Edgar Powarczuk: “Precisamos aprender a viver onlife – estar ligado, mas, ao mesmo tempo, vivendo”

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Edgar Powarczuk

Edgar Powarczuk é jornalista por formação, trabalhou com marketing e estudou Administração, mas foi na Filosofia que tirou as ideias para desenvolver seu método de trabalho atual. À frente da Ezuk, ele é especializado no desenvolvimento de empreendedores, por meio de técnicas de coaching e mentoring. Nesta entrevista, Zuk, como é conhecido, fala sobre empreendedorismo e a importância da solidão e do fracasso para se obter o sucesso, entre outros temas.

Quem é o Zuk? Jornalista, profissional de marketing? Mentor?
Eu tenho 57 anos, fiz agora em agosto. Comecei como jornalista no saudoso “O Repórter”, em Guaíba, como estagiário, e, duas semanas depois, o editor saiu e eu fiquei como editor. E aí eu fazia e turnê clássica do jornalismo do interior: tu vai no hospital, na delegacia e na prefeitura. E ali eu descobri que eu não queria ser jornalista. Não de redação, pelo menos. Porque naquela época o maior número de acidentes com mortes era naquele trecho, e ainda é, entre Eldorado do Sul e Guaíba. E morria gente ali toda semana. E eu tinha que ir lá cobrir junto com o fotógrafo, porque isso era capa de jornal sempre, para vender, né?! Essa profissão não é para mim. E aí a oportunidade que eu tive na RBS, eu comecei com o Heitor Kramer, diretor de Marketing da RBS. Ali eu comecei a tomar um prumo mais para o lado do marketing e aí fiz várias especializações nessa área até chegar na administração, e aí fiz um mestrado acadêmico em administração na Ufrgs e que me levou para essa área do empreendedorismo. Por trabalhar muito tempo no Sebrae, eu convivi muito com pequenos negócios iniciantes, com o empreendedor.

Mas tu trabalhas, já há um bom tempo, como empreendedor…
Eu fui trabalhar na XP, como empreendedor, com uns caras malucos. Só jovens e tudo nerd. Tudo pilhado e com alta tecnologia. E ali eu comecei a me aproximar da tecnologia, que é outra questão que me interessa muito. Mas, não a tecnologia pela tecnologia, mas o impacto que a tecnologia causa na gente enquanto humanos e, claro, enquanto pessoa física e jurídica. E meu trabalho, também, foi se desenvolvendo na parte mais emocional do empreendedor. Com o tempo de consultoria e lidando com empreendedores, eu fui vendo que 80% do problema do cara é a cabeça. E aí fui me especializar. PNL, coaching e etc. para tentar entender como me aproximar melhor do CPF do empreendedor. E aí o meu trabalho é, se eu pudesse resumir, psicanalista de empreendedor. Alguém a quem empreendedores recorrem  para falar de seu mundo e suas dificuldades — tá vendo aquela caixa de lenços de papel ali? É uma caixa por semana. Os caras vêm aqui e choram mesmo, porque não têm com quem desabafar.

O empreendedorismo é uma coisa meio solitária?
Completamente. Se tu vais compartilhar teu problema com a tua mulher (ou marido), vais ouvir “relaxa, vamos fazer uma viagem”. Se tu vais compartilhar com teu sócio, teu sócio tem um interesse. Vais compartilhar com teu advogado,  ele tem um interesse. Com um amigo, o amigo tem outro. O meu interesse é resolver o teu problema.

E, às vezes, o problema é que o resultado não vem na dimensão e nem no tempo que se espera…
Os caras chegam aqui com uma visão do negócio que eu chamo assim de um “farol baixo”, porque a atividade do empreendedor precisa ser de resolver problemas, um atrás do outro, que o farol acaba baixando. Os caras não conseguem enxergar um quilômetro à frente, mas isso dentro dele, ele como pessoa. Ele não consegue enxergar os seus relacionamentos, a vida dele se transforma naquilo ali. O meu trabalho é tentar fazer o sujeito levantar o farol um pouquinho. Às vezes, ele chega com um problema A, e a gente descobre que é B.

