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Brain drain: talentos em fuga representam riscos ou oportunidades?

A presença de publicitários brasileiros no mercado internacional é cada vez mais constante e evidencia o interesse crescente dos profissionais, sobretudo os mais jovens, em atuar fora do País. Mas no caso da publicidade, a fuga de cérebros está longe de ser um problema.

O Brasil é um celeiro criativo. Esse é um fato inquestionável e fácil de comprovar. Na publicidade, por exemplo, basta observar o desempenho de profissionais brasileiros em premiações internacionais.

No ano passado, o país conquistou 99 Leões no Festival Internacional de Publicidade Cannes Lions, sendo 14 ouros, 33 pratas e 52 bronzes. Ainda que no cômputo das empresas nacionais não tenha entrado nenhum Grand Prix, não se pode dizer que o Brasil tenha deixado de tocar o troféu máximo, concedido em 24 categorias. Isso porque cinco GP foram levados por brasileiros que atuam fora do país.

Enquanto as empresas nacionais alcançam posição de destaque, levando o país ao quarto melhor desempenho no ranking mundial da premiação (a maior do segmento), profissionais brasileiros ganham projeção lá fora. Juntas, as conquistas internas e externas fazem com que o Brasil seja cada vez mais reconhecido pelos talentos criativos que gera.

O efeito disso tudo é fuga de talentos, o chamado brain drain. Só que ele é bem diferente do êxodo que, em outras áreas, gera prejuízos incalculáveis, como na pesquisa científica. No geral, não parece interessante para qualquer país perder seus principais talentos para outros mercados.
Para a publicidade, no entanto, essa situação gera um movimento virtuoso, de estímulo à formação e especialização dos profissionais, aprimoramento das agências brasileiras e ampliação da exportação de serviços publicitários.

Do fluxo interno aos grandes players
Tradicionalmente, São Paulo sempre atraiu publicitários de todo o Brasil. A atratividade do mercado paulistano se justifica pela participação elevada nos investimentos em publicidade no País. De acordo com os dados mais recentes apurados pelo Instituto Kantar, o segmento publicitário movimentou mais de R$ 129 bilhões em 2016.
A cidade de São Paulo é o maior mercado no país. Um outro levantamento feito pela Kantar isolou dados exclusivos sobre o faturamento na capital paulista, indicando que o município movimentou sozinho R$ 30 bilhões em 2014, ano em que o segmento como um todo girou pouco mais de R$ 46 bilhões, segundo o Projeto Inter-Meios, relatório de investimento em mídia coordenado pelo Grupo Meio & Mensagem em parceria com a auditoria PricewaterhouseCoopers (PwC).

A representatividade paulistana criou um interesse natural entre profissionais da área. Gaúchos sempre focaram nesse mercado, contextualiza o diretor do curso de Publicidade e Propaganda da ESPM-Sul, Alessandro Souza. “Os publicitários migravam para São Paulo e agora estão indo para fora do Brasil.”

Fernando Silveira, presidente do Sindicato das Agências Propaganda no Estado do Rio Grande do Sul (Sinapro-RS), concorda e vai além: diz que o movimento de saída dos profissionais, inicialmente, era voltado para o mercado português, pela afinidade e idioma. Agora, o alcance é maior. Os mais jovens têm direcionado suas perspectivas para Estados Unidos, Inglaterra e países integrantes da União Europeia.

O que os jovens publicitários buscam?
Entre os formandos em publicidade e propaganda da ESPM-Sul, está havendo aumento dos que concluem a faculdade e vão buscar oportunidades fora do Brasil, constata o diretor do curso, Alessandro Souza. “De três a quatro anos para cá, a proporção de egressos que deixam o país é enorme. Se antes entre 10% a 20% saiam, hoje tem turma em que 30% a 40% deixam o Brasil logo após a formação.”

