Gilberto Porcello Petry: “O Brasil cobra a carga tributária de 40%. Podia cobrar 30% e fazer tudo que é preciso”

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Gilberto Porcello Petry

Desde o mês de julho, o industrial Gilberto Petry é o presidente da Federação e do Centro das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs/Ciergs) para a gestão 2017/2020. Petry, 69 anos, natural de Porto Alegre, é diretor-presidente da Weco S.A. – Indústria de Equipamento Termo-Mecânico, de Porto Alegre. O empresário é formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) em Ciências Econômicas e Administração de Empresas. Em 1990, passou a integrar as diretorias da Fiergs/Ciergs; e, desde 2005, é vice-presidente da entidade. Desde 2001, preside o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico e Eletrônico do Estado do Rio Grande do Sul (Sinmetal).

Quando o senhor era jovem, imaginava que ia ser o que na vida?
O primeiro emprego que eu tive foi no Banco da Província do Rio Grande do Sul. Trabalhei três meses lá. Daí o meu pai me disse: “larga esse negócio aí, vai só estudar, que eu te dou mesada”. E eu fui. Depois, quando estava na faculdade, trabalhei na Secretaria da Indústria e Comércio, uma espécie de estagiário, porque era um programa de técnicos que montaram da faculdade. Trabalhei quatro meses. Fiz concurso no Banco do Brasil, passei e fui admitido. Fiquei dois anos e quatro meses no Banco do Brasil e achei que aquilo não era o que eu queria. Daí eu entrei em uma consultoria empresarial, onde fiquei e depois virei industrial. Sou dono de empresa há 37 anos.

Ser empresário no Brasil é um desafio permanente: não é apenas a concorrência, é o mercado, o ambiente…
Nós da iniciativa privada, temos que estar sempre atrás de vender nossos produtos, produzi-los com resultado para pagar nossas contas e sobrar para reinvestir.

Rezando para que o governo não atrapalhe…
Sim. Nós também ajudamos o governo a se atrapalhar porque botamos toda a culpa nele, e tudo que nós pensamos que não conseguimos fazer, achamos também que o governo tem que resolver para nós. Então, isso não é tão fácil assim, né?! O que eu acho que o governo faz é que ele exagera um pouco naquilo em que ele se mete. Por exemplo, agora, recentemente, o vice-governador, José Paulo Cairoli, falou em um evento sobre as privatizações. E eu fiz um exemplo: essa questão da privatização é discutida de forma muito apaixonada pelo que a esquerda botou na cabeça das pessoas. Tu chegas em casa e apertas o interruptor, mas a luz não liga. Não tem luz, mas a CEEE é do povo riograndense. Aí tu vais na torneira e não tem água. Bom, não tem água, mas a Corsan é do povo riograndense. O povo quer só o serviço, ele nunca vai ser dono da CEEE, nunca vai ser dono da Petrobras.

Nunca vai receber distribuição de lucros…
Nunca. Assim como tu compras título patrimonial do Grêmio e do Internacional, tu nunca vais ser dono do clube, porque no meio de 50 mil pessoas nunca vai sinfluenciar aquilo. Quanto à CEEE, Petrobras… o que eu quero? É chegar na bomba de gasolina e ter gasolina para o meu carro, terminou. Eu não vou ser dono dela. Mas, corporações se protegem e fazem com que as pessoas sejam contra a privatização.

Mas, o Brasil ainda está em um pré-capitalismo, não é verdade? Vivemos uma situação em que quem produz riqueza tem que vencer toda a burocracia estatal cada vez maior.
Ah, isso é insuportável. O Estado vem aqui e diz que eu tenho que usar o cinto de segurança. Quem tem que decidir se usa o cinto de segurança sou eu. Ele quer tutelar tudo.

Um “guarda-livros”, antigamente, tinha algumas coisas que devia fazer. Hoje, ele tem que trabalhar cinco vezes mais para poder atender às informações online que o governo quer, cada vez quer mais dados, mais e mais guias…
O que você precisa de gente para atender à demanda em termos de tributos, em termo fiscais, que os governos exigem, é impressionante. Aquilo ali não gera um parafuso para fora. O que gera parafuso para fora é a linha de produção.

