Alexandre Garcia – “O Brasil é ciclotímico e masoquista. Quando as coisas começam a dar certo, damos um jeito de colocar tudo a perder”

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Aos 78 anos, e com 63 anos atuando em veículos de imprensa, Alexandre Garcia é um veterano do jornalismo que não pensa em parar de atuar. Gaúcho de Cachoeira do Sul, foi reconhecido por gerações de brasileiros por falar sobre os bastidores da política em Brasília, onde vive há 43 anos.

Em dezembro de 2018, após mais de 30 anos na Rede Globo, saiu da emissora, mas não do jornalismo. Segue com comentários políticos transmitidos por mais de 200 emissoras de rádios e com artigos em dezenas de jornais pelo País. No entanto, Garcia vê como grande potencial o jornalismo no meio digital. Com quase 1,2 milhão de seguidores no Twitter, e planejando começar um canal no YouTube, o veterano aposta nas novas mídias como caminho para informar e expressar opiniões de qualidade para o público. Nessa entrevista para a revista Press, Alexandre Garcia fala sobre sua visão a respeito da política brasileira, as expectativas para o novo governo e opina sobre a qualidade do jornalismo atual no Brasil, entre outros temas.

Já vives há 43 anos em Brasília. Durante esse tempo vivendo no centro da política brasileira, como o Brasil se transformou?
Faz 43 anos que cheguei em Brasília, em 16 de março de 1973, em um voo de Porto Alegre. Eu vinha de Buenos Aires, chamado pelo Jornal do Brasil. Não conhecia a cidade e me apaixonei no primeiro dia, uma paixão que dura até hoje. Não costumo me aproximar muito dos políticos, os comparo a uma árvore, e o conjunto deles forma uma floresta. Prefiro olhar a floresta e não a árvore. Nesses 43 anos, vi a ciclotimia do Brasil, o sobe e desce. Quando estamos subindo, indo bem, parece que somos masoquistas e fazemos tudo para algo dar errado. Talvez, porque a gente acha que não merece. É como a gente aprendeu no catecismo, que todo gozo é pecado, todo prazer leva ao fogo do inferno. Já tivemos o “Milagre Brasileiro”, com o Brasil crescendo uma média anual de 11,% durante três anos consecutivos, e jogamos fora. Há pouco, tivemos a maior recessão da história. Então, há uma ciclotimia nesse país. Quando a gente está no auge do otimismo e do entusiasmo, que são necessários para estimular a economia, o investimento, o emprego, a gente dá um jeito para alguma coisa dar errada. Vejo hoje, por exemplo, gente combatendo a reforma da Previdência, que é o que pode salvar o país desse déficit enorme, e ao mesmo tempo aplaudindo a corrupção, pedindo para tirar da cadeia os condenados corruptos. O óbvio seria o contrário! Parece que a gente enlouqueceu, somos um país de masoquistas que acham que estamos destinados a sofrer para merecer o paraíso.

Não houve avanços positivos nesse período?
Acho que o Brasil avançou na participação popular. Nesses últimos 40 anos, pelo que vi, o partido que fica na oposição está mais na rua, manifesta-se mais do que quem está na situação. A militância sempre foi de um lado só. Agora tem dos dois lados. Eu até diria de dois extremos. Tem gente que ficou muito entusiasmado com a nova militância e foi para o extremo oposto. Tínhamos um lado só e agora temos dois. Ganhamos vida política, há dialética. As pessoas foram para a rua, não esporadicamente, como os fiscais do Sarney no plano Cruzado, não como apenas para derrubar o Collor, mas há militância mais constante, graças às redes sociais.

Mas as mobilizações estão mais fracas no momento. Qual o motivo?
As pessoas podem estar acreditando na ficção que está no noticiário. Recentemente, fui almoçar com o ministro das Relações Exterior, Ernesto Araújo, também porto-alegrense, e conheci outra pessoa, diferente daquela que havia conhecido pelo noticiário. Então, fiquei pensando, será que estamos vivendo numa ficção, longe da realidade? Esse ministro era outro, não era aquele que havia sido apresentado pela imprensa. Talvez o noticiário tenha desanimado muita gente, como se houvesse uma série de problemas que não existem. Vi, recentemente, notícia falando que o ministro da Educação não vai ser demitido. Mas, quem disse que seria demitido? Quem disse isso foi um jornalista. Mas o ministro não depende de um jornalista, depende do presidente. Comentaristas falam “o ministro ainda goza da confiança do presidente”. Qualquer ministro que não goza da confiança do presidente está na rua, isso é óbvio. Estão valendo como fatos obviedades, fofocas, e as pessoas não estão usando de forma devida as redes sociais para verificar o que é verdade ou mentira.

