Tânia Moreira – “O ajuste fiscal já deveria ter sido feito, há muito tempo. Não é algo simpático, mas a população já entendeu que isso é necessário para o Estado!”

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Desde janeiro, a jornalista Tânia Moreira é a secretária de Comunicação do governo do Estado do Rio Grande do Sul. Formada pela Universidade Católica de Pelotas, Tânia iniciou sua carreira no Grupo RBS, onde trabalhou por 15 anos. Em seu currículo estão campanhas políticas para rádio e TV desde 1990, sendo a última a do governador Eduardo Leite. Em cargos públicos, foi diretora da TV Assembleia e da TVE. Também ocupou o cargo de secretária de Comunicação da Prefeitura de Porto Alegre.

Nesta entrevista para a revista Advertising, Tânia Moreira fala sobre as estratégias de Comunicação do governo de Eduardo Leite, as dificuldades enfrentadas pela gestão pública para combater os problemas financeiros do Estado, o papel da TVE e outros temas.

Depois de um ano como secretária de comunicação, o cargo é mais trabalhoso do que tu imaginavas?
O que posso dizer é que está valendo muito a pena. Eu estou gostando muito. É muito trabalho sim, eu comparo às vezes com uma campanha política, onde tu te envolves manhã à noite. Na Secretaria de Comunicação do Governo tu te envolves 24 horas mesmo, com o governo todo. Não tem como desligar. Eu já sou assim por natureza e não tem mesmo como desligar, acho que é uma obrigação nossa.

Qual é a maior dificuldade? É do governo para dentro ou do governo para fora? Fazer com que todas as secretarias e os órgãos estatais ajam como um governo integrado, que a comunicação flua entre palácio e órgãos, ou que essa informação chegue, seja compreendida e divulgada pela imprensa?
Temos esses dois desafios em paralelo. Mas, a gente conseguiu fazer o alinhamento interno. Eu lembro que, logo que comecei, alguns jornalistas que me diziam “ah, tu não vais conseguir, todo mundo tenta”. Nós conseguimos ter um alinhamento com um trabalho de formiguinha, por eu acreditar nisso, fomos persistentes. Toda segunda-feira a gente faz esse alinhamento, que está tão bacana com os secretários e suas assessorias. Nossa comunicação é absolutamente alinhada. Acho que o desafio do poder público é levar a informação para fora. Eu sempre digo que nós não temos a estratégia da comunicação, nós trabalhamos a comunicação como estratégia. Temos que pensar em um jeito e uma forma de levar a informação. Por isso temos projetos sendo desenvolvidos desde o início do ano. Claro, depois que passa o primeiro ano, a ideia é aperfeiçoar a regionalização dos conteúdos. A gente procura regionalizar os conteúdos verdadeiramente.

Por exemplo, o que é direcionado para a região de Bagé, sai nos veículos de Bagé?
Sim, sai nos veículos de Bagé. Por exemplo, tivemos a distribuição de verbas para as estradas. Então, a gente faz uma entrevista para cada região, escreve um artigo com interesse regionalizado. Eu sou uma defensora do interior, dos jornais e das rádios do interior. Visitei alguns e pretendo, ano que vem, me organizar para visitar todos que forem possíveis de a gente ir.

O cidadão de Pelotas, ou de Passo Fundo, ouve mais ou recebe mais informação pelo veículo local mesmo, não é?
Ele consome o que vem da cidade. E a gente procura ter esse cuidado de não trabalhar para Porto Alegre. Eu estou sempre tentando lembrar todo mundo, lembrando as equipes, que nós não trabalhamos para Porto Alegre, trabalhamos para o Estado, por isso nossa informação tem que chegar a todo mundo.

A imprensa tem correspondido ao montante de material que vocês mandam? Pinçam aquilo que é fundamental ou às vezes pinçam coisas que não são o cerne da informação? Como é que a imprensa tem tratado a informação oficial que sai do Palácio Piratini?
Se a gente for fazer uma média, a resposta tem sido boa. Claro que, como em todo trabalho tu tens que sempre dar uma alinhada e ajustar uma coisa que saiu e que não era bem aquilo que tinha sido dito. Isso faz parte, mas acho que de um modo geral está bom.

