A mãe que construo em mim

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Duas horas de conversa com meu filho e a vida me escorreu pelas mãos. Líquida, poderosa, energizada e emocionante. Ele saiu do quarto, entre caixas e memórias, com o álbum do bebê. Abri aquilo como um tesouro. As folhas delicadas, preenchidas com a letra do pai. O dia, a hora, o peso, o nome, as características daquele menino que vinha ao mundo redesenhando minha vida e criando a sua. As lágrimas me tomaram a cada folha com tantos detalhes. São sempre eles, os detalhes, que fazem tanta diferença. Em certo ponto vieram páginas em branco. Ali começou um momento em que deixei a vida roubar minha vida. Lacunas atordoantes daquele tempo que foi dos mais felizes que experimentei: a construção do meu núcleo. A construção de uma casa. A aventura de crescer. As delícias da maternidade.

Voltei ao trabalho 2 meses após o nascimento do meu filho, no quarto mês dele, voltei a faculdade. Este não é um texto de arrependimento. Mas algumas escolhas e circunstâncias, mesmos que fossem as possíveis, naquele momento, me fazem sofrer.

O bebê é calmo, dorme até no banho, dizia uma passagem. Na próxima página: o Wolf não gosta de ficar sozinho. Lembrei de cenas em que me reclinava para colocar ele no berço e, antes mesmo de encostar no colchão, a boca franzida já dizia não. Tão logo eu o trazia junto ao meu peito outra vez.

Ao longo da vida vamos fazendo este movimento simbólico tantas e tantas vezes. Deixamos ir, trazemos ao peito. E buscamos nas relações este vai e vem de liberdade e acolhimento.

Já faz algum tempo decidi não deixar lacunas nos meus álbuns e não permitir que o silêncio pontue relações. Tenho sede da minha vida, tenho desejo de construção e não consigo mais conviver com falta de limite. Limite é contorno: imprescindível para desenhar quereres. Se tem uma decisão da qual não abrirei mão é de viver tão plena quanto possa, de fazer o que gosto com quem gosto, de exigir mais, de matar minha sede, de alimentar minha gula dizendo sim quando faz sentido e dando não para todo resto. Não abrirei mão de estar presente e querer presença. De fazer no sentido do que falo (ou escrevo). De fazer dar. De acontecer. A vida me é água e é nesse movimento que mergulho com ímpeto, desfrutando tanto quanto desejo. Me dou o direito. Já faz tempo que tenho vivido com gana de realizar e não penso desperdiçar.

Gracias filho! O banho também acalma a mãe. A água me devolve o meu mundo. A mãe também ama a vida acompanhada de gente com vida e segue construindo. A obra da vida é toda por ser vivida!