O que tem de gente fazendo coaching, mentoring, atualmente, é um troço impressionante. Tem até curso para ser mentoring
Tem vários cursos para ser mentoring. Tem uma rede de produção, então os caras cospem aí 200 coachings por mês, eu acho, no Rio Grande do Sul. Não sei o número, mas é em escala. E não se dão conta do seguinte: o coaching é um método, é uma prática. Por exemplo, se tu és um nutricionista, o coaching vai te ajudar e entender melhor o problema do teu paciente, para então exerceres a tua atividade profissional, que é adaptar a melhor alimentação para o teu cliente. O coaching é uma ferramenta de uso para algo que tu já dominas. Agora, quando tu faz o coaching pelo coaching… Eu vou ficar no que eu chamo de “o céu é azul”, eu vou simplesmente falar num tom mais aveludado ou um pouco mais motivador e dizer obviedades. Se tu tens uma profissão, uma competência, o coaching vai te ajudar, como técnica, a potencializar tua competência. Um médico, nutricionista, engenheiro, jornalista, o coaching vai te ajudar a aperfeiçoar tua técnica num sentido muito objetivo que é poder extrair um pouco mais de informações da tua interlocução, porque o coaching não é nada mais do que uma técnica de enunciação, de fazer perguntas, um método socrático. São perguntas através de observações que tu vais recolhendo informações para ter a condição de um entendimento melhor do que tu podes resolver do problema do cara, dentro de uma competência que ele já tem. Agora, o que está acontecendo é o seguinte: o cara não tem nada para fazer, tá desempregado, não tem um projeto, uma competência específica, e aí vai fazer coaching para dar coaching. E aí acabou se formando uma bolha de caras que dão coaching pelo coaching. Como o cara não tem uma formação, fica tratando de obviedades, mas com uma tonalidade, uma verbalização, que, na verdade, é rasteira, rasa.

Isso não tem a ver também com a capacidade das pessoas de não querer dar mergulhos mais profundos?
A questão do pensamento raso é uma coisa. Mas, tem uma questão antes dessa: as pessoas querem ser ouvidas. Por isso as pessoas pagam o coaching, porque elas querem alguém que as ouça. Hoje nós vivemos numa sociedade em que tu tá falando com alguém e sentes que a outra pessoa só está esperando tu parares para ela falar o que a ela interessa. São interlocuções independentes. Não há empatia, muito menos a alteridade. Então, esse é um primeiro aspecto que já leva muitas pessoas a procurarem um profissional assim. Aí, claro, há uma demanda, que quer ser ouvida, se tu ouvires com qualidade essas questões e devolveres de uma maneira, minimante, articulada e razoável algum feedback, isso já ajuda a pessoa. Ok. Como uma terapia também ajudaria. O coaching trabalha numa forma mais superficial, menos profunda. Ele resolve problemas que não são traumáticos, resolve problemas de crenças. Crenças que acabam sendo limitantes para as pessoas. Eu não gosto de ser chamado de coaching e não me apresento como coaching. Eu uso o coaching como uma técnica. Eu sou um mentor. O que significa o mentor? Não existe universidade para mentor, não existe curso para mentoria. Eu não acredito nisso. Porque mentoria tu tens que ter barba branca, experiência, rodagem. Porque o cara se apresenta na tua frente com um problema e tu tens que, de alguma forma, ter tido alguma experiência parecida para dizer “olha, eu tive um tipo de experiência assim, ou conheço um cara, tratei de uma experiência assim”. Eu preciso dar um norte para o sujeito. Há uma grande diferença no trabalho de mentoria. A mentoria iniciou nos Estados Unidos, é clássica lá, dos caras que prestam consultoria pro bono, sem remuneração, profissionais já aposentados, na maioria das vezes, para orientação de jovens em suas carreiras.

Seria quase uma consultoria sênior?
É quase como uma consultoria sênior. Para jovens usar em suas carreiras. Só que começou a haver um crescimento de jovens não querendo mais carreira, mas querendo ser empresários, empreendedores. Falamos do Vale do Silício, o mais notável. Esse jovens, despreparados, ainda sem experiência de vida, foram buscar mentores para aconselhá-los. Esse mentores, que antes orientavam carreiras, tiveram que se adaptar, adequar, para tratar de jovens agora querendo ser empreendedores. Então, a minha carreira aqui no Brasil é relativamente nova, orientando jovens. Mas também não oriento só jovens, oriento os híbridos que eu falo, caras que viveram a vida antes do celular, da internet e do computador – são as três grandes revoluções.