O senhor como empresário não fica um pouco frustrado ou até indignado com o que a sua força de trabalho tem que gerar de impostos para pagar uma máquina pública ineficiente como é no Brasil, independentemente se é municipal, estadual ou federal?
Eu te digo o seguinte: não sei te dizer se a máquina pública é ineficiente ou se ela é exagerada. Eu estou mais para te dizer que tem gente demais do que ela ser eficiente ou não.

Sabe quantos funcionários públicos federais temos no Brasil? Um milhão e sessenta mil funcionários públicos federais. Como é que pode funcionar um troço desses?
Sim, mas os Estados Unidos tem bastante…

Mas os Estados Unidos tem uma economia quatro vezes maior que a do Brasil…
E tem 50% mais de população. Mas, o que eu te digo é assim: eu acho que tem muita gente boa no serviço público, só que tem um monte de gente que não faz nada e se encosta nesses que trabalham bastante. Então, eu penso que o serviço público está mais inchado do que ineficiente.

E na interlocução do setor privado com o setor público no Rio Grande do Sul, especialmente, quais são os principais entraves?
Isso aí eu até te diria que seria um pouco precipitado da minha parte fazer essa avaliação, porque eu sempre me dei bem, na minha esfera de atuação, com pessoas do serviço público. Agora que eu estou à testa da Fiergs pode haver uma necessidade maior, é aí que eu vou ver quais são as dificuldades. Mas nós, em princípio, aqui pela casa, não temos dificuldade na interlocução.

A gente percebe que Santa Catarina é um estado muito mais organizado para produzir, crescer, gerar riqueza, inclusive com uma matriz econômica bem equilibrada e diversificada. Nós temos aqui no Rio Grande do Sul uma dificuldade de estabelecer um projeto de estado não é?
Não. Eu acho que a primeira coisa que existe aqui é que, como nós somos um estado mais antigo, nós carregamos mais funcionalismo. Isso gera mais previdência e aí não sobra dinheiro para fazer outras coisas que estados mais novos não têm. Essa carga incidente aqui do que custa o funcionalismo mais a questão dos aposentados realmente pesa muito e não sobra dinheiro para pagar mais nada.

Mas a questão da diversificação… Santa Catarina, na década de 1960, o governador Celso Ramos estabeleceu um programa para o estado que definia: o Sul vai se dedicar a fazer isso, o Norte aquilo, o Oeste outra atividade, e hoje não tem cinturão de miséria em Santa Catarina…Nós temos uma dificuldade com a Metade Sul, por exemplo, que agora começou a plantar soja e parece que em dez anos vamos ter uma melhora no nível de renda.
Acompanhe o seguinte: há muitos anos, mais de 30 anos, 40 anos, eu um dia no Uruguai – eu vou no Uruguai desde 1959, ia com o meu pai – perguntei porque eles não plantavam soja e um uruguaio me disse porque não é uma atividade nobre, como era a pecuária, o gado. A Argentina também. Então, vamos dizer assim, a Metade Sul do Estado foi a primeira a ser forte, as companhias de ópera faziam Porto Alegre, Pelotas, Montevidéu e Buenos Aires, entendeu? Ninguém falava em Caxias do Sul. Então, foi a primeira região a se industrializar. Tinha o Banco Pelotense, que era um dos mais fortes do Brasil. A Metade Sul criou esse desenvolvimento naquela ocasião, tanto que o nível cultural de Pelotas é muito bom. E depois, o resto daquela zona é de pecuária: Alegrete, São Gabriel. Daí entrou depois a questão do arroz e a questão da soja, e aí mudou isso aí. Mas mesmo assim, lá em cima, onde as pessoas eram mais agricultoras, mais colonos, tocaram mais.

Qual é a dificuldade de termos polos industriais mais fortes?
Simples. Quem é que trouxe polo industrial para o Rio Grande do Sul, para Porto Alegre? Os alemães. Quem trouxe para Caxias? Os italianos. Então, Porto Alegre, São Leopoldo, isso aqui tudo é alemão. Aí sobe, é italiano. São os dois que vieram da Europa com a indústria. A primeira indústria que veio aqui foram os alemães que trouxeram, a questão do couro, calçado e metalurgia. E a Zona Sul nunca teve vocação. Lá tem colonização que advém dos espanhóis e portugueses. Não tinha essa questão do desenvolvimento industrial em Portugal e na Espanha. Veja que, quando a Europa começou a crescer depois da Segunda Guerra, eles levaram gente de Portugal e da Espanha para lá trabalhar, no Norte da Europa.

