Assis Chateaubriand, Chatô, o Cidadão Kane do Brasil

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Poucos empresários da imprensa nacional merecem o título de Cidadão Kane brasileiro como Assis Chateaubriand. Embora suas origens não sejam tão humildes como as do personagem de Orson Welles, Chatô – como era conhecido – conseguiu, ao longo de sua vida, juntar um poder econômico e político de fazer inveja ao magnata fictício.

Raras vezes, Chateaubriand não conseguiu o que queria. Sua vida foi um moto-contínuo de sonhos realizados: comprar um jornal, bater o recorde na circulação da revista “O Cruzeiro” (que passou dos 200 mil exemplares regulamente e teve edições, como a que noticiou o suicídio de Getulio Vargas, que passaram de 700 mil exemplares), ter um conglomerado de jornais, contratar a nata da imprensa nacional (de Rubem Braga a Sérgio Buarque de Holanda), conquistar vedetes, eleger Getúlio Vargas, derrubar Getúlio Vargas, comprar rádios, fundar a primeira TV do país (a Tupi), criar o “Louvre brasileiro” (o Masp), ser senador, ganhar a embaixada em Londres, entrar na Academia Brasileira de Letras. Entre o final dos anos 1930 e início dos anos 1960, foi dono dos Diários Associados, o maior conglomerado de mídia da América Latina, que em seu auge contou com mais de cem jornais, emissoras de rádio e TV, revistas e agência telegráfica.

Os meios para atingir esses fins raramente foram idôneos. Atirar no industrial alemão que tentou lhe tomar “O Jornal”, superfaturar em aquisições de telas para o Masp, abusar do jogo de influências para arrancar empréstimos e doações, difamar quem se pusesse em seu caminho, prometer casamento à namorada grávida e não cumprir, impedir escolha de ministros. Sua biografia é também um catálogo de maracutaias.

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo nasceu em 4 de outubro de 1892 em Umbuzeiro, na Paraíba, quase divisa com Pernambuco. Filho de Francisco José Bandeira de Melo e Maria Carmem Guedes Gondim, ganhou o nome Chateaubriand devido à admiração do pai pelo poeta e pensador francês François-René de Chateaubriand.

Formado em Direito no Recife, estreou no jornalismo aos 15 anos, na Gazeta do Norte, depois escrevendo para o Jornal Pequeno e para o Diário de Pernambuco.

Sedento por uma polêmica que fizesse seu nome paraibano circular “no Sul”, aos 17 anos saiu em ataque ao “exibicionismo” do então papa da intelectualidade brasileira, Sílvio Romero. O intelectual não lhe deu bola, mas Chateaubriand colheu frutos de sua impetuosidade. O livro com seus textos contra Romero saiu publicado no Rio de Janeiro, para onde logo se mudou para trabalhar no Correio da Manhã.

Na então capital federal, também trabalhou no Jornal do Commércio e no Jornal do Brasil, onde foi chefe de redação. Como comentarista internacional, Chateaubriand visitou vários países da Europa, o que lhe possibilitou a publicação, em 1921, do livro “Alemanha”. Em 1924 adquiriu sua primeira publicação, “O Jornal”, comprado por 5.800 contos de réis. Os recursos lhe foram fornecidos pelo “barão do café” Carlos Leôncio de Magalhães (Nhonhô Magalhães), e pelo industrial Percival Farquhar, alegadamente como honorários advocatícios. Substituiu artigos monótonos por reportagens instigantes e deu certo. A partir de então, começou a constituir um império jornalístico, ao qual foi agregando importantes jornais, como o Diário de Pernambuco, o jornal diário mais antigo da América Latina, e o Jornal do Commercio, o mais antigo do Rio de Janeiro. No ano seguinte, Chatô arrebatou o Diário da Noite, de São Paulo. À altura, já possuía os jornais líderes de mercado das principais capitais brasileiras, formando o embrião dos Diários Associados. Já em 1928 fundou a revista O Cruzeiro, que por décadas foi a mais importante do Brasil.

A ética quase nunca constava da sua estratégia empresarial: chantageava as empresas que não anunciassem em seus veículos, publicava poesias sobre os maiores anunciantes nos diários e mentia descaradamente para agredir os inimigos. Farto de ver o nome na lista de insultos, o industrial Francisco Matarazzo ameaçou “resolver a questão à moda napolitana: pé no peito e navalha na garganta”. Chateaubriand devolveu: “Responderei com métodos paraibanos, usando a peixeira para cortar mais embaixo”.

