Patti Leivas: “Um influenciador precisa trabalhar com verdade, senão ele não se sustenta por muito tempo”

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Manter o interesse e a confiança do público que segue postagens nas redes sociais é um desafio para os influenciadores digitais, ou influencers, que são cada vez mais procurados pelas marcas para divulgar seus produtos e serviços. No entanto, só se dá bem nesse mercado quem sabe ser natural e passar credibilidade. Essa é a opinião de Patti Leivas, 43 anos, uma das principais influencers gaúchas.

Com mais de 67 mil seguidores em seu perfil no Instagram (@pattileivas), a “simpaticona” Patti já trabalhava com marketing desde os tempos da faculdade, graças a seu relacionamento interpessoal. Estudou no Colégio Anchieta, foi aluna do Direito da PUC-RS e veraneava em Imbé. Nos lugares que passou, gerou uma rede de amigos grande, muitos ligados a casas noturnas. Ao convencer outros amigos a irem às baladas sua carreira começou, ganhando R$ 3,00 por pessoa que colocava na lista. Os convites eram entregues de forma física. A partir disso, começou a atuar com marketing pessoal, tendo sido dona de um dos mais importantes mailings de eventos do Estado.

Em seu currículo, estão oito anos de SBT – onde teve um quadro de agenda de eventos; participação na equipe do Dado Bier; atuação na Oi FM; ajuda na criação do Pepsi On Stage; organização de camarotes, como o da Renner no Planeta Atlântida e o do show do cantor Lenny Kravitz para uma empresa de telefonia; e a inauguração das lojas Forever 21, da Nike e da GAP em Porto Alegre.

Nesta entrevista, Patti Leivas, que se define como uma “gestora de relacionamentos e canal de marcas” fala sobre sua carreira, o trabalho de influencer, a importância das redes sociais e a relação com marcas e público, entre outros temas.

Como começaste tua carreira?
Comecei vendendo bombom no colégio. Eu estudava no Anchieta, fazia bombom em casa e vendia. Ali já era uma forma de trabalhar com relacionamento, as pessoas me procuravam muito mais do que qualquer outra pessoa no colégio. Só que eu nem sabia que aquilo era empreendedorismo e nem que ia me levar aonde eu estou hoje. Depois, quando eu entrei na faculdade, fui trabalhar em loja de shopping. Sou de uma família classe média, sempre quis comprar mais do que eu tinha dinheiro, então, eu dava um jeito. Minha mãe nunca apoiou, mas não negava. Não fui incentivada, não venho de uma família de empreendedores. Meu pai era um administrador, minha mãe é uma farmacêutica. Então, não foi daí, era um sentimento meu mesmo. Comecei a trabalhar em loja de shopping e nisso tu tens que ser a vendedora legal, senão não é contigo. Então eu tinha muito mais dinâmica com as pessoas assim. Depois comecei a fazer um trabalho numa época em que tinha muito dinheiro no setor calçadista. Era com concursos de beleza. Trabalhava nos bastidores com o Paulo Guerra, que hoje se “aposentou” desse mercado, mas também está migrando para o online e fazendo o reconhecimento das personalidades através do Instagram. Com ele, eu fui aos bastidores do mercado de modelos e conheci um monte de gente ali, conheci as modelos e isso aí foi virando um mailing. Comecei a fazer um evento com outro amigo, que tinha uma festa dentro da Dado Bier, aí eu conheci o Dado (Eduardo Bier), mais uma vez a “simpaticona” foi ganhando espaço. E me chamaram para trabalhar dentro da Dado Bier.

Mas o principal trunfo é a simpatia?
É muito. É um grande ativo.

É que tem um monte de gente que é simpática e não consegue criar essa rede…
São duas coisas conjuntas, simpatia e interesse pelo outro. Interesse pelo outro é vital, não adianta tu só seres simpático e não querer saber do outro.