Há militância na imprensa?
Há mais de 20 anos fui fazer uma palestra na Universidade de Brasília (UnB) e nela disse para alunos do último semestre que jornalismo é veracidade, clareza, simplicidade, objetividade e também isenção e neutralidade. Quando eu disse isso o professor da cadeira deu um salto e disse que não ensinava dessa forma. Disse que ensinava seus alunos —palavras dele — a serem “militantes ideológicos para combaterem o status quo opressor”. Então, as pessoas estão sendo formadas como militantes. Não foi isso que aprendi na Famecos, na PUCRS. Claro, para quem for editorialista, comentarista, é preciso ter opinião. Mas, o repórter tem que reportar os fatos. O fato não precisa de ajuda. Se a gente quiser ajudar o fato, a gente acaba deturpando o próprio fato. Temos que contar o que aconteceu para as pessoas. O que tem acontecido é que a imprensa está perdendo o principal patrimônio, que é a credibilidade.

A perda da credibilidade da imprensa faz o público não saber no que acreditar? Essa onda de fake news não acontece porque faltam fontes fidedignas?
Há uma frase de um romano antigo, Tertuliano, que dizia credo quia absurdum  — creio porque é absurdo. Então, as pessoas estão acreditando no absurdo, não estão parando para pensar que não seria possível o que veem. Alguém diz “o ministro Sérgio Moro pensa que..”. O repórter agora virou leitor de pensamento?

Foi cunhado até um termo, a “extrema imprensa”. Essa expressão é verdadeira?
A expressão tem um significado forte, mas também é um aviso. Eu adoro crítica, ela ajuda muito, senão você persiste no erro. No entanto, muita gente não percebe que essa crítica não é apenas uma maldade, uma má intenção, mas sim é uma sacudida. Qual é nosso papel? é fomentar fofoca, imaginar histórias? Isso não é de hoje, apenas foi exacerbado. No livro Entradas e Bandeiras, do Fernando Gabeira, ele conta um fato que constatei quando cheguei em Brasília. Terminado o fechamento do jornal, os jornalistas iam para um boteco para um happy hour, e comentavam e inventavam fatos. O Gabeira estava numa dessas rodas quando, dois dias depois, viu nos jornais um desses fatos inventados na mesa do bar. Ele tinha vindo do exílio na Suécia, em 1979, e ficou chocado com a leviandade como inventávamos notícias. Só que agora isso se exacerbou. Há um grupo que não aceita resultado de eleição: isso é confissão de amor ao totalitarismo! O mesmo grupo não aceita resultado de sentença judicial, e apoia a ditadura do Maduro na Venezuela. Parece que é óbvio que é um comportamento antidemocrático, mas continuam se beneficiando das vantagens da democracia, que é a liberdade de expressão, de pensamento e de discordar. Embora o Supremo Tribunal Federal (STF) pareça não concordar muito com essa liberdade.

Isso não gera dúvida quanto ao futuro do jornalismo? De um lado, temos profissionais para quem a verdade não importa muito. O público sente que não tem fontes de informação com credibilidade, mas também temos um público afeito a acreditar no que lhe parece verdade. O jornalismo está com dias contados?
Isso está começando nas faculdades. Ou melhor, na derrubada de valores democráticos e éticos nas próprias escolas. Quando houve a tragédia de Suzano, vi um “especialista” — que é considerado especialista pelas produções dos programas — dizendo que a escola não está cumprindo seu papel de formar cidadãos. Quem forma cidadão é a família, é em casa! A escola é para ensinar, a família é para educar e formar cidadania. Então, começa daí, a família desestruturada, ou sem tempo para tratar desses assuntos, ou já é segunda, terceira geração que não recebeu essa formação. Depois, na faculdade confirma isso, com os mitos de que a ideologia é mais importante do que a verdade, que a democracia tem que ser curvar às ideias de igualdade, fraternidade. Tudo muito bonito, mas nunca funcionou em lugar nenhum do mundo. O sujeito entra com essa missão de salvar os oprimidos, uma utopia, e aí se perde nisso, e o jornalismo se enfraquece por perda de credibilidade. Isso está saltando aos olhos de todo mundo. Não é só por causa das redes sociais que caíram as tiragens dos jornais, a audiência dos noticiários. Foi, também, por causa disso. As pessoas estão perdidas, algumas são ingênuas e acreditam em qualquer coisa, outras militantes só acreditam nas verdades da militância, e outros se revoltam porque se sentem enganados, pois percebem que foram usados com desinformação. Isso é coisa antiga, já acontecia na União Soviética e na Alemanha nazista. E daí temos profissionais que defendem militância ao invés de fazer a defesa de valores éticos, da família, da lei e da ordem, tudo o que dá paz a um país e permite a prosperidade. O papel do jornalismo diante disso é o de trabalhar como uma instituição a favor do país, que contribua para a prosperidade nacional, o que gera prosperidade para a própria instituição do jornalismo. Mas isso entra na onda do masoquismo, queremos sofrer.

