Até o novo vazio

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A vida é feita de alegrias. Eu as sinto e celebro. Mas não sou acumuladora. Sou do tipo que se despede de algumas boas coisas da vida para a entrada das novas. Sejam elas boas ou ruins. É interessante que algumas pessoas, mesmo as mais próximas, as que eu amo, não conseguem dar fim a determinadas etapas. Dar a elas o espaço possível, abrindo assim novos vazios para outras pessoas, momentos, ocasiões, alegrias e infortúnios que possam dar conta da vida!

Todo dia a gente tem um luto. Algo que tira do armário, um porta-retrato que tem que mudar, um quadro novo que toma lugar na parede, roupas que um dia já parcelamos em 10X para poder comprar e hoje vão para uma caixa. Escolhas que não renovamos. Músicas que não escutamos mais. Acho esse movimento tão lindo e muito verdadeiro. Embora dolorido. São os lutos diários. Dói passar, mas pior é nunca viver eles e com isso não fechar os ciclos ordinários da vida.

Onde se alicerça esta dificuldade de abrir espaço? Onde mora o medo de fechar ciclos? Não tem uma resposta única, cada pessoa tem um paradigma, ou muitos. Mesmo sob o risco de superficializar o tema, penso que, centralmente, não encerra ciclos quem tem medo do vazio. Tem, também, aquele tipo Tarzan, só larga um cipó quando já tem outro em mãos. E de novo é o medo do vazio, de encerrar aqui e andar rumo ao “acolá” sem saber onde é.

Repetir, prender, inserir coisas sem retirar outras, é para mim, o grande medo do vazio. A gente vai se enchendo, acumulando até estourar. Quando a mecânica não é de encher a gente tenta pela paralisia: deixa tudo no passado, deixa o passado alfinetado no presente: quando éramos jovens, quando podíamos fazer as coisas, quando meu filho era criança. E daí pioramos num ciclo de morte: “minha eterna criança”, referindo-se a um filho de cresce e amadurece dia a dia. Parar este ciclo é um ato de morte. A gente mortifica, amortiza, o espaço, o tempo, o lugar. Como se fosse possível ficar neste “não lugar”.

Encarar com coragem esta passagem é importante para seguir em frente livre e disponível. Porque é só no vazio, no espaço aberto, nas gavetas sem nada, no lado da cama sem ninguém… é só ali que se cria.

Enfrentar o vazio tem sido ainda mais difícil numa sociedade magnetizada pelas facilidades das redes espelho de ego. Quanto mais doloridos estamos, mais selfies postamos. Não basta enfrentarmos a dor daquele momento, ela precisa ser refratária e significar outra coisa: #plena, #life, #amorpróprio. E na contramão das tags, o cidadão segue repleto de suas coisas, e vazio de sua alma. Sempre se preenchendo. Evitando e driblando o silêncio.

Não tem como escrever uma história nova num caderno todo preenchido. Mesmo que a folha em branco nos paralise o início, precisamos dela para dar movimento na vida agora.

Digo por mim, que estou trêmula de saltar para o novo que eu escolhi e desejo e tendo que admitir minhas covardias. Ora bolas eu, tão coragem, encolhida no meu não lugar.
As pessoas, na gente, não terminam. As coisas sim.
Seguirei