Um dos fatores que contribui para a saída dos recém-formados é a facilidade de começar a vida em outro país. Como, em geral, são pessoas que ainda não começaram a construir carreira ou família no Brasil, a mobilidade é maior. Além disso, muitos vão em busca da pós-graduação, relata Souza. Isso favorece a conquista de posição no mercado de trabalho estrangeiro.

“São alunos que vão competir em mestrados e especializações nas melhores universidades do mundo e que têm índices altíssimos de aprovação”, salienta. Se, por um lado, há uma inquestionável fuga de cérebros – e perder talentos nunca é algo desejável –, por outro, há considerações positivas, detalha Souza. “Isso mostra que temos uma formação forte, sólida, no bacharelado.”

A pós-graduação não é a única condição que leva talentos a explorarem o mercado externo. Fernando Silveira, do Sinapro-RS, entende que a motivação desses jovens nem sempre está relacionada apenas ao mercado de trabalho, mas às condições de vida de uma maneira geral. Há preocupações como a violência, por exemplo, condição que leva a uma insatisfação maior com o lugar em que se vive do que, de fato, com o local em que se trabalha.

Perde-se por um lado, ganha-se por outro, pondera Silveira. Profissionais que abrem mão de seus posto de trabalho no Brasil costumam ser os mais preparados, com uma bagagem destacável. “Perder talento nunca é bom. Perdemos em maturidade, em inteligência madura.” No entanto, há ganhos. Silveira avalia que, na mesma medida em que ocorrem as saídas, abre-se espaço para o ingresso de novos talentos nas faculdades e no mercado de trabalho local.

Além disso, para os publicitários que almejam deixar o Brasil, o fato de haver profissionais atuando nos principais mercados abre portas. Ou seja, assim como há um mercado a explorar no país, há outras praças que são e tendem a ser cada vez mais receptivas aos criativos brasileiros.

Criativo brasileiro entre os mais promissores do mundo
Rafael Rizuto foi um dos brasileiros premiados com o Grand Prix na última edição do Festival de Cannes. A premiação reconheceu o trabalho, desenvolvido em conjunto com Eduardo Marques, “Boost Your Voice”, elaborado para a agência 180LA.

Considerado um dos profissionais mais talentosos do país, Rizuto abriu mão do cargo de diretor de criação da 180LA, no final de 2017, para fundar a agência TBD, instalada em São Francisco. A trajetória fora do Brasil e que o levou a atual posição começou há pouco mais de dez anos, em 2006, quando ele recebeu uma proposta para trabalhar no Bahrain, ilha no meio do Golfo Pérsico.

“Até hoje eu não entendo como eu aceitei aquela proposta, eu não falava nada de inglês, e nem sequer tinha um passaporte. Mas foi um divisor de águas na minha vida.” Bacharel em Design Gráfico pela Universidade Federal de Pernambuco, Rizuto começou a carreira há 17 anos, em Recife.
Com poucas oportunidades de trabalho como designer gráfico no mercado local, ele começou a estagiar em agências de publicidade desde cedo. Quando formado já acumulava alguns anos de experiência no ramo. “Nunca tinha passado pela minha cabeça a ideia de atuar fora do Brasil, meus planos no máximo eram um dia desbravar o mercado de São Paulo”, conta. Ao aceitar o convite inusitado, Rizuto mudou completamente as perspectivas.

Depois do Bahrein, Rizuto foi para Dubai, onde trabalhou para a Ogilvy e a Leo Burnett. Após um ano no Bahrein e quatro em Dubai, voltou ao Brasil, onde ficou um ano na Ogilvy SP. As transições não pararam. Do Brasil foi para São Francisco atuar na Pereira & O’Dell por mais três anos. De São Francisco migrou para Los Angeles, onde passou três anos na 180LA.