Não lhe parece que falta uma política de expansão industrial no Rio Grande do Sul? Um pacote de atração de investimento, infraestrutura, que o Estado possa oferecer…
Só que o Estado não tem dinheiro para oferecer isso. Ele deve e não consegue pagar, como é que vai oferecer. Aí, se ele dá uma desoneração, ele é criticado. “Ah, abriu mão dos imposto para atrair esta empresa.” Só que se esquecem que se não oferecesse isso, a empresa não vinha para cá. A Ford o PT pagou para ver, porque a Ford já tinha enfiado R$ 100 milhões naqueles projetos preliminares. E os caras foram embora para Bahia, que ofereceu benefícios melhores, e eles abriram mão dos R$ 100 milhões que já tinham gasto.

E aí entra a questão política que, necessariamente, acaba interferindo na economia. O Rio Grande do Sul também tem uma dificuldade de ter um projeto de Estado, não de governo. Um projeto que vá além dos quatro anos, do próximo mandato.
Isso aí todos dizem que tem que ter, mas ninguém faz, porque não tem a continuidade. Nós nunca tivemos um governador reeleito.

Sim, mas independente de quem seja eleito, tem dificuldade de ter essa agenda…
Mas, isso aí não existe. São conceitos ideológicos distintos. Eu coloquei isso no meu discurso de posse. Tu achas que pode ter, dentro do Congresso, 28 partidos atuando? Tu achas que pode ter registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) 35 partidos políticos e mais 30 esperando registro? Tu achas que existem ideologias tão diferentes na política? Então, cada um que chega lá quer dar o seu estilo, o seu jeito. E aí não funciona. Eles não tocam uma sequência. O que era oposição no passado, é governo hoje, o que é governo hoje era contra o que tinha no passado. Aqui é fácil, era o PT, agora entrou o PMDB e o PT é contra.

Qual é a esperança que o senhor tem para o Brasil pós 2018?
Nós chegamos num ponto em que todos que são acusados de alguma coisa negam, e depois as coisas que ocorreram são desmentidas. Então, chegamos num ponto em que tu não sabes o que é verdade e o que não é verdade. Só falta o Geddel Vieira Lima dizer que os R$ 50 milhões não eram dele. Alguém botou lá aquilo para sacanear ele. Eu acho que em função disso o setor privado tem que tocar a coisa. As pessoas começaram a não dar mais muita bola para essa questão política, ninguém mais aguenta ler sobre a Lava Jato. Tu abres o jornal e é sempre a mesma coisa: Joesley Batista, os mesmos de sempre, o Lula, o Michel Temer, o Zé Dirceu. As pessoas, parece, que cansaram disso e resolveram tocar a vida dentro do que precisam, que é tocar seus negócios. Aí o Banco Central informa que o crescimento previsto, que é 0,2%, já vai ser 0,5%. No ano que vem acho que o Brasil precisa é de uma pessoa de referência, sem mácula.

Vamos ter que primeiro achar essa liderança…
Eu não estou dizendo que vá surgir, eu acho que deveria ser isso. Se não, o que vai ocorrer é que os mesmos candidatos vão se apresentar para concorrer e a população é que vai escolher.

Sim, mas a população está querendo virar a mesa. Tanto é que o Jair Bolsonaro parte com 20%…
Peraí, me diz uma coisa: porque o Bolsonaro não serve?

Não sei, é uma ruptura completa…
Bom, mas o Lula também era uma ruptura e serviu, tanto que foi eleito e reeleito. Aí ele inventou a Dilma Rousseff, que também foi eleita. Então, o que ocorre? Nós temos a mania de julgar quem achamos que tem que ser eleito. Não, quem ganha é quem a população elege. No modelo democrático de Direito o voto é unitário por pessoa, mesmo o analfabeto vota.Se não for assim, tem que mudar o modelo vigente. Por qual, não sei. Mas o que existe é que as pessoas se apresentam, existe a eleição, vão lá na urna e votam. Tem três coisas que são perigosas porque detém muito poder: a bala, que tem o poder de exterminar com a vida, que é a coisa mais valiosa que existe; a caneta, porque ela decide, em qualquer instância, o juiz ao dar uma sentença ela tem que ser cumprida, o diretor de um departamento ao assinar uma portaria, tem que ser cumprida, e por aí vai; e a urna, o voto, define quem vai te governar. “Ah, escolheram mal.” Bom, escolheram mal, mas a maioria escolheu o cara. A população americana escolheu o Donald Trump. Assim como o Emmanuel Macron foi lá e ganhou na França dando um passeio. Nos Estados Unidos, o cara ganhou ali naquela disputa complicada dele, mas ganhou, a população escolheu. Aqui, a turma escolheu a Dilma na última vez, ela ganhou. Eu não estou dizendo que está certo ou errado, mas o sistema democrático em que nos inserimos respeita essas coisas.

