Abigeato: O crime ronda o campo

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Não é de hoje que o furto e roubo de animais no campo – o abigeato – causa prejuízos na agricultura gaúcha e brasileira. Carneados, muitas vezes, no próprio estabelecimento rural, na calada da noite e sem as mínimas condições de higiene, os animais mortos resultam em pedaços de carne vendidos em muitos estabelecimentos pelo Rio Grande do Sul. A atividade criminosa no meio rural atinge também sementes, cargas de grãos, tratores e máquinas em geral.

Velho conhecido dos produtores rurais, o abigeato cresceu e se sofisticou ao longo das últimas décadas devido a vários motivos: as grandes extensões das propriedades, a dificuldade de fiscalização por parte do Estado e a organização das quadrilhas. A figura de um único ladrão roubando uma ovelha para matar a fome de sua família cedeu espaço a grupos numerosos, ramificados pelo Rio Grande do Sul, com operações de guerrilha.

Entre 2015 e 2017, foram registrados mais de 3,3 mil casos de abigeato nos dez municípios gaúchos onde este crime é mais frequente, uma média de quase cinco furtos ou roubos por dia. O prejuízo dos produtores ultrapassou R$ 70 milhões no período, segundo estimativa da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul.

O prejuízo é tão grande que, segundo dados do Ministério da Agricultura, cerca de 20% da carne consumida no Brasil é clandestina, e chega à mesa do brasileiro custando até 40% menos que a proteína que passou pelos trâmites sanitários oficiais. Por isso mesmo é que, desde 2016, o Rio Grande do Sul conta com uma força-tarefa da Polícia Civil dedicada exclusivamente para combater o abigeato.

Sediada em Bagé, com bases avançadas em Rosário do Sul e Pinheiro Machado, a força-tarefa da polícia é composta por nove policiais, com atuação em todo o Estado. Em um ano de trabalho, foram desarticuladas 17 quadrilhas especializadas em abigeato, com 135 criminosos presos e 35 toneladas de carne apreendidas. Os policiais recuperaram ainda 843 cabeças de gado e 11 veículos roubados.

Por conta do trabalho científico de investigação da força-tarefa liderada pelo delegado Adriano Linhares, as ocorrências de abigeato tiveram uma queda de 27% entre janeiro e julho deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. O confisco de animais, carnes, armas, automóveis, caminhões e outros bens em poder de criminosos resultou na recuperação de mais de R$ 6 milhões, valores que serão restituídos aos pecuaristas roubados.

Uma das operações mais recentes ocorreu na região de Pelotas em julho. Os policiais civis cumpriram 20 mandados de prisão e 18 mandados de busca e apreensão. Durante a ação, 16 pessoas foram presas, entre elas, o líder da organização criminosa e um dos maiores carneadores da região.

Em apenas um ano, conforme o delegado Linhares, o grupo desarticulado furtou pelo menos 1,5 mil bovinos e ovinos em diversos municípios da região. O bando era conhecido pelos produtores rurais de “Grupo dos Seis”, por matarem, em média, seis animais bovinos por vez. A carne era levada pelos abigeatários para Pelotas, onde a quadrilha distribuía o produto por açougues, lancherias, bares e restaurantes, todos de propriedade de um dos criminosos presos.

Uma questão de saúde pública

Os prejuízos do abigeato vão além da esfera econômica e alcançam a saúde humana. Quem consome carne sem procedência está sujeito a uma série de infecções e doenças decorrentes do abate clandestino de animais.

Presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio Grande do Sul (CRMV-RS), Rodrigo Lorenzoni destaca o risco à saúde pública. “No momento do abate do animal, em frigorífico, há a presença de um fiscal validando todo o processo para garantir a qualidade da carne. No abigeato, ao contrário, há apreensões feitas dentro de Kombi, por exemplo, repletas de sujeira. A gente, brinca, infelizmente, que é o ‘frigomato’”, diz ele.

Lorenzoni salienta que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 70% das doenças que atingem os seres humanos têm origem animal – como dengue, febre amarela, leishmaniose etc. Mas há algumas relacionadas ao consumo de carne animal contaminada, é o caso da cisticercose, brucelose e tuberculose bovina. “Há, ainda, a hidatidose, transmitida pela ingestão de carne mal-cozida ou contaminada que pode afetar o nervo ótico e, mais tarde, causar a morte”, conta Lorenzoni.

É necessário, ainda, analisar a questão do ponto de vista cultural. O abate para consumo próprio, no interior gaúcho, ocorre historicamente, em várias situações, como famílias destinarem animais para alimentar convidados de uma festa de casamento, por exemplo. “Neste ponto não há problema. O consumo próprio é permitido. Não pode é furtar a carne e comercializar sem inspeção sanitária. Infelizmente, é uma realidade ainda muito presente em nosso Estado”, diz.

Mas o presidente do CRMV-RS avisa que o mercado clandestino só existe porque há demanda. “É preciso uma reflexão por parte do consumidor. Defendemos que se faça um programa de conscientização para os perigos da alimentação com carne clandestina. É um barato que sai caro”.

O veterinário expressa outra preocupação sanitária: o trânsito ilegal de animais entre o Rio Grande do Sul e territórios próximos, como Argentina e Uruguai. “Hoje, a aftosa está erradicada no Estado, mas levar gado de um local para outro, sem fiscalização, é um problema grave. Por isso, digo: não tem como retirar a vacina contra aftosa porque hoje ela é um mecanismo de defesa no combate à doença já que temos fronteiras carentes de fiscalização”, finaliza Lorenzoni.