Game over

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Se você passar o dedo na tela em sites e redes das grandes empresas, 100 de 100 “respiram inovação” e seu “capital mais precioso” é gente. Dentre as assumidas do ramo de inovação é mandatário ambientes leves, métodos disruptivos, empresas desconstruidonas. E até ontem, esse era o futuro do trabalho. Startups localizada em hubs: a nova era dos criativos de garagem. Do outro lado do ringue o sisudo setor convencional das indústrias, metalúrgicas ou até mineração. Elas são sólidas mas vem sem glamour ou fanpages. Soma-se ao picadeiro os fantasiados de inovadores como grandes redes de varejo e alimentação que gozavam, até últimas horas, de orgulho nacional pelo crescimento e abertura de novas lojas em velocidade viral.

E agora? Acabou a festa em quase 30 dias de reclusão social?

Perdas, quebradeiras, demissões. Onde começou a moratória e a especulação? As pessoas precisam ter a mesma vida de antes para que os negócios continuem? Ué, onde estão os reis da disrupção? A uberização da economia salvou quem?

Enquanto mercado for a rede de relação em detrimento da sociedade teremos a inovação subserviente a estes interesses e não aos nossos. Nos anos 50 quando carro era uma inovação as cidades foram submetidas a ele. A maneira como desenhamos nossas vidas urbanas, as veias da cidade, o trânsito, a fluidez, tudo acompanhou (lomba abaixo) o motor de um chevette, digo ironicamente. E a sociedade precisou disputar espaço de forma aldeã: criando ações que demarcam desejo de fluxo, fincando bandeiras por direitos, batalhando em trincheiras que resultaram em mortes.

Estamos tão longe de ser inovadores que para termos uma vida mais ou menos somos obrigados a viver em cidades que ainda estão desenhadas para os carros cuja estética, o valor e os serviços são determinados pelas empreiteiras, onde a mobilidade custa caro e é perigosa e você, meu caro, você que lute! Estas nossas cidades tem déficit habitacional, falta de saneamento, problemas de rede elétrica e dificilmente e alagamentos. O futuro que fomos capazes de criar até aqui já está no passado.

Os migrantes transitavam, antes, por uma vida melhor, agora apenas migram em busca de vida. Onde antes poderiam vislumbrar oportunidades agora montam-se nações mambembes que lutam para ter o básico e ainda resultam em grupos sem habitat cultural, econômico e social. E as nossas cidades não são capazes de integrá-los.

Estou pensando em tudo isto porque é neste grande e indigesto vazio que estamos experimentando o momento de criar. Agora podemos simular cenários absurdos e eles parecerão bastante viáveis. E não me refiro a tecnologia, mas sim a capital humano.

Não haverá inovação capaz de transmutar os vazios humanos e este parece o cerne da questão. Não é a inovação das tecnologias o centro da nossa mudança. O marco das transformações sociais está ancorado, ainda, nos dilemas humanos básicos e crus. A inovação será totalmente humana, artística, poética. A empatia e a cooperação, que deveriam ser pilares dos setores inovadores, não serão criadas a partir de relações competitivas no mercado de trabalho ou entre empresas e segmentos. Os jogos de ganhar e perder, aniquilar ou acumular vidas (no plural) não são, nem serão, capazes de criar uma atmosfera solidária.  A colaboração humana não se resume a um aplicativo de carona. E agora é de colaboração e justiça social que estamos precisando para nos reinventar.

Enquanto aplicativos e gadget forem criados para responder a questões meramente utilitárias da comunidade continuaremos a espalhar novidades sem inovação. Mas então como fazer?

Meu palpite é batido: educação integrada, acesso à cultura, direito ao esporte e lazer. Já pensou uma escola com atividades e aprendizados humanistas como filosofia, arte, teatro, atividades físicas, amparo psicológico, psicoterapia, música. Que pessoas sairiam daí para formar a sociedade e o mercado?

Adianta uma escola cara, cheia de cursos e preparações para vestibular agora? Que vestibular? Mal sabemos se ele vai ocorrer. E mais adiante: para que quero a faculdade? O que farei dos meus afazeres? Do que serve tudo que fizemos até aqui vivendo assim como estamos? Serão semestres perdidos pois as universidades em 2020 não possuem estruturadas atividades on line. As escolas privadas, caríssimas, “manemal” organizaram grupos de whats para enfrentar o isolamento social. Não é por falta de tecnologia. É por falta de propósito. Se tem aula sou obrigado a ir, se não tem, me desligo. Não sinto que preciso de aula. E agora?

E o que dizer das empresas e o que elas oferecem para nossas vidas? De que serve o melhor hambúrguer do mundo? Qual é a finalidade da calça que levanta o bumbum? Quais serão as futuras janelas para uma suposta vida quando lives e postagens  finalmente nos sufocarem? Se você não conseguiu fazer algumas destas perguntas neste tempo espero que fique mais uma fase em casa. A inovação não está a um clique de botão, mas um clique da cabeça.

O mundo já tá meio gamificado, você em casa fazendo tudo pela telinha e ninguém tá gostando muito. Game over.