O senhor olha para o futuro político brasileiro com esperança ou com resignação?
Eu tenho que olhar com esperança. Eu não posso ser resignado. Se eu for resignado é que nem o cara que tem uma doença terminal e se acomoda, aí ele morre. Ele tem que lutar sempre ara vencer. Eu olho com esperança, sou um otimista.

Quais conselhos daria para o empresário gaúcho enfrentar essa incerteza dos próximos anos?
O primeiro é cuidar do caixa dele. O que está matando as empresas hoje são os juros bancários, as despesas financeiras. Mesmo que os juros, a Selic, tenha caído (agora está em 8,25%), no banco tu não tiras por menos de 15% a 18%. Então, é muito alto. Nem o BNDES. Cuidar do caixa, senão morre nos juros bancários. A segunda coisa é que tu tens que estar enxuto para aguentar o rojão. As crises existem e se sucedem. Vão, voltam, vão e voltam. E tu tens que estar vivo até a próxima melhora. Não pode morrer antes. Tem que chegar lá. Tem que ter agilidade. Tem um pouquinho de água e é preciso atravessar um deserto. Se tomar tudo no primeiro gole, que é aquele gole maravilhoso que fica bem, quando chegar adiante vai faltar. Então, tu tens que tomar gotinha por gotinha para aguentar e enganar até chegar lá adiante. Nós temos que estar preparados para poder passar essa crise, que agora começa a dar sinais de que está terminando.

Então, é manter o caixa, se manter enxuto…
E acreditar que vai melhorar. Porque se não acreditar que vai melhorar não adianta fazer nada disso.

E para o setor industrial? Se pudesse ter uma medida hoje, governamental, qual o senhor gostaria que fosse?
Eu acho que teria que ter uma redução de impostos. Mas isso é um contrassenso, porque o governo não consegue arrecadar. Ele tem é que gastar melhor. Ele tem uma facilidade que é a seguinte: ele tem a faculdade de promover aumento de impostos, emitir dinheiro, emitir títulos. O Brasil cobra a carga tributária de 40% que não precisaria porque o Estados Unidos faz o mesmo com 25%, o Chile com 20%. Aqui, podia cobrar 30% e fazer tudo. Aí começa a inventar programa disso, programa daquilo, todos eles programas que só têm desembolso e não têm retorno. Vale isso. Vale aquilo. Bolsa Família. Bolsa Presidiário. Bolsa não sei do quê. E são sempre os mesmos a pagar: eu, tu…

O senhor é um homem esperançoso. Mas o senhor tem esperança de que esse quadro mude, que chegue um governo que vai cortar na carne, que vai cobrar menos impostos?
Mas eu tenho que acreditar nisso. Se eu não acreditar nisso, tenho que ir embora do país. O que eu faço aqui se eu achar que só vai piorar? Ficar aqui? Não, vou-me embora.

É aquele negócio da Curva de Laffer: se diminuir a carga, pode aumentar a receita?
Claro que pode.

Vai trazer gente da informalidade e tal…
Mas um monte. Quanto tem de gente na informalidade? Tem horrores. Toda vida. Eu não tenho dúvida disso. Vamos dizer que o Rio Grande do Sul, por hipótese, conseguisse vender alguma coisa e arrumasse R$ 10 bilhões. Tu acha que ele vai usar para baixar a dívida? Não, ele vai usar para manter a folha em dia e fazer alguns investimentos que resultem em melhorias para o Estado e mostrem que o governo foi bom e que tem uma possibilidade de ser reeleito. Ninguém vai pegar e pagar a dívida.

