As falhas das pesquisas

COMPARTILHAR

Esta edição tem uma peculiaridade, que a tornou uma edição difícil de ser escrita: ela foi produzida entre o 1º e o 2º turno das eleições. Portanto,  ao escrever, ao entrevistar e ao editarmos não sabíamos do resultado da disputa eleitoral. Isso nos impediu de avançar na análise das estratégias usadas pelos candidatos finalistas, de projetar o futuro governo dos vencedores (governadores e presidente) e fazer um rescaldo desses três longos meses de campanha eleitoral.

Independente do resultado, foi possível identificar ganhadores e perdedores. Os partidos políticos tradicionais perderam e muito, a renovação no Congresso foi muito além do que se projetava e pode vir a representar um novo momento na política brasileira. Velhos caciques e raposas peludas da nossa política foram escanteados,  perderam o foro privilegiado, e como diz um refrão repetido nas ruas: perdeu o foro, caiu no Moro!

Mas, eu queria tratar a respeito de outros perdedores dessas eleições, os institutos de pesquisas, especialmente os dois maiores: Ibope e Datafolha.

Foi constrangedor ver e ouvir os dirigentes desses dois institutos, ao final do dia 7 de outubro, tentando justificar os erros grosseiros das pesquisas que vinham publicando durante o último mês de campanha, e, especialmente, as realizadas na véspera da eleição. Erraram feio, ambos os institutos. Os erros, dos levantamentos do dia anterior ao pleito, foram entre 5% e 6% no resultado de urna alcançado por Jair Bolsonaro, o triplo da margem de erro.

Para as vagas ao Senado, os erros foram ainda mais constrangedores. No Rio Grande do Sul, na véspera da eleição, o Ibope lascava: Paulo Paim tem 35%; José Fogaça, 31%; Beto Albuquerque, 24%; Luis Carlos Heinze, 18%; Carmen Flores, 13%; Abgail Pereira, 12%. Ou seja, Heinze, o candidato do PP que chega em primeiro lugar na disputa, com 22% dos votos dos gaúchos era apontado em 4º lugar pelo Ibope no sábado da eleição; Fogaça que pela pesquisa tinha 31% dos votos válidos e aparecia em 2º lugar, ficou em 5º lugar com 14% (menos da metade do que indicava o levantamento do instituto na véspera do pleito).

Aí, a explicação dos diretores de Ibope e Datafolha foi de que houve um “movimento brusco do eleitor”, como se durante a madrugada de sábado para domingo, milhões de gaúchos tivessem tido uma epifania e Deus os tivesse convencido a mudar, em massa, seus votos. Ou quem sabe, os eleitores tiveram um surto esquizofrênico e decidiram contrariar as pesquisas. Ora, ora, assim como a alguns partidos políticos, faltou autocrítica a esses institutos.

Eu cheguei a pensar que, talvez, fosse o caso de proibir a divulgação de pesquisas no último mês das eleições. Mas, por dois motivos, recuo dessa ideia. Primeiro, porque sou liberal e tendo a ser contra proibições, e também porque no vácuo da falta de pesquisas, a campanha do último mês de qualquer eleição se tornaria cenário das mais variadas fake news sobre o comportamento e a intenção de votos dos eleitores. Resultaria em um inferno ainda maior. O que precisa acontecer é uma redefinição de metodologia dos institutos, porque o modo como estão fazendo suas pesquisas se mostrou incapaz de captar o pensamento, as preferências e os movimentos dos eleitores, em tempos de redes sociais. É isso, ou continuarão a ser chamadas de Datafalhas.