Nós somos muito hedonistas, né?! Essa conclusão de que precisamos beber na experiência alheia é uma coisa meio rara.
A demanda é boa, mas eu volto para aquele ponto do não profundo. Vivemos um contexto em que a não profundidade reina, veja o Instagram. A gente já tinha o Facebook que foi um empacotamento do conteúdo e agora nós temos o Instagram, que é o empacotamento do empacotamento. É uma imagem só e se tu botares uma frase que tenha um segundo parágrafo, já era. Então, tu tens que viajar em uma frase. E aí as frases acabam sendo “o céu é azul”, provérbios que dizem tudo, mas não dizem nada ao mesmo tempo. Por isso que eu miro nessa preocupação que a gente deve ter, especialmente os empreendedores, para ampliar o seu farol e aprofundar um pouco mais. A maioria das pessoas vive numa zona mais confortável, até porque hoje discutir é muito difícil, normalmente, se parte para a polarização. Eu tava vendo a exposição do nosso grande Paulo Gasparotto e ele dizia lá que hoje cada um tem a sua coluna social, hoje a sua timeline, a minha timeline, a timeline das pessoas é uma coluna social.

Essa exposição não nos deixa mais solitários ainda?
Eu escrevi vários artigos sobre isso e não publiquei ainda. Startup way oflife. Ou seja, nós estamos vivendo isso, como se nós fossemos pequenas empresas, nós temos que dar resultado rápido e exponencial. Nós temos que chegar ao sucesso antes dos 35 anos porque, senão, eu já passei da idade. Nós temos que ser felizes, temos que amar aquilo que fazemos, como se o trabalho fosse um passaporte para a felicidade. Isso é recente. Até há pouco tempo, o trabalho era um meio para se ter um provento e através desse provento a gente realizava, buscava a felicidade. Então, o ser feliz com o trabalho hoje é, também, uma perspectiva complicada.

Nem tudo te fará feliz no trabalho, por mais que ele seja apropriado ao teu gosto, à tua vocação, vão ter coisas no dia a dia que não te farão feliz…
Claro. O fracasso no trabalho é a impossibilidade de ser feliz. Quer dizer, se eu fracasso no meu trabalho, eu sou infeliz. Essas duas coisas não podem estar conectadas assim dessa forma. A outra história é a seguinte: até hoje nenhum jovem veio aqui dizer que queria abrir uma empresa para tratar de velhinhos. Não. Querem abrir uma cervejaria, uma hamburgueria, uma pet, viajar o mundo. Cara, quem é que vai pilotar o avião? Quem é que vai abrir meu coração e fazer uma ponte de safena? Há um fetichismo, uma glamorização, essa é a palavra, do trabalho, como algo que me levaria a ser mais feliz. Portanto, aquele que faz um serviço não glamorizado é um ser infeliz? Então, coitado do pobre do lixeiro, coitado do pobre do pedreiro. Alguém tem que fazer aquilo. A felicidade no trabalho é uma dimensão. A outra é essa hiperconexão que faz com que a gente tenha relacionamentos muito líquidos, como diz o Zigmunt Bauman, ou seja, eu me amarro contigo com o botão de eject em cima da mesa, eu faço um laço contigo levemente atado para que eu possa desatar rapidamente. As pessoas estão mais preocupadas em se safar das coisas do que em se comprometer com as coisas. Essa condição de hiperconexão nos remete para a falta de tempo. Então, a gente trata de três coisas: a solidão, o tempo e o fracasso. Ou seja, nós lidamos, nessa lida de startup way oflife, numa condição de nos fazer buscar o sucesso muito rapidamente, ter que amar aquilo que faz, estar super conectado, e, ao mesmo tempo, não conseguir conviver ou ter medo da solidão.

