A saga dos Javalis Selvagens

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Títulos para livro e filme estão prontos. É só alguém escrever e outro alguém produzir e dirigir. A gurizada e o treinador podem ser os atores. A trama tem drama (com rima e tudo), tem morte a lamentar e heróis mergulhadores a saudar. Tem religiosidade e superação, o que também é bom para garantir audiência. Não há como encaixar cenas de sexo, mas não vejo isto como fator limitador da atratividade.

Há um problema imenso para pretendentes a escrever livro e roteiro, adaptado ou não. Houve uma fantástica multiplicação de notícias via todas as plataformas midiáticas. Arrisco que lá nos confins aconteceram sinais de fumaça e batidas repetidas em troncos ocos para enviar as últimas informações. Todos, solidários, vivenciamos a saga dos Javalis Selvagens.

Mais do que isso. Torcemos por um final feliz. Os religiosos uniram suas preces de forma independente dos dogmas e rituais que os separam. (Aliás, um dia, mas não hoje, ainda escreverei que o dogma e o ritual são estímulos intencionais ao não-pensar.) Projetamos como nos sentiríamos no ambiente claustrofóbico a que estavam submetidos os doze meninos e um adulto. Suspiramos, um pouco aliviados, quando chegaram as primeiras informações de que todos estavam bem, embora famintos.

Um espetáculo midiático. Busco paralelo em filme de 1951, quando Billy Wilder dirige Ace in the hole (A Montanha dos Sete Abutres) tendo como protagonista o eterno Kirk Douglas no papel de um repórter inescrupuloso. Lá, como agora, há alguém preso, uma população sedenta de participação – mais que de informação – e a onipresença do jornal, do rádio e da tevê.

Doze meninos vivos. Quantos morrem, a cada dia, tanto nos confins do mundo quanto ali adiante, apenas dobrando a esquina? Morrem em abortos clandestinos resultantes do desespero de mães sem condições de dar condições de vida à nova vida.  Morrem de doenças causadas pela subnutrição quando há comida de sobra no mundo. Morrem nas guerras continentais e na guerrilha urbana. Morrem ao assumirem a violência como forma de sobrevivência. Morrem. E morrem, e morrem, e morrem…

O que fazem os espaços da mídia? O que fazemos nós, em nossos espaços de redes sociais? Magnificamos o episódio pontual e inédito, minimizamos os dramas que já se tornaram fatos rotineiros merecedores de um pé de página par, alguns segundos no ar e nada mais.

Procure por Felipe Pena e o texto Celebridades e heróis no espetáculo da mídia. Ele termina afirmando que  “Jornalistas, escritores, produtores, dramaturgos, cineastas, diretores e todos os outros responsáveis pelo discurso midiático estão em xeque. Se a vida é um show e a mídia é o palco, os roteiristas do espetáculo correm o risco de tornarem-se os bobos da corte.”

Leia Gui Debord, direto da fonte ou introduzindo-se a partir de análise ampla de Juremir Machado da Silva e Cristiane Freitas Gutfreind. Está presente em livro lançado pela EDIPUCRS, em 2017, que perquire o antes e o depois do espetáculo.

Que tal dedicar a atenção para um fenômeno que vem sendo chamado de “cronofagia” (engolir o tempo) e integrá-lo ao que parece ser uma tendência: a multiplicação de “dataholics”, os adictos de informação em tempo real.

A perspectiva de uma tragédia era vislumbrada desde o desaparecimento dos Javalis Selvagens. Encontrados, a luta pela vida ganhou espaços crescentes na mídia. Audiência gerando mais e mais audiência. Até o final, quase inteiramente feliz.

Uma boa perspectiva de livro ou filme seria centrar no mergulhador morto. Recuperar seu passado, sua vida, dores e amores. Talvez, como técnica narrativa, usar o mesmo recurso de Fernando de Morais na biografia de Chateaubriand, o Velho Capitão, ao narrar o que estaria pensando. Foco no mergulhador que morreu. Aliás, como era mesmo o nome dele?