A agenda, em todos os tempos, ela sempre foi vital para jornalistas, publicitários e tal. Para o promoter também, porque era a rede offline que se tinha. Hoje, na época do influencer – e tu eras influencer antes de inventarem esse nome -, a pessoa possui um milhão de seguidores no Instagram. Isso não é uma agenda, e não quer dizer que todas essas pessoas sejam engajadas.
Com certeza não é um mailing ativo, porque depende muito de o que esses influenciadores hoje representam. Existem influenciadores de vários tipos. E isso é uma coisa que o mercado está se regulando de uma forma muito devagar ainda, porque é muito novo o processo. Mas, existem vários tipos, existe o cara que simplesmente vai te divulgar e fazer com que saibam que tu existes. Esse cara já vale muito. E aí existe o cara que faz isso e ainda vende. O “clique aqui”, ele manda e o seguidor dele vai lá e clica. E ainda tem mais — e eu venho falando disso que sou contra e tenho falado disso, que é uma polêmica —, existem as coisas que são criadas, os personagens que são criados, estereotipados, para vender alguma coisa.

É a Vivi, da novela?
Ela para mim é o pior dos exemplos, melhor e pior, né… Porque pior dos casos e melhor dos exemplos. Uma construção de imagem que é falsa, porque nenhuma influenciadora vai ser perfeita quanto uma artista da Globo personificada em uma personagem de novela consegue ser.

Caricato, né?
Aí que está, é e não é. É injusto, porque quando tu comparas, ela não tem defeitos, entre aspas, porque ela é criada pela Globo. E o ser humano normal que está brigando com ela pelo espaço de mídia tem defeitos. Então, é irreal. E assim, é um personagem que é verificado. Hoje, para a verificação do Instagram, tu precisas mandar um documento de identidade, uma certidão profissional, alguma coisa assim. E o Instagram dela é verificado, então, é muito surreal que isso esteja acontecendo.

Mas, a Gisele Bündchen está no Instagram e também influencia e também vende para milhões de seguidores…
Claro que sim, mas é vida real, é de verdade. Ela não vai acabar com a novela. A Cindy Crawford não é mais modelo, mas segue sendo uma grande influenciadora. A Jeniffer Lopez hoje é quase mais influenciadora do que cantora.

As empresas, de um modo geral, estão sempre buscando uma forma de como vender mais. Houve uma época em que ir a uma festa do Ibrahim Sued era sucesso. Daí depois vieram os blogueiros, seguidores e tal e nem sempre isso se reverte em venda…
Não, e por isso que eu te digo que são vários tipos de influencers. A awareness de marca é uma grande influência. Ele não precisa vender, mas se ele deixa tua marca mais conhecida, já tá valendo.

Tu vendes?
Eu hoje vendo.

O que tu vende mais? Brinco e sapato? (as duas paixões de Patti Leivas)
Não, bem ao contrário. Vendo muito gastronomia. Numa pesquisa que eu fiz apareceu que as pessoas usam o meu canal de comunicação do Instagram para saber novidades da cidade, tipo quais são os restaurantes novos, por exemplo. Elas tiram muita informação para viagem, mesmo que não seja o meu mote, é o lifestyle. Então, tiram muita informação: “ah, onde é que eu vou me hospedar no Rio de Janeiro”, “que lugar que eu vou visitar em Portugal?”. Então, é um canal que poderia ser usado em Agência de Viagens, hoje ainda não é, ainda não comecei essa prospecção, porque isso tudo, também, é o meu processo. Eu migrei do off para o on como quem anda e troca o pneu. E agora que eu estou me profissionalizando mesmo, estou descobrindo isso.