Percebe-se, hoje, muito forte uma intolerância com a frustração, a dor, a contrariedade…
O pessoal, especialmente os mais jovens, não lavou a louça de casa, e quer ganhar o mundo. E mora em casa, ainda, com os pais. Esse primeiro aspecto é a necessidade da solidão, ao invés da fuga da solidão. A outra é o medo do fracasso. Foi por causa do fracasso que a gente chegou aqui. O fracasso de milhões e milhões de pessoas, que tentaram e que erraram, que aí a gente olhou o erro deles e aprendeu. Os grandes caras, que construíram o que a gente tem aqui, erraram muito. A importância do fracasso. Qual é o contrário de frágil? Normalmente, a gente associa a uma coisa forte, rígida, resistente. Uma taça de cristal é frágil, um tijolo é forte. O frágil é algo que sob a pressão de uma agente estressor externo se deteriora, se quebra. Uma coisa forte, resistente, resiliente, sob a ação de um agente estressor, permanece igual. O forte não é o oposto do frágil, o oposto do frágil é o antifrágil. O antifrágil, sob ação de um agente exterior, melhora. Ele nem se deteriora e nem fica igual, ele melhora. Mas o que é que melhora? Quase tudo.

O que tu chamas de fracasso?
Temos o medo da solidão versus a importância da solidão. Outro vetor é o medo do fracasso versus a importância do fracasso. E tem mais uma que é o tempo. A culpa de eu não estar conseguindo tempo para fazer tudo. Existe uma síndrome diagnosticada sobre isso, que é eu não consigo estar naquele mesmo momento lá, curtindo aquela festa que está acontecendo lá. Eu tô nessa aqui e têm o outras pessoas curtindo uma festa lá e eu não estou conseguindo estar nesses dois lugares ao mesmo tempo. É uma síndrome. Então, a culpa do tempo versus o sabor do tempo. Eu nem falo das questões do lazer e tal, eu falo de tu entenderes que o tempo não precisa ser determinado pela velocidade da tecnologia e tu conseguires as coisas rapidamente. Tem uma história muito legal do Cézanne e do Picasso. O que aconteceu. O Picasso produziu adoidadamente quando jovem. As obras dele entre 20 e 30 anos valem quase 10 vezes mais do que as que ele pintou depois. É o que se chama de artistas conceituais. O Cézanne era um experimentalista, um cara que aprende com a tentativa e erro. Ele viveu, praticamente, a vida inteira dele com a angústia da frustração de ainda não ter alcançado a sua obra prima, porque para ele ainda não estava pronta a obra. Então, tu vês na obra do Picasso uma obra reta, objetiva, forte e com traços vibrantes. E tu vês na obra do Cézanne o detalhe, a harmonia, a composição, o estudo, o detalhamento.

Mas o Picasso invejava o Cézanne. É a boa inveja?
É. Mas porque eu tô usando o exemplo desses caras? O Cézanne, as suas obras primas e as mais valorizadas, que valem 10, 15, 20 vezes mais, são as que ele produziu aos 60 para lá. Primeiro: se eu não fiz sucesso ainda, até os 35, acabou a minha chance de ter sucesso? Bom, o Cézanne estaria fudido então, né?! Dois: eu tenho 40, passou a minha chance ou eu estou ainda em fase de aperfeiçoamento. No startup way oflife a gente tende a achar que as coisas mais legais que existem no mundo são feitas por jovens. O Zuckerberg falou isto: acontece que os jovens são mais inteligentes. Ao mesmo tempo, o Caetano falou: o homem velho é o rei dos animais. Quer dizer, vamos com calma, porque tu tens 50, 60 anos, tu tens a capacidade que pode te remeter a uma obra prima. Por que não? Ao jovem, outra perspectiva: peraí, meu velho, tu vais viver 100 anos. Olha quanto tempo tu tem, cara!

