Como sobreviver a morte da verdade e a outros esqueletos que saem do armário na pandemia

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Além do enfrentamento das crises sociais já conhecidas por nós brasileiros, o tempo agora é de isolamento social, adoecimentos físicos e emocionais, enfrentamento de uma crise anunciada (que nos matará de morte matada ou morrida), a derrocada das instituições e a morte da verdade. A pandemia não revela apenas o Coronavirus, Covid 19, a pandemia vai revelar a pessoa que habita em você. Nosso próximo desafio, além de sobreviver a tudo que bate às nossas portas fechadas, será nos recriarmos a partir desses lutos e do enterro de alicerces de nossa sociedade como conhecemos.

Algumas passagens serão de grande importância para o nascimento do novo. O mercado precisa mudar. A maneira como nos desenvolvemos economicamente e, principalmente como nos entendemos como seres criadores e produtivos. Eu celebro este renascimento mas entendo que será duro e fará aparecer o que há de mesquinho na gente. Existe ainda um grande número de pessoas apegadas ao seu pedestal e estes estarão armados diante do quadro de mudança.

Já a morte da verdade, que inaugura uma era de crendices e insanidades, me assusta.

Ainda que a verdade não exista como unidade, ela é patrimônio social e um direito humano. Somente a sensação da existência dela é importante para nosso modo de pensar e para a segurança e bem estar.  Como jornalista acredito que podemos ter mais de uma verdade porém elas precisam estar ancoradas na mesma base factual científica. Aprendi, também, que notícia é algo que necessariamente tem que ter comprovações, fontes credenciadas, relevância social, interesse público e visar o bem coletivo. Mas se começamos a relativizar fatos e até mesmo a ciência (que destaco aqui: não compete com a fé), então começamos a derrubar as bases daquilo que se conhece por informação.

A crise dos meios de comunicação, que é anterior a pandemia, somada ao descrédito das instituições e o avanço da cultura de informações por demanda abriu a porta a esta nova ordem que subverte a importância do objetivo e do subjetivo e corrompe aquilo que entendemos por fonte de credibilidade. Há, ainda, uma confusa relação naquilo que é liberdade de escolher a quem ouvir com entender quem pode ser fonte de algum tipo de informação.

Estamos dando prime time do ibope aquele tiozão do whats da família que dá a notícia nacional como se fosse Fátima Bernardes. Até aí, tudo bem, problema é você acreditar.

 Se antes se dizia que informação é poder, hoje eu diria que poderosa é a desinformação.A transferência do poder não se dá necessariamente a quem tem informação mas sim ao detrimento dela. É quase uma relação perversa de comunicação e desenvolvimento.  A era da sabedoria das massas partilha a falta de conhecimento em grande escala e, pior, liberta e endossa preconceitos de todos nós.

A minha quarentena tem sido de pouca leitura e muito whattsapp. Fiquei atordoada mas ainda não perdi o juízo. Estou impactada de vivenciar a era da pós verdade.

Algumas pessoas realmente acreditam mais em vídeos feitos no banheiro de casa ou num espaço lugar nenhum do que nos indicativos científicos, entrevistas de professores pesquisadores que prestam informação a respeito do Covid-19. A subjetividade não poética, chamarei assim, vem ganhando da objetividade. Não é a emoção x razão. São os memes e o tik tok, e não a poesia, que estão tentando aniquilar a ciência.

Se a verdade está com pé na cova minha pergunta é para onde estamos sendo conduzidos uma vez que a informação (real ou não) é indutora? Para onde estes retalhos de informação, estes inputs que nem sempre são colhidos à luz da ciência vão nos levar? Não sabemos ainda, nem mesmo os mestres da pesquisa podem nos responder tudo. Estamos experienciando algo maior do que números de contaminados. Estamos na porta de algo novo cuja ponte não está construída ainda. Sim, é assustador mas é aí que fica mais interessante. Temos mais perguntas do que respostas e este é um cenário de inovação social, humana, econômica, científica.

Já pensou em usar seu whats para fazer novos negócios? Os aplicativos de encontro podem ser utilizados pelas escolas. A hora é de ousadia inclusive para amparar aqueles que nem casa tem. E você nem quer fazer boa ação mas será obrigado a ser empático como forma de reduzir danos. Que lição!

Se a verdade morrer que a não verdade seja poética. Se a subjetividade matar a ciência que o subtexto nos faça sobreviver: os contos, a escrita, a arte, a cultura. Tudo aquilo que já foi dado por morto em nome do mercado agora nos salva de um mercado no caminho da morte.