a oleaginosa ocupa 36 milhões de hectares, com uma produção total estimada para este ano de 118 milhões de toneladas, segundo dados da Conab. A produtividade média é de 3,2 mil quilos por hectare.

Óleo em pneus e cosméticos
A versatilidade do milho, que, além de alimento, vira componente para adesivos, tintas e vários produtos industriais, pode estar chegando também na soja. Apenas nos Estados Unidos, cerca de 2% das 120 milhões de toneladas anuais da oleaginosa têm como destino o uso industrial. A informação é do pesquisador Atanu Biswas, da Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (ARS/USDA), que esteve recentemente no VIII Congresso Brasileiro de Soja.

Estão no mercado mais de 140 produtos com a soja, como cosméticos, tinta e combustíveis. “Como é abundante e sustentável, o óleo de soja pode substituir óleos à base de petróleo em algumas composições”, avalia ele. O pesquisador relata os novos usos de tinta para revestimentos de madeira, impressão de jornais e revista e também em rodovias, o que melhora a visibilidade e a vida útil da pintura.

Ano passado, chegou ao mercado norte-americano a primeira linha de pneus com a adição de óleo de soja na formulação da borracha, resultado de pesquisa da multinacional Goodyear em parceria com a United Soybean Board (Conselho dos Produtores de Soja dos Estados Unidos).

O objetivo era buscar um pneu mais sustentável, mas os resultados surpreenderam. “A introdução do óleo de soja na formulação da borracha permitiu, mesmo em condições adversas (calor, frio ou umidade), maior garantia de aderência e tração ao pneu”, relatou Biswais.