Abate de suínos com novas regras

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Frigorífico de carne suína – Foto: Gilson Abreu/FIEP

A pedido do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Dipoa), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a Embrapa elaborou um estudo com especialistas de universidades no sentido de modernizar os procedimentos de inspeção sanitária em frigoríficos de suínos no Brasil. A pesquisa embasou a Instrução Normativa 79, em vigor desde dezembro do ano passado.

A nova regulamentação direciona o foco da inspeção sanitária para os problemas relacionados à saúde pública e atende aos programas oficiais de saúde animal, compartilhando com a indústria a responsabilidade de desclassificar as matérias-primas impróprias para o consumo por problemas de processo, porém sem risco à saúde do consumidor.

A intensificação da suinocultura, alicerçada em confinamento, adoção de tecnologias e avanços no controle sanitário, modificou o perfil de risco atribuído à carne como veiculadora de zoonoses. “O projeto teve como objetivo avaliar os impactos das mudanças nos sistemas de criação de suínos e dos controles sanitários sobre os procedimentos de inspeção ante e post mortem”, informa Lúcio Kukuchi, do Dipoa.

Conforme o especialista, hoje, a maior parte das lesões observadas no animal após o abate não representa risco à saúde humana e demanda um conjunto numeroso de procedimentos realizados pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF) para sua detecção. “Entretanto, os principais perigos à saúde do consumidor listados em avaliações de risco não causam lesões observáveis nas linhas de inspeção, como a salmonela”, alerta a pesquisadora Jalusa Kich. De acordo com Jalusa, a proposta é inovadora e pode, futuramente, ser aplicada às outras cadeias produtoras de proteínas – principalmente aves e, depois, carne bovina.

Além dos ganhos para a indústria e consumidores, a nova normativa beneficia também o Serviço de Inspeção Federal, que pode racionalizar de maneira mais estratégica suas equipes. Há ainda vantagens para as agroindústrias, cooperativas e frigoríficos que abatem suínos sob SIF em todo o País pela redução direta de mão de obra, qualificação de informações e matéria-prima.

“A modernização nas regras federais de inspeção sanitária resulta em ganhos para toda a cadeia de produção, uma vez que o sistema baseado em risco, apoiado em programa de autocontrole dos principais riscos zoonóticos atribuídos à carne suína, impacta positivamente o comércio dos produtos”, completa a pesquisadora.

Santa Catarina (com 900 mil toneladas anuais), Rio Grande do Sul (700 mil toneladas) e Paraná (450 mil toneladas) são os maiores produtores brasileiros de carne de porco.

De acordo com especialistas do setor, a alta do valor da carne bovina e o reflexo da crise no bolso do brasileiro são fatores determinantes para a procura da carne suína como fonte alternativa de alimentação. Com média anual de 15,5 quilos por pessoa, a carne suína é a mais consumida em todo o mundo. Por algum tempo no Brasil, houve certo preconceito em torno desse tipo de carne, mas novas práticas de manejo possibilitaram que mitos fossem desfeitos.

A gestão do processo produtivo e melhorias nos sistemas de transporte e armazenamento também contribuíram para maior acolhida da carne suína nas mesas brasileiras. É preciso garantir o bem-estar dos animais em todos os processos: da reprodução até o abate. Esse ponto tem ganhado cada vez mais relevância com as discussões sobre a produção racional de alimentos.

Nas exportações, queda de 7,4% em 2018
Apesar de um ligeiro avanço nos últimos meses do ano, a suinocultura brasileira fechou 2018 com queda de 7,4% nas exportações. Conforme a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), foram 549 mil toneladas no passado, contra 592 mil toneladas negociadas em 2017.

As perdas de 19,5% acumuladas no primeiro semestre do ano foram reduzidas pela elevação de 4,5% nos últimos seis meses do ano. No total do ano, as vendas geraram receita de US$ 1,115 bilhão, número 23,9% inferior em relação ao saldo do ano anterior, com US$ 1,465 bilhão.

“O ritmo das vendas para a China foram determinantes para o desempenho das exportações do setor em 2018.  A expectativa é que o fluxo para o mercado asiático se mantenha, impulsionando as vendas do setor no momento em que a Rússia retoma gradativamente as importações do produto brasileiro”, informou, em comunicado, Ricardo Santin, diretor-executivo da ABPA.

Já neste ano, conforme a ABPA, o mercado será influenciado pela expectativa de elevação da demanda internacional pelo produto, especialmente da China (com a redução dos planteis, diante dos focos de peste suína africana) e da Rússia (recentemente reaberta para o Brasil).

A China, por sinal, desde 2018 já sacrificou quase 1 milhão de porcos devido a surtos de peste suína detectados em 24 províncias. A peste suína africana não agride os seres humanos, mas é mortal para os porcos e não existe vacina ou cura. Os chineses são os maiores produtores de carne suína do planeta, com o abate anual de 700 milhões de cabeças.

Na mesma linha segue a análise do Centro de Pesquisa Econômica Aplicada (Cepea), citando informações do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Deve crescer o apetite chinês por proteína suína devido à redução na oferta interna. Apenas em 2018, a China foi destino de 25% da carne suína brasileira exportada, com o volume total superando em quase três vezes o do ano anterior.

Quanto aos custos de produção, a oferta de milho e de farelo de soja – principais componentes da ração animal – deve ser mais elevada no decorrer de 2019, o que pode limitar fortes altas nos preços destes insumos. No caso do farelo de soja, o incremento previsto na produção doméstica é de 4,09%. O farelo é essencial na composição de ração para suínos e aves.

Frango com boas perspectivas
As projeções do USDA indicam que o Brasil deve exportar 3,8 milhões de toneladas de carne de frango em 2019, elevação de 2,4% frente ao volume de 2018. O mercado global de carnes pode se intensificar com o crescimento econômico esperado para países em desenvolvimento. Essas nações até conseguirão aumentar a produção doméstica, mas de forma insuficiente para atender ao consumo interno.

O Brasil deve ampliar as suas vendas para países que, por enquanto, não figuram entre os principais importadores nacionais, como é o caso do Chile. Além disso, desde que questões políticas não interfiram na relação comercial entre o Brasil e países árabes, a expectativa é de que as vendas à Arábia Saudita se recuperem após a retração verificada em 2018, uma vez que os frigoríficos brasileiros vêm se adequando às novas exigências do país árabe.

Um revés recente ocorreu em fevereiro, com a China impondo medidas antidumping ao frango produzido no Brasil. As tarifas vão de 17,8% a 32,4% e serão cobradas por cinco anos.

Mas há ressalvas. Empresas que respeitaram um preço mínimo de venda do frango ficarão isentas da taxa – hoje, são 14 companhias exportadoras, incluindo gigantes como JBS e BRF. A decisão de taxar o frango brasileiro partiu após uma investigação iniciada em 2017, que revelou um prejuízo importante ao setor avícola da China provocados com importações de frango brasileiro a preços inferiores ao custo de produção.

Contudo, para a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o acordo “não significa que o setor exportador de carne de frango do Brasil concorde com a determinação final do processo”.

A associação tem defendido, desde o início da investigação, que o Brasil não pratica dumping na exportação de carne de frango. O Ministério da Agricultura informou que o governo brasileiro está atento e vai monitorar a implementação da decisão chinesa de forma a avaliar ações necessárias para defesa dos interesses do setor.