E a crítica? Que tipo de crítica abate mais?
Falando do ponto de vista da Comunicação, eu recebo críticas com mais alegrias do que recebo elogios. Acho que é extremamente importante entrar alguém aqui e me dizer: “do jeito que está se encaminhando para esse lado, não deveria ser”. É uma opinião importante. Então, eu contra-argumento e a gente conversa. Acho isso extremamente saudável, sempre achei.

Já em relação ao governo, é evidente que sempre vêm as críticas, isso é normal de ser governo. E a gente tem trabalhado com elas sempre a partir da ideia do diálogo, abertos para conversar com todo mundo, como o governador fez agora com o projeto do Reforma RS, conversando com todas as entidades, com todos os deputados, conversamos com todos os veículos. Conversamos com todo mundo sempre que pode, antes de enviar qualquer projeto.

Com quem é mais difícil estabelecer uma comunicação positiva? Com o cidadão pagador de impostos? Ou com o funcionalismo e as corporações?
Os sindicatos eu não acho que representam todo o funcionalismo. Às vezes, com algumas corporações, é difícil mesmo de ter esse diálogo. Eu diria que toda essa agenda que a gente teve de diálogos do Reforma RS, só o CPERS que não veio conversar. Na verdade, quando surgiu o projeto, ele era resultado de uma proposta inicial que foi conversada com todas as entidades e muitas coisas foram agregadas ao que virou o projeto. Para mim, isso é querer o bem comum da categoria e do cidadão. É quando tu sentas à mesa para conversar e dizer “olha, isso eu concordo, isso eu não concordo”.

O governador esperava, sinceramente, pagar os salários em dia já no primeiro ano, ou desde o início, sabia que isso dependeria da reforma do Estado e uma série de outras coisas? Parece que há um descompasso entre o que havia de expectativa e o que está acontecendo de fato.
O que eu posso te assegurar é que não foi uma promessa em vão de campanha. Não foi algo do tipo “vamos prometer e depois vemos o que fazer”. A pessoa Eduardo Leite não faria isso.

O que deu errado, então?
Acho que teve várias tentativas de isso acontecer, de a gente colocar em dia os salários em dezembro, desde a tentativa de venda das ações do Banrisul até várias outras medidas, mas não se conseguiu. Nós estamos em final de novembro e vendo, provavelmente, que não vai acontecer, mas está se tentando. E a disposição que o governador tem e persegue é a de colocar em dia os salários, e tem trabalhado para isso.

Com que receita?
A principal preocupação do governador tem sido o ajuste fiscal. Se não fizermos isso, não vamos conseguir fazer nada. Por muitos anos, o Estado esteve parado na tomada de decisões, porque não são decisões simpáticas, mas são necessárias.

Como é que a população está entendendo esses esforços e essas dificuldades?
Eu acho que vem entendendo isso de uma maneira saudável. Agora, com os projetos das reformas é preciso a gente incrementar a divulgação para nos fazermos entender, porque tem coisas que ainda não estão entendidas, principalmente em relação aos professores.

A prefeitura de Porto Alegre anunciou que, com as reformas feitas, finalmente vai conseguir fechar o ano no azul. Há uma real possibilidade de um dia o governo do Rio Grande do Sul ver as suas contas no azul?
É para isso que nós estamos trabalhando.  Porque se não conseguirmos acertar um pouco o Estado, e acertar o ajuste fiscal, nós não vamos conseguir nada.

Uma coisa que se diz é que o estado do Rio Grande do Sul não vai tão mal, quem vai mal é o governo. A administração pública vem mal há muitos anos e isso afeta o setor produtivo. O governo tem essa consciência?
Essa situação afeta a todos. Temos isso bem claro.