Isso de alguma forma substitui ou bate concorrência com a propaganda tradicional?
Sim, bate direto. Eu digo isso sem nenhum problema, porque eu nunca fui valorizada pelas agências, eu sempre tive clientes e eles sempre me procuraram diretamente. Pouquíssimas vezes, raras agências tiveram consciência desse processo de mais de 20 anos de trabalho de ir buscar a Patti Leivas para mexer nesse cliente aqui, muito pouco. E agora eles precisam. Não só de mim, como de todos os outros e até por isso mesmo, como eu migrei do off e a minha empresa é muito maior do que só o Instagram, eu virei um hub de influenciadoras. Hoje, por exemplo, eu fecho o contrato de influenciadoras daqui para marcas nacionais. Agora mesmo eu fiz uma operação para a Bauducco com uma influenciadora de Gravataí, que é do perfil de segmento de mães. Eu só recebo como agência. Então, eu também virei uma agência, eles não me valorizavam e hoje eu também sou concorrência para eles.

E mudou tua vida, assim, o cuidado com o que tu falas, com o que tu comentas, com o que tu postas depois que tu viraste marca, que tu tens essa consciência que viraste um produto? Às vezes, uma palavra já cria uma celeuma…
Verdade, mas não muito, porque eu procuro minimizar isso. Acho que a grande força da minha rede é a veracidade da minha palavra. E o quão realmente é vida real o meu Instagram, é o quanto eu mostro as coisas de verdade, o que eu penso, o que eu uso. Mas, eu já tive dois momentos polêmicos. Um na época da eleição do nosso presidente, em que nem me posicionei, eu simplesmente repliquei uma imagem, que para mim era muito verdadeira. E eu só disse, “ó, não precisa falar mais nada”. Eu nem dei a minha opinião, mas a imagem dava a minha opinião. E eu fui um pouco rechaçada sim, principalmente por pessoas da alta sociedade, que eu convivo, e elas não são o meu target de trabalho nas redes sociais, o meu target é classe B, e algumas pessoas vieram dizer, “olha, acho que não é legal tu te posicionares, tu trabalhas com clientes muito grandes e não sei o que”. E eu entendi que tinha que engolir aquele sapo. E o outro caso foi na época do Miss Rio Grande do Sul, que eu era jurada, e uma jurada especial. Os outros jurados mudavam dia a dia, porque foi um formato diferente que a Band fez. Era um reality show durante uma semana, e eu era a única que permanecia, a chefe da mesa, vamos dizer. E aí eu fui muito julgada, porque existia uma candidata que era a predileta de uma rede que se envolve no País inteiro e essa menina não ganhou aqui, e o meu voto não pesava mais que nenhum outro. Eram cinco pessoas votando, mas eu fui escorraçada, e segurei no osso um tempo, mas depois comecei a me manifestar e dizer, vocês são loucos, e comecei a pegar tão pesado quanto pegaram comigo.

E tudo o que tu anuncias, tu realmente acreditas, provaste ou gostaste? Ou teve alguma vez que tu pensaste “puxa vida, isso aqui não é tão bom quanto estou tentando fazer crer”…
Até hoje sim, porque eu fazia isso de maneira muito espontânea, porque não existia uma métrica, não existia um processo de profissionalismo nessa área de posts. Agora, pelo meu processo novo que eu estou passando, talvez eu tenha espaço para marcas que eu não use. Dou um exemplo prático: há três anos não tenho carro. Fui embaixadora da Uber, daí vendi meu carro e não quero mais ter um. Mas, eu identifiquei, através dessa pesquisa, que a minha audiência me vê como uma fonte de informação. Mesmo que nunca vá comprar um carro, eu posso falar de carro, porque as pessoas querem saber coisas para elas, não necessariamente do meu uso. Vou te dizer bem franca, eu nunca faria coisas como cigarro. Não sou fumante e não faria. Então, uma coisa que eu acho ruim, eu me daria o luxo de não fazer. Felizmente, essas propostas nunca são com coisas que eu não gosto, porque até o cliente já regula, né.

