A força do ClubHouse

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O filósofo grego Aristóteles (322 A.C – 384 A.C.), que era o Google naquela época, e sabia tudo sobre ciência, política, economia e arte, afirmou que a disciplina da retórica facilitava a lógica de palestrantes e escritores que tentavam informar, persuadir, ou motivar grupos específicos em situações específicas.

Em certo sentido, dizia o mestre Philip Kotler, Aristóteles foi o verdadeiro pai das vendas, nas palavras dele, o “Father of Selling”.

E isto tem tudo a ver com a nova rede social Clubhouse, que é um laboratório vivo da retórica.

O Clubhouse traz a voz, o instrumento humano mais perfeito e elevado que existe e que consegue traduzir e transmitir as ideias. Este aplicativo de áudio atua como uma espécie de podcast aberto, ou seja, qualquer pessoa pode ouvir os chats de áudio que estão em andamento, de modo síncrono, ao contrário de todas as outras redes existentes, leia-se Facebook, Instagram, Linkedin, Twitter e outras, que atuam se modo assíncrono, podendo recuperar as mensagens e postagens, posteriormente.

No Clubhouse, a dinâmica está nas Salas (Rooms),que são temáticas e podem ser filtradas de acordo com os gostos do usuário. Quem participa do app pode encontrar chats com palestras, músicas, papos sobre tecnologia, entre outros assuntos. É uma verdadeira Torre de Babel, já que, por sua tecnologia inovadora de áudio, com 0% de latência, permite que pessoas a milhares de quilômetros de distância participem das Salas como se estivessem lado a lado.

O que parece um defeito do Clubhouse, pra mim é o seu lado positivo. O app não possui meios de gravar conversas e armazená-las, o que dá espaço suficiente para o desenvolvimento de discursos de todo tipo, sem que ao menos provas sejam deixadas. Isto faz com que os seus usuários se predisponham a interagir mais espontaneamente.

As marcas estão observando, atentamente, a dinâmica desta novíssima rede, procurando brechas e maneiras de se inserirem neste novo mundo. Algumas empresas já experimentaram a novidade.

A marca Nescau, que pertence ao portfólio da Nestlé, foi uma das primeiras a aderir ao movimento.

“Nosso principal objetivo é encontrar na plataforma mais um caminho para ampliar o debate sobre os temas que permeiam a marca como esporte, sustentabilidade, inovação, entre outros”, diz Abner Bezerra, Head de marketing de Nescau e bebidas Nestlé.

Outra marca a acreditar e apostar na nova rede é a Audi, que promoveu um painel com o tema “A Era dos Carros Elétricos, Powered by Audi”. Na ocasião, a marca mediou a troca de experiências e informações sobre a propriedade, uso e a transição para os veículos 100% elétricos.

Enquanto algumas marcas testam o modelo do Clubhouse, a grande expectativa é o ingresso, na rede, da enorme massa dos Androiders, que em maio devem dar o ar da graça na plataforma e aumentar sua massa crítica.

Perguntei para vários “heavy-users” da nova rede como avaliam o impacto do Clubhouse no ambiente web. O criativo Cado Bottega, da Blend, tem esta visão:

“O Clubhouse traz uma equação perfeita entre celebridades, pessoas comuns e temas que interessam a consumidores e territórios ocupados por marcas. É um ambiente pronto para marcas construírem e engajarem com suas comunidades via produção de conteúdo. É uma experiência fácil e simples para todos. As possibilidades são inúmeras e atendem a uma necessidade de múltiplas conversas nichadas simultâneas. Se a nova rede veio para ficar ou não, é impossível de se prever, mas o fato é que é uma nova plataforma que tem muito ainda pra ser explorada”.

Já a designer Luciane Zorzo, da Zorzo Design, destaca a leitura ativa e o impacto da nova plataforma para o universo do branding:

“Na epítome de uma pandemia, em um planeta sofrendo de baixa humanidade, o Clubhouse emergiu como uma plataforma que, através do design para a PRESENÇA, oferece doses exponenciais de conexões humanas significativas. Como? Através de conversas ao vivo, sem reprises e sem vídeo, a ESCUTA ATIVA torna-se a chave para co-existir, compartilhar, colaborar e expandir os vínculos”.

A estratégia da “exclusividade” através do “FOMO” (Fear of Missing Out), apenas para usuários de iPhone, via convites “escassos”, fez com que os “membros antigos” desse clube se reconheçam como “iguais”, colocando todos em contato horizontal com grandes pensadores, empresários, artistas, investidores etc., sem limites geográficos.

O Clubhouse caiu como uma luva para humanizar e catapultar as vidas de milhões de pessoas, ironicamente unidas pelo isolamento e pela carência de conexões reais.

O “ao vivo” é autêntico, legítimo, fica difícil ensaiar ou aplicar um filtro sobre o que se é. E assim estabelecem-se conexões e vínculos com pessoas que provavelmente nunca teriam tamanha proximidade. Agora, enquanto o fenômeno cresce e os “membros Alumni”, unidos pela sua “antiguidade”, especulam como será a chegada “dos calouros”, todos especulam sobre os modelos de monetização, como inserir as marcas nesse contexto e quais são os planos futuros dessa plataforma que mesmo em modo Beta já é um App Alfa.”, diz Luciane.

A verdade é que todos ainda estamos analisando e estudando a nova rede e descobrindo suas potencialidades.

Simone Kliass, mentora do SXSW, que teve a sua edição 2021 encerrada há poucos dias, analisa assim a nova rede:

“O boom da voz não é novidade pra quem acompanha o mercado de áudio: maior adoção de assistentes de voz, maior número de podcasts, áudio séries, mais destaque ao sound branding, experimentações com áudio aumentado, só pra citar alguns exemplos.

Em tempos de pandemia e isolamento social, estamos buscando novas formas de conexão e uma plataforma intuitiva e fácil de navegar, como o Clubhouse, é uma ótima alternativa. A voz revela muito mais do que um emoji, traz à tona a personalidade, a vivência da pessoa. Aproxima, cria intimidade, estimula a imaginação e possibilita tarefas paralelas. Dentro do próprio app podemos esperar inovações também: salas com vinhetas, trilha sonora, sound design e “programas” mais estruturados. Destaco também o surgimento de novas mídias sociais baseadas em áudio: Spaces do Twitter e a Swell.”

Enfim, ainda em estágio beta, o Clubhouse ainda tem muito a evoluir e, certamente, ainda teremos muitas novidades sobre esta nova e instigante rede.
Vida longa ao Clubhouse!

 Por Alberto Meneghetti – Publicitário