Os veículos tradicionais foram perdendo relevância, tanto pelo modelo de negócio, mudanças na forma de consumo de informação, mas também pela perda de credibilidade no dia a dia. Isso é um caminho irrecuperável? Uma conta no Twitter pode ser tão ou mais relevante quanto os jornalões tradicionais?
Se for dar uma opinião muito pessoal, estou muito feliz por ter uma conta no Twitter que já tem 1,2 milhão de pessoas de audiência. Eu ponho uma opinião sobre a invasão da escola de Suzano e no outro dia tem mais de um milhão de visualizações. Tanto estou satisfeito que estou entrando no YouTube. Agora, essa concorrência foi demonstrada na última eleição, em que políticos tradicionais, conservadores no que diz respeito às estratégias, pois ficaram usando marketeiros, com gastos de campanha gigantescos, foram derrotados por um vencedor que gastou R$ 2,5 milhões usando rede social, que é uma espécie de corpo a corpo numa nova praça de comício, que é a digital. Mas não creio que essa perda de relevância seja irrecuperável. O próprio mundo digital oferece alternativas para as mídias tradicionais. Eu não vejo que haja sentença de morte para os veículos, nesse momento eles são sacudidos a ver alternativas no mundo Digital, que é o das novas gerações.

Dentro da sua experiência acompanhando política, o Jair Bolsonaro é uma situação sui generis no cenário nacional?
Não, não é. Meu primeiro voto foi no Bolsonaro da época, que se chamava Jânio da Silva Quadros, em 3 de outubro de 1960. Teve outro semelhante, Fernando Collor de Mello. Mas, o Bolsonaro não é novo na política, ele esteve mais tempo na política do que no Exército. As pessoas que o chamam de “capitão” deveriam chamá-lo de deputado, pois ele foi mais tempo deputado do que oficial do Exército. Acho que já tivemos candidatos novidade, que vieram com uma aura de salvadores da pátria. Bolsonaro tem que ter o cuidado de evitar seus erros. Jânio Quadros deu as costas para o Congresso, Collor deu as costas para o Congresso, a própria Dilma deu as costas para o congresso. Já o Lula tentou “abarcar” o Congresso. O Itamar Franco sempre negociou com o Parlamento, e o Fernando Henrique Cardoso também.

Sempre se pensa na negociação clientelista, em torno de cargos, emendas. É esse tipo de negociação?
Essa é uma novidade que não é surpresa, foi discutida na campanha de Bolsonaro. A negociação vai ser negociação mesmo e não “toma lá, dá cá”. Isso era uma coisa normal. Já se dizia na campanha que essas anormalidades, que eram normais, não iam acontecer. Pelo que vejo em Brasília, é o que acontece, a negociação é de verdade, dos assuntos que estejam em pauta, como reforma da Previdência, onde se pode ceder, onde se pode mudar. isso que está sendo discutido hoje. Negociação é ver que fulano quer ser relator, ou presidente de comissão. O que se viu em governos anteriores é que cada partido que apoia o governo tem um curral ministerial, é dono do ministério, e lá faz as maiores barbaridades. Acho que isso mudou. Claro, o governo recém começou, e a relação com o Parlamento se iniciou de fato logo depois do Carnaval, como tudo no Brasil. Então, ainda carece de tempo para avaliar o rumo.

Não é novidade um governo querer diminuir o tamanho do Estado?
Novidade, como ideia, não é. Todo mundo sabe que tem que reduzir o tamanho desse mastodonte lento que é o estado brasileiro. Mas, um governo fazer esse plano funcionar é novidade. Por isso mesmo eu tenho dito que a oposição mais forte contra o governo não virá dos partidos oposicionistas, mas de dentro do estado brasileiro. A reação daqueles que não querem abrir mão das boquinhas, o corporativismo. Lula tentou fazer reforma da Previdência, ele mesmo sabia que não ia dar certo esse modelo que está aí, mas as grandes centrais sindicais, as corporações, foram contra, e ele teve que retirar o projeto de reforma que tinha sido elaborado pelo Antonio Palocci. O texto de agora foi elaborado pelo governo, mas quem vai fazer a reforma é o representante de cada um de nós, nosso empregado que está no Congresso. Se queremos que a Previdência brasileira sobreviva, que o estado brasileiro sobreviva, e que não voltemos a ter que pagar tudo através de inflação, acho que a gente tem que lembrar em quem votou e pressionar nosso empregado que está lá no Congresso, trabalhando em nosso nome.