Nós estamos falando de startup, dos jovens. Mas nas grandes empresas, grandes conglomerados, tradicionais, o CEO, o cara que toca ali, parece que ele está tão perdido quanto a gurizada que está começando agora.
Bom, a questão dos caras que dobraram a curva dos 40, os que eu chamo de híbridos, o que está acontecendo com eles é uma coisa bem clara, acontece hoje que a gente tá vivendo uma situação única na história da humanidade. Um gráfico simples: tecnologia e tempo. A tecnologia veio crescendo exponencialmente. Há 50 anos, o crescimento tecnológico em uma década era sutil, podíamos ir nos adaptando gradualmente a essa nova tecnologia. O que acontece hoje é que o tempo para se adaptar é muito curto. Surge uma nova tecnologia hoje e já tem outra amanhã e outra e outra. Essa angústia da obsolescência é algo que está dentro dessa angústia do tempo. Como é que eu faço  para lidar com essa questão do tempo? Então, aqui começa a nossa entrevista, cara. Isso é que é o coração do negócio. De geração para geração, elas iam tendo tempo para se adaptar às novas tecnologias e ir se modelando. Então, os presidentes de grandes empresas, iam se adaptando, os mercados iam se adaptando, e a coisa ia indo. O que acontece é que hoje essa adaptação é muito violenta. O que é hoje, a semana que vem não é mais, e ano que vem já não é mais, também. O ambiente troca toda hora. Mas tem mais uma dimensão aí dentro desse gráfico. Neste periodozinho, ao mesmo tempo do surgimento de uma tecnologia, o avô, o pai, o filho e o neto estão tendo contato ao mesmo tempo com ela. O avô tem uma reação, o pai tem outra, o filho outra e o neto outra. Cada um vai reagir à sua maneira em relação a essa nova tecnologia. E aí, é o que eu chamo de achatamento geracional. Ou seja, eu tenho que conviver junto com o meu neto ou junto com o meu filho, eu sendo pai, e com meu avô, diante, ao mesmo tempo, de uma tecnologia nova para nós quatro. Isso dá um atravesso em todo mundo. É uma confusão.

Há, hoje, uma disputa por nossa atenção, e isso nos dá uma certa angústia quando estamos fazendo algo que não seja “útil”.
Não é angústia, é culpa. Porque eu não li aquele artigo? Porque eu não fiz aquele negócio? A coisa te dominou. Então, quando a gente fala, especialmente, sobre tecnologia – e por isso eu botei startup way oflife, de uma forma metafórica, porque startup a gente liga à tecnologia e à velocidade. Nós somos quase que como empresas que têm que dar resultado, rápido, exponencial, temos que ser felizes nisso que fazemos e isso nos coloca num redemoinho em que a gente deixa de fazer coisas que não são tão fáceis, como ficar sós. Voltando para o executivo, o cara que está com 50 anos à frente de uma empresa, ele tem a capacidade de ficar só, melhor do que o jovem. O jovem não consegue ficar só. O cara mais velho tem a condição de absorver melhor o fracasso. Ele tem condições de olhar em volta dele e ver que precisa reorganizar o próprio tempo.

Se pudesse resumir a chamada para essa entrevista, seria a solidão, o fracasso e o tempo necessários nos dias de hoje, mais do que nunca? A importância da solidão e do fracasso?
Nós vivemos numa zona de perplexidade. No passado, nós tínhamos mais tempo para  maturar essas perplexidades, de pensar melhor sobre elas, de tratar, de aprofundar cada uma dessas complexidades que foram surgindo. Agora, a tecnologia está nos comprimindo. A gente buscar resolver essas complexidades de uma maneira bizarra e avassaladora,  que faz com que muita gente caia no caminho. Então, a gente vive um momento de urgências complexas, que está levando as pessoas a ter que dar respostas muito rápidas e alguns caem pelo caminho, desistem.

Então, é aprender a navegar num mar de urgências?
Aprender a navegar num mar de urgências entendendo que fracassar, estar só e se sentir culpado por não ter tempo são coisas que nós vamos ter que aprender a lidar e que, por contrário ao pensamento comum, os caras que estão com um pouco mais de idade levam vantagem, porque eles viveram uma vida antes disso. Então, pô, eles conseguem viver uma vida solitariamente. A minha filha fica meia hora só e é como se tivesse um fantasma na sala, ela não sabe viver com ela mesma, ela tem medo de fracassar porque no mundo do Facebook e Instagram todo mundo é perfeito. Ninguém falha. Todo mundo é feliz, realizado e perfeito. Se eu fracassar, eu me suicido.

Edgar Powarczuk

Entrevista: Julio Ribeiro
Fotos: Marcos Nagelstein