E o pessoal que te acompanha há 15, 20 anos, continuam fiéis à Patti?
Fiéis não, porque o mundo nessa área não precisa ser fiel. O instagram é uma rede plural e não é monogâmico. Pelo contrário, quanto mais postar e não marcar alguém ou uma marca, porque não estão pagando, isso é egoísmo. Se tu fizeres isso a tua chance de subir no Instagram fica mais difícil. Hoje as marcas já identificam isso e os influenciadores espertos tem que dar, mostrar e provar. Depois que tu vais ganhar dinheiro, como tudo na vida.

Existem “zilhões” de influenciadores hoje. O que funciona e o que não funciona?
O que funciona: ser de verdade. As outras coisas todas são tentativa e erro. No sentido de descobrir que hora postar, usar gif, o dia da semana, fazer vídeo, tudo é tentativa e erro, e tudo é momentâneo. A bola da vez agora é vídeo. Mas, funciona ser verdadeiro sempre. A qualquer tempo.

A Giovanna Antonelli aparecia na novela com um esmalte azul e vendia horrores. Na outra semana, aparecia com um verde e vendia horrores. Tem pessoas que vendem e pessoas que não vendem mesmo tendo igual exposição. Por quê?
Primeiro porque a gente vê um fenômeno incrível que é o poder da classe C. A TV aberta é basicamente a classe C como audiência, e eles ainda têm muito poder. Por que uma artista aparece mais do que a outra? Carisma. A Giovanna Antonelli já fez muitas novelas e qualquer coisa que ela coloca, vira moda. Então, ela tem esse carisma e tem atrizes que ainda, infelizmente, não tem. A gente tem uma atriz gaúcha maravilhosa, fazendo várias coisas na Globo, a Vitória Strada, e ela não tem um perfil comercial, tanto que tu não vês ela em comerciais. Ainda não ganhou essa notoriedade, mas isso é muito particular. Não tem receita de bolo.

No teu caso, uma bolsa e sapato funciona também? Tu colocas e a mulherada adora?
Não, os atavismos no Instagram são um pouquinho diferentes. E, às vezes, tu te vales ou não dessas táticas. Eu, por exemplo, tenho gatos e eles não são aqueles lindos, fofuchos, então não aparecem muito na minha timeline.

E o que tu postas que sabes que vai bombar?
Eu. Foto minha, foto com o namorado. A bolsa e o sapato nem adianta botar.

Mas tem gente que bota a bolsa e sapato…
Sim, tanto que por isso tem a dificuldade das marcas criarem Instagrams que sejam personalizados. Porque tu botas a foto do sapato e eu posso ter o desejo do consumo, mas eu não vou curtir e não vou comentar, não vou ter o engajamento. E como aquela rede ali serve para isso… Hoje que ela também vende a partir dali também já vale, pois eu clico e já levo para o site.

Tens outras redes além do Instagram?
Tenho Facebook, mas não utilizo mais, só replico as coisas do instagram. E tenho um site agora porque fui fazendo esse trabalho todo novo e eu comecei com uma consultoria de digital e entendi que eu não tinha a presença digital, olha que louco, porque para ter uma presença digital efetiva tu tens que ser o middle channel e eu só tenho o instagram. E, então, agora eu estou criando o site, ano que vem vai ter Youtube, estou ampliando para estar em mais lugares.

Quantos nomes tinha tua agenda física e quantos tens nas tuas redes, atualmente?
Não tenho a menor ideia de quantos tinha na agenda física, mas vamos dizer assim, a minha rede física, de quando eu sentava no chão da sala da minha mãe, era umas 250 pessoas. Já fiz mailing de 5 mil para entrega de revista. Hoje, a minha base é 67 mil seguidores, ampliando para um número infindo, porque, por exemplo, quando eu posto alguma coisa utilizando essa tática do altruísmo do Instagram, e marco alguém que tenha dois mil seguidores, eu estou multiplicando para duas mil pessoas. Volta e meia quando eu posto sobre coach motivacional, que eu gosto muito, as pessoas repostam. Então, todas as redes de cada uma dessas pessoas vira minha audiência também. Por isso o altruísmo.

