Para quem estou agora

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Com pouco esforço colhi a fama de pessimista e até baixo astral nos últimos tempos. Ao menos para alguns. Fiquei surpresa pois sei que a imagem que meus amigos fazem de mim é de uma alegria intensa e até subversiva. Crítica, sem dúvida, mas essencialmente alegre, capaz de rir das intercorrências da vida. Me recordo de um aniversário em que recebi tantos presentes lúdicos: de livro do snoopy a bexiguinhas. Em outra passagem, lembro, também, de um chefe que certa vez arremessou um saco de brindes na minha mesa. Balbuciava algo. E eu, feliz, achei que era um saco com doces para o deleite da tarde. Outra dessa fase foi a primeira vez em que fui assaltada na rua. O ladrão veio por trás e me “abraçou”. Eu realmente achei que era um abraço. Somente quando me virei e vi que era uma “gravata” senti medo, raiva e gritei.

Cada um é um universo em si e, também, outro universo, pelo olhar do outro. É o que faz a realidade ser mágica. Sim, a realidade é factual e mágica. É muito maior do que podemos perceber especialmente porque nos reduzimos ao conforto do mundo sem surpresas ou sem mudanças. Ficamos nos apequenando numa realidade perceptível a nós pela graça de tudo que já vimos. É mais fácil. Dá pra ir levando sem sobressaltos e com sorriso no rosto apesar das doenças que vão pintando e de  toda escassez emocional a que nos submetemos em nome de parecer estar feliz. Só que a realidade é, sobretudo, além do que conhecemos e maior do que podemos perceber.. Por isso é mágica.

Me mudei e mudei bastante. Tenho comigo, ainda, minha alegria intensa. Só que nem sempre ela transborda. E, francamente, eu acho natural. Estou ainda como nômade, em trânsito. Isso não é sempre gostoso. É solitário, que é como tenho me sentido. É desconfortável. Dá medo. Tem dias indigestos. E me deixem! Quero sentir, porra. Prefiro uma vida bem viva com seus cabidos desagrados a uma felicidade tão falsa quanto apertada demais para o tamanho de mulher que me tornei.

Não vou mentir, tem dias que olho apartamentos no bairro onde vivia. Não pelo desejo de voltar, mas como que para tentar traduzir essa diferença do antes e agora. Onde estou e como me sinto. Como que me beliscando para concretizar esta magia da vida.

Já me perguntei algumas vezes se fiz a escolha certa. Se este era o caminho. Como saber? Ainda bem que li e reli Kundera no seu clássico “ A Insustentável Leveza do Ser” e ele tasca: “Não existe meio de verificar qual é a decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado.” Quem então é capaz de garantir que está no seu melhor momento? Uma hashtag? #sejasuamelhorversao #happiness #blassed

Qual é a melhor versão? A do assalto confundido com um abraço ou agora quando, ao andar de bicicleta pela rodovia, vejo uma galinha degolada e vendida na hora e por isso me ponho a chorar porque eu sou assim. Qual é a minha melhor versão? A que aceitou um saco arremessado na mesa ou a que, de repente, não aceita determinadas dores? Na semana passada fui quase atropelada. Seria um acidente muito grave, me joguei no que deveria ser uma calçada e senti o retrovisor do carro nas minhas costas. Desta vez eu não achei que era um conhecido tentando me dar oi. Eu senti que a vida parece não valer muito por aqui e que eu poderia ter morrido. Me abracei num amigo que viu tudo chocado e chorei compulsivamente. Sequei as lágrimas e fui em frente. Porque eu vou, apesar de doer. Posso chorar e parecer pessimista mas sigo minha viagem humana. Essa é a realidade agora. Tem outros riscos e outros risos. Não tem ensaio nem garantias. Não tem como saber se vai dar tudo certo. E ainda assim me jogo nesta aventura de viver mesmo que custe lágrimas a mais. Sigo desejando estar aqui e ainda assim faltam coisas. Dizem que é assim mesmo: se tem falta tem desejo. Ainda por cima escolhi um lugar de muita escassez. Só que ele me dá abundâncias. É a realidade… mágica. Eu não vou me furtar deste transbordar. Tô viva na minha jornada e agora está sendo desse jeito. A natureza é apaixonante mas não é um edredom fofinho. Estar viva em vida é assim e eu não poderia me exigir estar e ser igual a que deixou tanto para trás.

Me dei conta que sou de uma família cheia de coragem. A mãe casou com um chileno e de Erechim sua cidade natal, migram para Penco, a terra dele. Alguns anos depois voltam ao Brasil e fixam residência em Porto Alegre. Minha irmã e o marido deixam Porto Alegre para viver em Milão, na Itália e de lá rumam para Boston onde estão até hoje. Até que eu andei pouco.

Cada um viveu esse processo com sua realidade. Vendo as coisas como possível. Eu sabia que a distância era dura. Mas não tinha sentido ainda. Sinto muita falta de vocês. A Laurita ia dizer que horror vamos anotar a placa do carro (sem placa) que te atropelou. Meu pai ia andar de um lado para o outro para, com sabedoria, me dar algum conselho tentando segurar a ira pela irresponsabilidade do motorista. A minha mãe ia estar preparando uma guloseima para que eu superasse o susto. O meu filho ia me abraçar e dizer que respeita minhas lágrimas e o Gabi ia estar rindo da história da galinha. Amo vocês. Cada um faz falta de uma maneira muito especial.

Por Marta Dueñas
(na foto a pista, como é chamada a rodovia AL 101, que é meu trajeto diário de bicicleta para a cidade)