Adeus Tio Carlinhos!

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Eu tinha uns 14 anos quando conheci a crítica social de Steinbeck, o existencialismo de Sartre e Camus, a sensualidade de Jorge de Amado, a grandiloquência de Thomas Mann e mais um universo de sentidos trazidos pelos livros. E isso, de certa forma, foi o que me salvou. Sétimo filho de um carregador de malas da Estação Rodoviária de Pelotas e de uma dona de casa (criar oito filhos não é coisa para fracos!), tinha poucas chances para mudar de vida. O novo patamar de sonhos que os livros me propuseram e proporcionaram, serviu de inspiração para o que eu faria nos anos e décadas seguintes.

O mês de dezembro começou de forma muito dolorida, meu irmão Antonio morreu, no dia 1º. De repente, aos 68 anos. Infarto fulminante. Nós, os irmãos, o chamávamos de “Tio Carlinhos”. Aliás, desde que começaram a nascer os primeiros sobrinhos, nos chamamos a todos de “tio”, uma forma carinhosa de reconhecer novos vínculos com que a vida foi nos ligando.

Foi o Carlinhos (ainda não éramos tios) que me apresentou ao universo salvador dos livros. Nunca soube como, afinal éramos muito pobres, mas ele conseguiu adquirir aos poucos a grandiosa coleção “Imortais da Literatura Universal”, publicada pela Editora Abril em meados dos anos 1970. Devo muito do que sou a ele, portanto.

Ao longo das ultimas quatro décadas, desde os tempos da descoberta dos livros, nossas vidas foram se cruzando e se distanciando, muitas vezes. Brigamos e nos reconciliamos, conversamos horas a fio sobre tudo, rimos, divergimos, calamos e voltamos a conversar.

Quando ele vendia churrasquinho na “Parada da Juventude”, na avenida Bento Gonçalves, em Pelotas, ou embaixo das arquibancadas do Bento Freitas, eu fui seu ajudante várias vezes. Quando começou a vender sapatos, eu fui um dos principais clientes.

Quando quis se candidatar a vereador, pelo PRONA do Enéas Carneiro, eu criei a campanha e mandei produzir os santinhos e faixas.

Quando lancei as primeiras revistas, ele saia pelo Rio Grande do Sul e Santa Catarina, vendendo assinaturas nas universidades. Depois passou a entregar os exemplares para os assinantes de Porto Alegre. Entregava um a um, com muita dedicação. Em muitos casos, dedicava bons minutos para conversar com os destinatários. O Günter Staub, o Julio Sortica e o Flávio Del Mese eram algumas dessas pessoas com quem ele gostava de conversar.

A conversa, aliás, era o seu esporte e lazer preferido. Era capaz de falar por quanto tempo o interlocutor aguentasse. Era um autodidata em várias coisas, que iam da música clássica e óperas à política, passando pelo futebol, negócios e economia e chegando à religião e à espiritualidade. Gostava de ler mãos e interpretar astrologia. Era um místico que vendia guarda-chuvas, lanches, bebidas, ingressos e tudo mais que pudesse ser transacionado. Em meio a uma conversa, é claro!

Por isso, o engasgo de vê-lo ali na urna mortuária, calado, inerte, vestido com o terno que eu usara, há poucos dias, na festa do Prêmio Press, ao som de Mozart e Beethoven, como sempre me pediu e recomendou. Foi colocado na sepultura sob os acordes de Jesus, Alegria dos Homens, de Bach, outro de sua preferência, e, ao final de tudo, ouvimos o Requiém em ré menor, de Mozart, como última homenagem ao Tio Carlinhos. E ele ali, calado, para sempre!