Nós gaúchos vivemos um problema de autoestima. Dizemos que em Santa Catarina e no Paraná dá tudo certo, nós fomos perdendo, ao longo das últimas décadas, posições no ranking econômico, representação política…
Tem uma coisa importante, que é preciso salientar: existem muitas coisas que deveriam ter começado há muito tempo atrás. O que a gente vai conseguir construir também é para o futuro das próximas gerações. Uma coisa que o governador — e às vezes isso fica de difícil entendimento —, é que ele não pensa nos quatro anos de governo dele. Ele pensa no estado do Rio Grande do Sul. Essa é uma coisa que a gente precisa que a imprensa entenda. O fato de ele não ser um candidato à reeleição também é um ponto importante nessa análise. Acho que essa reconstrução do Estado do Rio Grande do Sul já deveria ter sido feita há muito tempo.

Mesmo assim, parece que, para muitos gaúchos, nos últimos anos, a saída tem sido o aeroporto, ou a BR 101 que leva para Santa Catarina. Não tem como nós, da comunicação do Rio Grande do Sul, criarmos algo positivo para o Estado?
Tem tanta coisa boa acontecendo. Recentemente, fui naquele evento promovido pela RBS, “Te Mostra, Rio Grande”, com cases de empreendedorismo. E eu estava pensando nisso, quanta coisa tem no nosso Estado, quanta gente que empreende, que trabalha, que produz, que gera riqueza, que emprega gente, e isso precisa ser mostrado, precisa ser valorizado. Até para dar um ânimo. Acho que todas essas coisas estão dentro das nossas metas de trabalho. Eu sempre digo que, quando eu fui convidada para cá, eu pensava qual papel que deveria exercer uma Secretaria de Comunicação? Para mim, o papel fundamental é aproximar o governo do cidadão e o cidadão do governo. Nós precisamos mesmo dessa valorização do Estado e enxergar isso, e as redes sociais tem que nos ajudar nisso e os veículos têm que nos ajudar nisso. Às vezes olho os noticiários e me dá uma depressão…

Tu és do interior, de Pelotas. Lá também existe esse sentimento?
Sou nascida em Pelotas. Sou xavante, amo a minha cidade, amo as pessoas de lá. E eu noto uma diferença na autoestima local. Uma época eu fiquei um tempo maior sem ir à cidade, teve a campanha do Nelson Marchezan Júnior e depois em seguida veio a campanha do Eduardo Leite e eu fiquei um tempo sem ir para Pelotas. Quando eu voltei, senti que tinha uma autoestima boa das pessoas em relação à cidade.

O que tu usas para te informar? Usas mais o meio digital?
Eu uso tudo. Uso bastante o rádio. Sou uma pessoa que adora o rádio, apesar de ter vindo sempre da televisão, minha vida inteira eu estive ligada à televisão. Mas, eu adoro ouvir rádio, escuto quando eu acordo, escuto no carro, escuto aqui no trabalho. Eu passo acompanhando também as redes sociais. Eu não consigo tirar o olho do Whatsapp, é um vício já. Gosto de ler revistas e jornais em papel. Acho que o veículo impresso tem um valor extraordinário. Às vezes, dizem que é devido à idade, mas acho que não, o impresso tem o seu valor e eu quero lutar para que não terminem essas coisas.

Certamente, hoje tem muito mais coisas que nós não tínhamos há vinte ou trinta anos…
Tanto que, às vezes, eu conto uma informação que eu li, mas eu não sei de onde. A gente vê tanta coisa. Eu estava vendo a notícia sobre o acidente do Gugu Liberato na minha casa, e tinha visto pelas redes sociais que ele tinha morrido. Na TV estava dando outra coisa, só se confirmou depois… Então daqui a pouco a gente não sabe mais. Nós estamos sendo engolidos, e também nos deixando ser engolidos por essa onda de informações. Não sabemos para onde isso está indo e acho que está tudo muito rápido.

Qual é a principal dificuldade e principal vantagem do Eduardo Leite na Comunicação?
É difícil ter uma dificuldade. Eu o acho uma pessoa absolutamente talhada para Comunicação, é muito bom trabalhar com ele. Acho impressionante.