Finalmente, no final do ano passado, fincou os pés em São Francisco mais uma vez, mas, agora, para abrir a própria agência. Essa experiência permite a Rizuto avaliar o cenário da publicidade do Brasil com um olhar de fora, sem perder de vista a vivência aqui. “No Brasil, a propaganda é parte da cultura do país. Alguns publicitários são celebridades. Isso não acontece aqui fora”, revela.
Os publicitários brasileiros, destaca, são muito bons para a quantidade de oportunidades, o que cria uma concorrência acirrada. “As pessoas dão o máximo porque sabem que tem uma fila querendo ficar no lugar dela. Quando esses profissionais chegam aqui, eles arrebentam. São mais apaixonados e trabalham mais duro do que todo mundo. É impressionante.”
Enquanto a publicidade é só mais um trabalho para os gringos, para o brasileiro, é um modo de vida, resume. O mercado internacional, não à toa, é bastante receptivo aos nossos publicitários. Em um cenário de crise econômica, como a enfrentada pelo Brasil, isso faz toda a diferença. “Agências demitindo, clientes diminuindo verbas e o cenário político catastrófico deram o empurrão final. Além de ser valorizado aqui fora, o profissional brasileiro experimenta, por muitas vezes, uma qualidade de vida.”

No ano passado, Rafael Rizuto e Eduardo Marques entraram na lista dos 40 profissionais mais promissores do mundo com menos de 40 anos, o ranking 40 Under 40, do Advertising Age. Na época, os dois atuavam na diretoria executiva de criação da 180LA.

Rizuto declara que ainda é um romântico. “Acredito que a criatividade tem o poder de mudar o mundo.” Por isso, aconselha quem está começando agora a nunca subestimar o poder de uma ideia, além de manter a cabeça aberta e não focar só em agências. “Nunca vire um cínico, e agradeça todos os dias por ser pago para passar o dia daydreaming.”

Internacionalização da criatividade brasileira é cada vez maior
A publicidade nacional se destaca no mercado internacional seja pela saída dos talentos que conquistam espaço em outros países ou por conta da exportação de serviços, que tem crescido nos últimos anos.

“É incrível como os publicitários brasileiros seguem com um bom renome”, afirma o publicitário Giovanni Pintaúde, que deixou o Brasil há nove anos e atualmente é diretor de criação executivo na Possible, agência sediada em Budapeste. “Pessoas de outras agências aqui na Hungria vieram falar comigo para que eu desse recomendações de criativos para eles.”

A presença dos brasileiros nos principais mercados mundiais, como Inglaterra, Alemanha, Austrália e Estados Unidos, é marcante e decorre do reconhecimento de que o perfil dos profissionais locais é diferenciado. “As agências sabem que o Brasil tem uma escola boa de direção de arte, que os brasileiros são trabalhadores, estão acostumados a ter competitividade alta e são criativos”, descreve Pintaúde. “É uma coisa natural que a gente tem, e também essa gana natural de querer dar certo, de vencer.”

As portas que se abrem para publicitários que querem deixar o Brasil são as mesmas que permitem às agências brasileiras o acesso ao comércio externo de serviços publicitários. Em geral, o comércio exterior no Brasil é composto basicamente de commodities e outras mercadorias.

Recentemente, no entanto, os serviços, que respondem por mais de 70% do nosso produto interno bruto, começaram a ampliar a presença internacional. A economia criativa é uma das que mais se destacam nesse cenário, em áreas como arquitetura, design, publicidade e audiovisual.

Na publicidade, existe cerca de cem empresas exportadoras, que em faturaram em média mais de US$ 93 milhões entre 2014 e 2016. Nesse período o ano de maior destaque foi 2015, com uma movimentação de quase US$ 155 milhões, e o de pior desempenho foi 2016, com US$ 48,46 milhões. Em 2014, o montante passou dos US$ 77 milhões.

Os dados relativos à 2017 ainda não estão disponíveis, o que ajudaria a identificar se 2016 foi um ano fora da curva ou se há uma tendência de queda. Fato é que, no período recente, a expansão é evidente. Em 2011, o volume movimentado pela exportação de serviços de publicidade foi de US$ 11 milhões. O brain drain é um dos aspectos que contribui para essa projeção.