Apesar do otimismo, safra de soja pode ser a mais cara da história

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Os produtores de soja brasileiros estão exultantes com os resultados do setor. Segundo as estimativas da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), o País deve bater um novo recorde nas exportações de soja em 2018, em torno da marca de 80 milhões de toneladas embarcadas. Este número supera as expectativas iniciais da Anec, uma vez que a associação projetava um volume em torno de 70 milhões de toneladas exportadas. De acordo com as projeções da associação, as exportações da oleaginosa devem ter um incremento de 19,4% frente ao ano passado.

 As altas nas projeções no número de exportações da soja brasileira foram influenciadas pela disputa comercial travada entre a China e Estados Unidos ao longo de 2018. Entre as retaliações envolvendo as duas potências globais, destaca-se a tarifa de Pequim que impôs uma taxa adicional de 25% aos grãos vindos dos EUA como resposta às taxações norte-americanas sobre produtos chineses. Devido a tais sanções, as importações chinesas de soja brasileira praticamente dobraram em outubro em comparação ao mesmo período do ano passado.

 A China costuma comprar grande parte de seu estoque de soja dos Estados Unidos no quarto trimestre do ano, período em que as safras de soja no Brasil ainda se encontram em fase de desenvolvimento. Contudo, em 2018, preocupados com a escassez do produto no país, que conta com o maior rebanho de suínos do mundo, os compradores chineses importaram 6,53 milhões de toneladas de soja brasileira em outubro, frente a 3,38 milhões de toneladas no mesmo mês do ano anterior, segundo os números divulgados pela Administração Geral das Alfândegas. Por outro lado, as importações chinesas de soja norte-americana diminuíram para apenas 66,9 mil toneladas, ante 1,33 milhão de toneladas em 2017.

Três fatores devem ditar o ritmo do setor em 2019: A guerra comercial EUA/China, os fatores climáticos e o novo governo sob o comando de Jair Bolsonaro. Apesar dos presidentes dos EUA e da China terem chegado a um acordo que suspende as taxações comerciais mútuas por 90 dias, a efetividade desta trégua ainda é incerta. Representantes do governo norte-americano anunciaram que, caso não se chegue a um acordo até 1º de março, as tarifas voltarão a subir. A China, por sua vez, também deve retomar as retaliações.

As projeções são positivas em relação ao clima. A consultoria AgResource Mercosul estima que o cenário climático geral para a América do Sul se mantenha estável para sustentar uma produção cheia no próximo ano. Um exemplo que parece confirmar as boas expectativas é a colheita em Mato Grosso, estado que lidera a produção de soja no Brasil. Devido às boas condições climáticas, O plantio da soja nesta temporada foi o mais rápido na história do estado, fato que possibilitou a venda antecipada da safra de 2018/19 na região.

No Rio Grande do Sul, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta que devem ser colhidas 18,69 milhões de toneladas de soja em 2019, produção 9% maior do que no ciclo passado. A alta da colheita se deve ao aumento de 1,5% na área de plantio em relação à safra anterior, espaço que deve chegar a 5,78 milhões de hectares. O grande volume a ser colhido para o ciclo do ano que vem deve elevar o valor bruto da produção de grãos no Estado, apesar dos altos custos, segundo o relatório divulgado pela Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul). A estimativa é que a produção da soja cresça 1,7% na safra frente a 2018.

Apesar do otimismo com crescimento do setor, a Farsul projeta dificuldades para 2019. Uma vez que os campos foram semeados sob a influência da alta do dólar graças às eleições, à greve dos caminhoneiros, alta dos juros dos EUA e a tensão comercial entre a nação norte-americana e a China, existe o receio que a diminuição do cambio prejudique a rentabilidade das lavouras quando chegar o momento de colheita e comercialização.

Antônio da Luz, economista-chefe da Farsul, afirma que a maior causa de preocupações não é a cotação em si, mas sim a volatilidade do dólar. “O que sabemos é que plantamos a safra mais cara da história. O câmbio é o grande temor para 2019”, ressaltou o economista. Enquanto o produtor encomendava fertilizantes, o dólar alcançou a marca de R$ 4,20. Todavia, a moeda norte-americana se encontra em torno de R$ 3,80 atualmente. A diferença entre a cotação do dólar pago na compra do insumo e na venda do grão poderá tornar a safra 2018/2019 a mais cara de todos os tempos no Brasil.

As promessas de ajuste fiscal no governo de Jair Bolsonaro, que levaram a desvalorização do dólar, também não terão efeito no futuro dos preços. “Conforme o Bolsonaro foi se consolidando como favorito, o dólar caiu, mas aí as compras já estavam feitas. E nem teria como ser diferente, porque o plantio tem prazo para começar”, declarou Antônio da Luz. Resta ao produtor esperar que o câmbio não siga o rumo previsto pela maioria dos economistas, uma vez que esta é a única maneira de modificar o horizonte da alta de preços que se desenha para o setor.