A Patti mudou? A gente te conhece um pouco, não tão do dia a dia, mas parece assim que a Patti é festeira, não tem um dia da semana que a ela coloca um pijama e fica em casa vendo a Netflix. É verdade?
Felizmente não. A Patti melhorou muito, em várias coisas. Eu adoro poder ficar em casa, mas eu adoro estar na rua. A história toda é que as pessoas ainda me associam muito à festa, que hoje eu não faço mais. Festa mesmo, festa em boate, eu já fiz muito, mas hoje eu não estou mais nesse mailing. Essa meninada que hoje frequenta os eventos, eles têm 18 anos, 20 anos. Muitas vezes, eles nem conhecem a Patti Leivas.

E em termos de rentabilidade do teu negócio, mudou a escala ou está trabalhando cinco vezes mais para fazer o mesmo resultado?
Está mudando. Eu trabalho menos e tenho mais resultado hoje, com toda certeza. A qualificação do meu nome hoje me propicia trabalhar, não menos, mas mais de forma intelectual e menos braçal.

Atuas, basicamente, no Rio Grande do Sul ou tens clientes nacionais?
Mais é Porto Alegre. Pipoco, respingo em algumas cidades.  Caxias do Sul é uma das cidades pontuais para mim, o Vale dos Sinos também, mas pontualmente.

Os clientes são de Porto Alegre?
Não, os meus clientes são do Brasil todo. Principalmente em São Paulo.

Quanto tempo passas no smartphone?
Passo no mínimo umas cinco horas por dia na rede social. O WhatsApp às vezes é limitante, a gente deixa de viver coisas do dia a dia. Por exemplo, nós estamos aqui conversando e faz 15 minutos que ninguém olha o WhatsApp. É raro. Eu não fico pensando que o mundo vai acabar, mas eu fico mal por deixar pessoas sem resposta, porque deve ter entrado um monte de conversa e alguém foi lá para baixo e, às vezes, eu perco. Mas tenho largado mão dessa culpa, se precisar falar realmente me chama de novo que eu vou ver.

Tens uma ideia de projeção do que vem por aí?
Meu projeto para 2020 é o Youtube. É um grande canal, hoje em dia o Youtube já está em 50% das pesquisas feitas na Internet, antigamente era só o Google. As pessoas já entram no Youtube direto como um canal de pesquisa. Então, eu quero estar lá. Outra coisa é que as pessoas sempre me diziam “tu saíste da TV, mas tens tanta facilidade para falar, és tão natural no vídeo”… Então, decidi fazer. Para o ano que vem, a minha ideia é estar no Youtube. De uma forma pequena ou grande não interessa. Eu quero estar lá.

O online passou a ocupar espaços gradativos e crescentes na vida da gente, se não tiver internet em um café, fica complicado, por exemplo. Tu achas que vai ter alguma reversão desse movimento? Vai até um limite e depois vamos retornar para o offline?
Nunca mais, na minha opinião. Acho que a tendência é algumas pessoas optarem, ou melhor, poderem optar estar offline, porque hoje a gente não pode. Ninguém pode escolher isso, a não ser que tu queiras ser um ermitão. Por exemplo, um publicitário que não tem um Instagram é alguém que está fora do mercado. Então, hoje a gente tem obrigação. Acho que pode reverter daqui uns cinco anos, não sei, porque essas coisas também trabalham em progressão geométrica, mas pode-se ter escolhas. Assim como algumas pessoas escolheram não mais usar produtos que não sejam orgânicos. É uma escolha, tu vais pagar um pouco mais caro por isso, e não vai ter toda a gama de produtos, porque nem tudo funciona sem agrotóxico.