Já disseram que o Brasil não tem solução enquanto não houver reforma do Judiciário. Muitas das questões do Legislativo e do Executivo acabam sendo decididas pelo STF. isso pode se resolver dentro da institucionalidade?
Acho que o pessoal do STF tem que reler a Constituição. Eles não são poder constituinte, não podem fazer as leis, ele têm que interpretar a Constituição. E precisam ler especialmente o artigo quinto, que afirma que todos são iguais perante à lei. Se a pessoa é mulher ou homem, se tem uma cor ou outra, ou determinada preferência, eles estão legislando diferente. Não entendo isso, todos são iguais perante a lei. Os ministros do Supremo são indicados pelo presidente da República e depois precisam ser aprovados pelo Senado. Então, são levados a uma subserviência política para conseguir o cargo, ficam devendo favores. Aliás, em termos financeiros, um bom advogado ganha muito mais que um ministro do Supremo. Talvez, esse desejo de estar no STF seja por vaidade. Com 43 anos de Brasília, não entendo essa empolgação pelo poder, tendo em vista que o poder é uma espécie de escravidão também. Mas, tem que fazer a reforma do Judiciário, entre outras. Aliás, em 1993, no quinto ano da Constituição, estava prevista uma reforma constitucional sem precisar do quórum qualificado de 60% na Câmara e no Senado. Eu vi os projetos de reformas feitos pelo Nelson Jobim, pelo Antônio Carlos Konder Reis, pelo Antônio Kandir e pelo Ibrahim Abi-Ackel, era uma pequena comissão. Tinham preparado as reformas tributária, previdenciária, administrativa, política e do Judiciário. Só que tudo tropeçou na reforma administrativa, que previa que o município que não tivesse renda própria voltaria a ser distrito. Ai o Orestes Quércia, que era presidente do PMDB e também líder municipalista, para não perder os votos, fez o PMDB boicotar essas reformas, que estamos discutindo até hoje. Reformas que teriam sido facilmente feitas em 1993 não aconteceram por causa de uma pessoa.

O STF é encarado como inimigo da população brasileira. Que solução se pode ter?
Não vejo solução. Há reações, como movimento de impeachment o ministro Gilmar Mendes, por exemplo. Mas, temos um atual presidente do STF que trabalhou anos para o PT e para José Dirceu e toma a iniciativa de libertar José Dirceu da prisão. Perdeu-se o senso! A gente fica esperando que nossos representantes achem soluções para essas questões da nacionalidade. Eu não lembro, há 40 anos, que o Supremo adotasse essas posições, ou que ministro do Supremo desse entrevista toda hora, dando palpite. A gente dizia que juiz fala nos autos.

Hoje está na cabeça da população aquela frase, “basta um cabo e um soldado para fechar o STF”..
Essa ideia nem passa pela cabeça de um democrata.

Mas o sentimento da população de que precisa uma solução drástica existe!
Muita gente votou no Bolsonaro sem ter muita visão de poderes, achando que ele pode interferir no Supremo, no Congresso. Não pode, ele é presidente do poder Executivo; na Câmara, o chefe é o presidente da Câmara; no Senado, o presidente do Senado; e, no Supremo, o presidente do Supremo. Agora, a opinião pública é a verdadeira fonte do poder, pois “todo o poder emana do povo, e em seu nome será exercido”. Hoje, a parte de “em seu nome será exercido” sofreu uma melhora com as redes sociais. O exercício desse poder popular está mais próximo de seus representantes e governantes eleitos. As redes sociais aproximam mais as pessoas, e quem trabalha com rede social, como é o caso do presidente da República, pode ouvir as pessoas todos os dias.

Os grandes temas, como reforma da Previdência, pacote anticrime, novo pacto federativo, conseguem passar no Congresso?
O Congresso está diferente. Tem muita gente nova, disposta a colocar em prática os compromissos de campanha, isso é uma novidade. A eleição de outubro promoveu uma grande reforma na estrutura política brasileira. Tem muita gente jovem, idealista. Estão dando soco em ponta de faca, mas estão dando este soco, estão sangrando e vão tentar passar suas ideias. Eles me dão esperança, esses novos políticos que vieram trazidos pelas urnas em outubro.

És um veterano revigorado com novos rumos de carreira? Quais os teus panos?
Pois é, acho que estou revigorado. Tomara que tenha tempo bastante para fazer tudo o que quero. Estou preparando um bom estúdio aqui em casa, outro dia um dono de produtora disse que já tenho o melhor estúdio em relação às produtoras de Brasília. Então, estou animado. Eu disse para os emissários que vieram tentar me levar pro Palácio do Planalto que eu não quero ser porta voz do Planalto, quero ser porta voz de todo mundo. Não quero ficar limitado a uma ideia, a um governo, a uma empresa. Prefiro ser escravo das minhas ideias, fiel aos meus princípios, à democracia, à ética, aos valores morais. A gente tem que ajudar a melhorar este país. Não vou atuar como missionário, vou atuar como jornalista racional. Quero levar substantivos, não levar nem adjetivos nem interjeições.