Devagar, que o santo é de barro!

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Entre essa overdose de informações, neste tempo de hiper conectividade, onde tudo ficou online — recebemos uma enxurrada de stories e posts no Instagram, mensagens no whatsapp, lembrete de lives no Youtube, lista de séries para maratonar, links de vídeos, sugestões de  filmes do Oscar, notificações no linkedin, recados no mensenger no Facebook —, ouvi um tema que me chamou muito a atenção.

É o movimento slow content. Já me sentia aflita por não conseguir acompanhar tanta e tanta informação. Esse movimento vem a calhar.

Quem nunca deu uma rápida checada no celular antes de dormir e acabou ficando três vezes mais tempo do que pretendia? Quem nunca ouviu um apito de uma mensagem e respondeu achando que fosse rápido e ficou horas conectado? Quem nunca entrou num link que foi para outro e para outro e assim começou a navegar num mar de dados? Como tudo tem seu preço, todo este tempo “gasto” na internet está sendo “confiscado” de outros momentos. Não só confisca o tempo das pessoas reais, que no momento podem estar ao nosso lado, mas também o “nosso” tempo, até mesmo do nosso silêncio, da nossa reflexão interna ou de uma meditação que renova a alma. Já pensou nisso?

A ideia básica do slow content é trocar a quantidade de informação por mais profundidade e qualidade. Um conteúdo mais autêntico voltado para uma audiência mais engajada. Tanto as marcas quanto os criadores de conteúdo devem repensar o que divulgam, planejar e focar mais no que é relevante. Não é obrigatório postar todo dia. Quem disse isso por sinal?

Se a maneira de consumir produtos já mudou com a reviravolta provocada pela pandemia, a maneira de “consumir” a informação me parece que, também, está em transformação. Com consumidores mais conscientes e questionadores, as marcas têm o grande desafio de conseguirem um espaço tanto no coração dos seus clientes como também no bolso dos consumidores já que a maioria está com menos dinheiro. As pessoas se deram conta que não precisam de tanto para viver. Agora está na hora de olhar para o conteúdo com mais critério. Priorizar o essencial, aprofundar-se nos propósitos e estabelecer laços de longo prazo, através de narrativas bem elaboradas, consistentes e afinadas com as expectativas de quem queremos conquistar.

O fato é que a corrida pela atenção a qualquer preço se tornou irracional e bizarra, muito mais confundindo do que atraindo. Ou seja, em termos de investimento se tornou um péssimo negócio, um desperdício de verba incompatível com qualquer planejamento profissional. O movimento slow content nasce como uma reação natural em um mercado esgotado por uma exploração sem critério que, à semelhança da corrida por certos recursos naturais, tende a deixar um rastro de destruição pelo caminho. No caso, o abalo na reputação de marcas construídas ao longo de muitos anos e que, enfiadas no alvoroço da comunicação empurrada goela abaixo dos consumidores de informação, através dos meios digitais, acabam se nivelando por baixo.

Esse, aliás, é o grande desafio para o uso do slow content: identificar na mídia online uma forma de distinção, que na mídia offline sempre se mostrou clara, através do uso da criatividade. Bingo!

Ana Paula Jung é jornalista especializada em marketing e comunicação  também publicitária.