Quando tinhas tua rede física, offline, tu tinhas que manter essa rede, tu visitavas, tu ias nas festas. Hoje esse tipo de contato mudou bastante?
É, esse tipo a gente chama de “cliente aquecido”, que era aquela ideia de manter ele ativo. Claro que isso hoje é muito mais difícil, mas eu tento, tenho uma rede de amigos do off, vamos dizer assim. E que são pessoas que eu tento encontrar o máximo possível e que não tem nada a ver. Gente que nem é perfil da minha rede online, mas que aí são meus amigos de verdade.

E quando estás de férias ou em um fim de semana espichado, tu sentes a necessidade de postar?
Eu não sinto a necessidade, eu gosto. Eu gosto de dividir as coisas que não são relacionadas a trabalho também. Eu acho que faz parte e eu sei que essa audiência que hoje é construída pouco a pouco ela gosta também, então, eu faço por prazer.

Isso abre a privacidade bastante, não?
Totalmente.

E tu não tens medo?
Não me incomoda, porque na verdade a minha vida sempre foi exposta, mesmo quando não existia esse tipo de rede social, quando eu comecei a trabalhar e começar a ficar mais conhecida na cidade. A fofoca vai acontecer igual, bastava tomar um drink a mais, ou estar com a meia calça rasgada. Só que a fofoca era off, pegava o telefone e ligava e dizia “tu viste que a Patti Leivas estava com a meia rasgada?”. Agora tiram fotos e publicam.

Tu lidas com imagem. Mas, se tu tens vontade de comer um ala minuta num pé sujo, por exemplo, tu vais?
Adoro, vou e posto ainda. Eu moro na Cidade Baixa, então, o “Tudo Pelo Social” (restaurante popular) é um lugar que eu só não vou mais porque tem fila. Acho que isso é uma das coisas que me diferencia também, porque eu sou high-low, eu posso estar em um cruzeiro no Caribe, e posso estar na Cidade Baixa, que é onde eu moro, de Havaianas tomando cerveja em um balcão de um bar. Bem de boa, e eu gosto de ambos, não é algo que estou me forçando a fazer isso só para mostrar ou vender que “eu sou povo”. Eu sou povo, só que eu adoro riqueza, quem não?

Tem dias de champanhe e tem dias de cerveja…
Tem dia de tudo.

Tua formação é em Direito, tinha alguma coisa a ver contigo na época?
Nada, nada. Quando eu estava no colégio – e é bizarro, porque é muito cedo para a criatura escolher o que vai fazer para o resto da vida – eu tinha visto um filme da Demi Moore, desses de júri (A Jurada). E eu sempre fui muito eloquente, sempre foi uma das minhas características, então, eu pensava, “meu Deus, quero fazer isso na vida”, achando que o Direito era júri. E a minha mãe um dia me disse o que seriam as duas características primordiais para o Direito e que eu tinha: persuasão ou estonteamento (risos). Mas, isso me rendeu muito também, porque na PUC eu fiz um “mailing”. Algumas semanas atrás, fui em um evento maravilhoso de um colega meu de colégio, que hoje é uma pessoa super reconhecida na sociedade como um advogado de sucesso e fez uma festa para celebrar os 100 anos do escritório de advocacia. Porto Alegre inteira queria estar na festa. E era um grupo de 800 pessoas, mas todas da área dele. E eu estava lá e muita gente achando que era porque era a Patti Leivas, mas não, era porque ele foi meu colega de colégio desde os 12 anos. Então, eu fiz relacionamentos ao longo da vida e mantive esses relacionamentos.

Tu sempre acessas profissionalmente esses relacionamentos ou tem uma parte deles que são apenas relacionamentos?
Muitos são só relacionamentos. Vários acabam querendo fazer uma associação profissional. E digo que não prospecto. Com 43 anos de idade, 20 anos de trabalho, não prospecto. Eu não apresento meu trabalho para alguém, eu sou sempre demandada. Mas, eu quero mudar isso. Acho que eu posso mudar isso ano que vem, para fazer melhor ainda.