O Rio Grande do Sul vive assim, o Rio de Janeiro também, porque gastou mal…
O Rio de Janeiro é um caso fantástico: ele gastou com base nos royalties do petróleo que iam entrar com preço em R$ 129,00 o barril. Aí o barril despencou para R$ 40,00, R$ 50,00. Acreditou na fábula.

Mas o Rio Grande do Sul, ao longo dos anos, foi perdendo poder político, especialmente a partir da Constituição de 1988, a concentração dos recursos no nível federal ficou muito forte, muito grande.
Sim. Todos vão lá de pires na mão.

O Estado perdeu força política para pegar mais dinheiro. Hoje, o Rio Grande do Sul manda R$ 55 bilhões e volta R$ 32 bilhões. Aí a Bahia manda R$ 15 bilhões e recebe R$ 25 bilhões. Dois anos de baianos e nós tínhamos resolvido nossa dívida.
Concordo plenamente.

E porque nós, de alguma maneira, não fazemos uma nova Revolução Farroupilha? A revolução se desencadeou por causa do imposto sobre o charque. Quer dizer, o poder central interferindo na nossa vida. Porque não tentamos isso? Tem muita gente que fala que a corrupção é o problema do Brasil. Na Espanha, a corrupção é estimada em 70 bilhões de euros ao ano. Mas os espanhóis dizem que estão bem, porque não é concentrado o dinheiro no governo central, que tem um poder mínimo.
A Espanha tem um negócio: sem produzir nada, entra um monte de gente ali, todos os anos lá, para visitar as praias espanholas e deixar um monte de dinheiro.

Isso é outro problema. O Brasil com todo o atrativo que tem recebe menos visitantes que o Louvre. O Brasil recebe seis milhões de visitantes por ano, e o Louvre recebe dez milhões.
Mas quem é que vai vir nos visitar? Argentino vem um pouco, uruguaio vem um pouco, boliviano não vem, peruano não vem, chileno não vem. Qual é a atratividade de um país que está longe? Os Estados Unidos. Vê o número de pessoas que visita os Estados Unidos e vê quantos vão ao Canadá. Os que vão ao Canadá não são nem 10% dos que vão aos Estados Unidos, porque não tem os mesmos atrativos. Os Estados Unidos têm muitos. Agora, o Louvre, Paris, está no centro da Europa, e daí todos que vão à Europa e vão à Paris vão ao Louvre.

Mas nós temos oito mil milhas de costa…
Sim, mas o cara tem que querer ir à praia. O cara tem que gastar uma fortuna para querer vir aqui. Atravessar o oceano e tudo mais. Ele vai à Espanha, ali do lado, e tem o mesmo mar.

E o Brasil não tem uma política de segurança pública. O cara vem ao Brasil para ser assaltado.
Sabe o que é isso aqui na minha mão? Essa cicatriz? Isso é de um assalto que sofri na Itália, do lado da Capela Sistina. Nós estamos falando de um assalto. Eu enfrentei os caras, quatro pivetes, dois correram e dois eu prendi, fiquei segurando com a mão. O que eu quero te dizer é que isso acontece em todos os lugares. Pode não ocorrer na mesma intensidade daqui, mas ocorre. Eu já fui à Alemanha 40 vezes. Fui antes do muro, durante o muro e depois do muro, vi tudo isso aí, a mudança que existe hoje, de 25 anos atrás, é uma coisa fantástica. O Brasil, o Rio Grande do Sul, tem problemas. O Brasil tem essa dívida e tal. Vamos fazer o seguinte: vender uma parte do Amapá para os franceses, americanos, chineses por R$ 3 trilhões e vamos pagar a dívida externa. Não, vão dizer que você está louco por sugerir isso.

O Brasil reconhece seus empreendedores?
O banco mais forte da Inglaterra é o HSBC, que tem a sede em Hong Kong. Na frente da sede tem uma estátua do cara que era o fundador do HSBC e que diz que ele inseriu Hong Kong no mercado financeiro internacional. Tu imaginas que alguém vá erigir uma estátua, na Praça da Sé, em São Paulo, para o Lázaro Brandão ou para o Amador Aguiar, fundadores do Bradesco?

Gilberto Porcello Petry

Entrevista: Julio Ribeiro
Fotos: Marcos Nagelstein/Agência Preview