A servidão e a Imprensa

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“Vamos admitir que os [órgãos da mídia] favoritos consigam escapar às mãos daqueles a quem servem. Não escaparão do rei que vier depois. Se for bom, tudo fará para pedir contas e repor a justiça. Se for mau e semelhante ao que eles serviram, há de ter os seus favoritos que, evidentemente, além de pretenderem ocupar o lugar dos outros, hão de querer também os bens e as vidas deles.”

Étienne de La Boétie morreu lá nas europas em 18 de agosto de 1563. Acho que, em meio às catadupas de boatos e felonias que marcam nossos dias aqui na Pindorama invadida, não se importará que me aproprie e subverta o seu Discurso da Servidão Voluntária. Já comecei a fazê-lo, sempre entre colchetes, caracterizando destarte que há acréscimo de informação na citação original.

“O camponês e o artesão, embora servos, limitam-se a fazer o que lhes mandam e, feito isso, ficam quites. Os [jornalistas, políticos e detentores de cargos de livre nomeação] que giram em  volta do tirano e mendigam seus favores, não se poderão limitar a fazer o que ele diz, têm de pensar o que ele deseja e, muitas vezes, para ele se dar por satisfeito, têm de lhe adivinhar os pensamentos. Não basta que lhe obedeçam, têm de lhe fazer todas as vontades, têm de se matar de trabalhar nos negócios dele, de ter os gostos que ele tem, de renunciar à sua própria pessoa e de se despojar do que a natureza lhes deu.”

É dura a vida dos empreendimentos comerciais que difundem notícias no intuito primordial de prestar serviço à sociedade. É espinhoso cada dia dos jornalistas empregados por eles sob o compromisso de que assim se comportem, pois há fontes de águas límpidas e aquelas que não resistem aos laboratórios de análise da veracidade factual. Será que a vida dos outros é fácil? Não é.

“Têm de se acautelar [os maus empresários e os maus jornalistas] com o que dizem, com as mínimas palavras, os mínimos gestos, com o modo como olham; não têm olhos, nem pés, nem mãos, têm de consagrar tudo ao trabalho de espiar a vontade e descobrir os pensamentos do tirano.”

O humanista e filósofo francês morreu cedo, com apenas 32 anos. No texto, recrimina com aspereza os cidadãos que permitem a dominação abjeta, tão mais abjeta nesta usurpada Terra de Vera Cruz quanto mais dissimulada e corrupta for. Em relação ao tirânico mandatário, ele se pergunta e nós nos perguntamos:

 “Onde iria ele buscar os olhos com que vos espia [do Monte Caburaí, em Roraima, ao Arroio Chuí, no Rio Grande do Sul;  da nascente do rio Moa, no Acre, à Ponta do  Seixas, na Paraíba] se vós não lhos désseis? Onde teria ele mãos para vos bater se não tivesse as vossas? Os pés com que ele esmaga as vossas cidades de quem são senão vossos? Que poder tem ele sobre vós que de vós não venha? Como ousaria ele perseguir-vos sem a vossa própria conivência [e a da Imprensa que sabe mas omite, ou que não procura/investiga aquilo que não quer encontrar] ? Que poderia ele fazer se vós não fôsseis encobridores daquele que vos rouba, cúmplices do assassino que vos mata e traidores de vós mesmos? (…)”

Então, quando implodem revistas da Grande Editora Nacional, anúncios são vendidos em pregão a dois reais o centímetro por coluna na Freguesia de Nossa Senhora do Porto dos Casais, comenta-se a venda da Rede Local, Gal Costa lamenta a saúde vitaminada dos jabás, zurra a inepta distinção oficial entre emissoras comerciais, estatais e públicas, talvez eu somente vá encontrar o porquê ao refugiar-me, dolorido, em La Boétie:

“É o povo [brasileiro] que se escraviza, que se decapita, que, podendo escolher entre ser livre e ser escravo, se decide pela falta de liberdade e prefere o jugo, é ele que aceita o seu mal, que o procura por todos os meios [e satisfaz-se com arremedos de jornalismo].”