E o contato com as pessoas do interior, como é?
Parece, às vezes, que ele ainda está em campanha. Ele é muito respeitoso com as pessoas, isso é uma coisa que é dele, é da família dele, faz parte da pessoa Eduardo Leite. E as pessoas percebem e notam isso. E por isso o respeitam tanto quanto ele respeita as respeita.

Na tua trajetória de Comunicação, focaste mais na produção, na televisão. E o que tu trouxeste dessa tua bagagem e está sendo extremamente útil hoje?
Muita coisa, acho que a própria bagagem, a própria experiência. Sou uma pessoa muito detalhista para as coisas, eu gosto de entender absolutamente tudo que se passa.

Quantos funcionários existem hoje na Secretaria de Comunicação?
Existem 100 só na TVE, porque agora a emissora passou para cá. Agora os funcionários da TVE são do quadro da secretaria. Na Secom mais uns 50, então uns 150, fora as assessorias que estão nas secretarias.

E como ficou a TVE? Vai terminar, vai ser privatizada?
Quando eu cheguei aqui a TVE já estava na Secom. Já não era mais uma fundação, o CNPJ já estava em processo de extinção. Eu não ia fazer de conta que existia uma TV no ar. Ela está no ar, ela existe, então, nós vamos fazer televisão. Colocamos o Caio Klein, que é uma pessoa muito experiente, para ser o diretor-geral da TVE, e peguei pessoas de mercado também, além dos funcionários.

Mas, se justifica hoje o Estado ter uma TV?
Estamos num momento na TVE de buscar o que fazer. Todas as televisões, penso,  passam por isso. Primeiro que a gente não tem mais tempo, ou paciência, de assistir nada que seja longo. Queremos ver tudo rápido, e ao mesmo tempo reclamamos que queremos informação. Mas, se tu queres uma informação, não pode ser só o título, é preciso aprofundar um pouco mais. Esse é o dilema que as emissoras de televisão passam, e nós temos discutido muito isso com a grade de programação. Eu chamei a secretária Beatriz Araújo, da Cultura, para fazermos uma gestão compartilhada, para seguir exatamente o que é o papel da TVE. Se a emissora tem que ter um papel educativo e cultural, nada mais certo que contar com a Secretaria de Cultura.

A TVE poderia ser integradora de todo o Estado, contar a história de Pelotas, a história de Passo Fundo, ser um ente integrador de todas as regiões…
Imagina quanta coisa boa podemos colocar na televisão. Claro, muitos vão dizer “ah, mas a  TV está acabando”… Será mesmo? Será que a gente não pode repensar, com o tanto de experiência que temos, o papel para uma TV Educativa?

Os jornais estão sofrendo dificuldades, as revistas também, os livros igualmente. Tu continuas lendo livros?
Leio pouco atualmente. Eu trabalho mais ou menos umas 12 horas, sempre fui assim. E aí eu continuo em casa no Whatsapp ou no computador, e às vezes a gente quando lê alguma coisa, lê pelo celular. Apesar de gostar de livro, aliás ganhei muitos  livros, mas não tenho tido tempo de lê-los.

Tu disseste que ouves rádio, mas é só notícias ou música também?
Mais notícias mesmo.

Não estás no Spotify?
Só uma valvulada ainda (risos). Ouço mais é notícias mesmo. Eu escuto música quando eu viajo no finais de semana, mas mesmo quando eu viajo eu tento ir com a notícia até onde posso.

Tu não desligas?
Não consigo, até onde eu posso eu vou, daí depois eu ligo a música.

O governador te liga no fim de semana ou fora do expediente?
Não, ele deixa a gente muito à vontade para trabalhar. Raramente aconteceu, quando precisa de alguma coisa manda uma mensagem ou a gente troca alguma coisa por Whatsapp. Acho que eu incomodo ele mais do que ele me incomoda.

Entrevista: Julio Ribeiro
Fotos: Secom/Divulgação