Tendo apoiado a Revolução de 1930 e a instauração do Governo Provisório de Getúlio Vargas, Chateaubriand teria recebido inúmeros favores, entre eles a concessão de vultosos empréstimos à cadeia dos Diários Associados, através da Caixa Econômica Federal. Ao final de 1931 começaram a surgir suas primeiras divergências com Vargas, com quem teria sempre uma relação pendular de apoio e oposição. Defendeu a Revolução Constitucionalista de São Paulo em 1932, sofrendo, em função disso, o confisco da sede e da maquinaria de O Jornal, órgão líder da cadeia dos Diários Associados, e recebendo uma ordem de deportação. Conseguiu, entretanto, escapar do barco que o conduziria para o exterior, o navio japonês Havai Maru, escondendo-se no interior do país durante vários meses. Reapareceu com a instalação da Assembléia Nacional Constituinte em novembro de 1933, conseguindo reaver seu principal jornal. Reconciliado com o governo, Chateaubriand adquiriu em 1934 sua primeira estação de rádio, a Tupi do Rio de Janeiro. Pouco tempo depois adquiriu a Rádio Tupi de São Paulo e a Educadora do Rio, que passou a se denominar Rádio Tamoio, dando início à constituição de uma cadeia de rádio-emissoras.

Em 1941, promoveu a Campanha Nacional da Aviação, com o lema “Deem asas ao Brasil”, na qual foi criada a maioria dos atuais aeroclubes pelo interior do Brasil. Funda o Museu de Arte de São Paulo (MASP) em 1947, com uma coleção particular de pinturas de grandes mestres europeus que ele adquiriu a preços de ocasião na Europa empobrecida do pós-Segunda Guerra Mundial (em aquisições por vezes financiadas à base de chantagem de empresários brasileiros), coleção esta que o presidente Juscelino Kubitschek, durante seu governo, colocou sob a gestão de uma fundação, em troca de auxílio governamental ao pagamento de parte da astronômica dívida do Condomínio Associado.

Chateaubriand casou-se uma vez apenas, no final da década de 1920, com Maria Henriqueta Barroso do Amaral, filha do juiz Zózimo Barroso do Amaral. Teve três filhos: Fernando, Gilberto e Teresa. Em 1934 desquitou-se e uniu-se a uma jovem de nome Corita Acuña, com quem teve uma filha, Teresa. Corita, decidida a deixar Chatô, levou a filha com ela. Chateaubriand consegue sequestrar a própria filha, assumindo a paternidade e, com o apoio de um decreto de Getúlio Vargas, obteve a guarda da filha. Nesse episódio, proferiu uma frase célebre: “Se a lei é contra mim, vamos ter que mudar a lei”. As relações de Chatô com os filhos foram conturbadas e repletas de grandes conflitos e separações radicais.

Chateaubriand sempre buscou adquirir novas tecnologias para os Diários Associados. Foi assim com a máquina Multicolor, a mais moderna máquina rotativa da época, sendo o grupo de Chateaubriand o primeiro e único a possuir uma por longo tempo, na América Latina; foi assim também com os serviços fotográficos da Wide World Photo, que possibilitava a transmissão de fotos do exterior com uma rapidez muito maior do que possuía qualquer outro veículo nacional.

No entanto, a inovação pela qual é mais lembrado aconteceu em 1950, quando inaugurou em São Paulo a TV Tupi, que foi a primeira estação de televisão da América Latina. Para que as casas selecionadas em São Paulo tivessem televisores a tempo de ver a primeira transmissão, ele contrabandeou os aparelhos. Posteriormente, chegou a ter 18 estações de televisão.

Elegeu-se senador na legenda do PSD da Paraíba em outubro de 1952. Para que pudesse ser eleito, conseguiu, naquele ano, a renúncia de Vergniaud Wanderley, senador da UDN por aquele estado, eleito em 1945, e de seu suplente Antônio Pereira Diniz. Aberta dessa forma uma vaga no Senado, foram realizadas eleições suplementares nas quais Chateaubriand foi candidato único. Repetiu o mesmo processo em 1955: obteve a renúncia do senador maranhense Alexandre Bayma e de seu suplente Newton de Barros Belo e, aberta essa vaga no Senado, elegeu-se pelo Maranhão na legenda do PSD. No entanto, deixaria o cargo em 1957 para assumir a embaixada do Brasil em Londres. Além disso, foi eleito para a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, a mesma de Getúlio Vargas, logo após o suicídio do presidente.

Trabalhou até o final da vida, mesmo depois de uma trombose ocorrida em 1960, que o deixou paralisado e capaz de comunicar-se apenas por balbucios e por uma máquina de escrever adaptada. Morreu em 4 de abril de 1968, e foi velado ao lado de duas pinturas de grandes mestres: um cardeal de Ticiano e uma mulher nua de Renoir, simbolizando, segundo o protegido Pietro Maria Bardi, organizador do acervo do MASP, as três coisas que mais amou na vida: “O poder, a arte e a mulher pelada”.