A realidade da agricultura 4.0

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A produtividade da agropecuária brasileira cresceu 3,43% ao ano no período de 1975 a 2017. O uso intensivo de máquinas como tratores e equipamentos agrícolas foi essencial neste processo.

Internet das coisas, inteligência artificial, dados na nuvem. O permanente avanço da tecnologia transforma o mundo em que vivemos de tal modo que todos os setores produtivos são impactados pelas mudanças. No agronegócio, não é diferente.

A chamada agricultura 4.0 inclui o uso de geotecnologias, da agricultura de precisão e da internet das coisas (IoT, na sigla em inglês) com o intuito de fomentar a agricultura do ponto de vista econômico, social e ambiental. O objetivo é aumentar o protagonismo do agronegócio brasileiro internacional.

A internet das coisas já é uma realidade. A cada dia, mais “coisas” (como máquinas, cidades, veículos e residências) se conectam à internet para informar a sua situação, receber instruções e até mesmo praticar ações com base nas informações recebidas. A possibilidade de ligar o mundo físico à internet e a outras redes de dados tem profundas implicações para a sociedade e a economia.

“Nos últimos 40 anos, a ciência e a tecnologia revolucionaram a produção agrícola do Brasil. Sabemos que, para o futuro, devemos aumentar a produtividade nas áreas já existentes, melhorar a recuperação de áreas degradadas e, ainda, produzir mais com menos insumos”, explica Silvia Massurhá, chefe-geral da Embrapa Informática Agropecuária, sediada em Campinas (SP).

Conforme Silvia, a agricultura mundial encontra-se sob forte pressão para garantir a segurança alimentar e fornecer energia limpa de forma sustentável. O cenário global previsto é crítico: a população mundial deve atingir 9 bilhões de habitantes em 2050 em um planeta com crescente escassez de terra e de água.

Essa agricultura mais conectada é uma realidade em diversas áreas. Há sensores inteligentes que determinam as quantidades corretas de defensivos a serem aplicadas em determinada lavoura. Isso reduz o custo com o insumo e evita desperdício.

Na irrigação, por meio da análise da disponibilidade de água e das necessidades do solo, é possível utilizar o volume correto de água – a tecnologia, neste caso, ainda tem um ganho ambiental no uso dos recursos hídricos. “Também conseguimos, por meio de imagens de satélite, acompanhar a evolução anual de determinado solo, por exemplo, seus plantios e produtos nele aplicados”, avalia Silvia.

A agricultura é a atividade econômica mais dependente das condições climáticas. Além de influenciar o crescimento, o desenvolvimento e a produtividade das culturas, o clima também afeta a relação das plantas com insetos e microrganismos, favorecendo ou não a ocorrência de pragas e doenças.

De acordo com Silvia, sistemas que integram as funções de coleta, transmissão e processamento de dados podem fornecer informações agrometeorológicas atualizadas em tempo quase real. A Embrapa desenvolveu um sistema chamado Agritempo10, disponível em versão web e dispositivos móveis. Ele fornece dados essenciais para o zoneamento agrícola de diversas culturas.

“Recebemos informações de 1.500 estações meteorológicas espalhadas pelo Brasil, unimos com dados da Agência Nacional de Águas (ANA), processamos e conseguimos gerar uma matriz de risco climático para 44 culturas. Este trabalho é feito para o Ministério da Agricultura”, ilustra ela.

Silvia relata ainda o surgimento de diversas startups em todo o território nacional destinadas ao agronegócio (também conhecidas como agtechs). Por sinal, a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) colocou em prática um projeto com o objetivo de mapear essas pequenas empresas.

O levantamento será realizado em cinco estados: Rio Grande do Sul, Bahia, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Rondônia. Cada estado representa uma região do Brasil. A intenção é conhecer o grau de maturidade das agtechs e, posteriormente, ampliar para o resto do País. No Rio Grande do Sul, já são cerca de 20 startups voltadas para o setor agropecuário, de acordo com informações do Sebrae-RS.

Uso de máquinas aumenta produtividade
Conforme dados da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, a produtividade da agropecuária cresceu 3,43% ao ano no período de 1975 a 2017. O uso intensivo de máquinas como tratores e equipamentos agrícolas foi essencial neste processo. Nestes 42 anos, nos Estados Unidos (principal competidor do Brasil na produção de grãos), a produtividade aumentou 1,4% ao ano, para efeitos de comparação.

O aumento foi decorrente do crescimento da quantidade produzida, e também da inclusão de produtos de maior valor, como carnes, frutas, produtos do setor sucroalcooleiro e grãos. A mudança de composição na produção também foi responsável pelos ganhos de produtividade.

Na safra, os dados não deixam dúvidas do sucesso da política agrícola dos últimos 42 anos. A produção de grãos passou de 40,6 milhões de toneladas para 237,8 milhões de toneladas no período analisado. Os destaques são a cultura da soja e de milho 2ª safra. A produção de carne bovina passou de 1,8 milhão de toneladas para 7,7 milhões de toneladas. A quantidade de carne suína cresceu de 500 mil toneladas para 3,8 milhões de toneladas e, de frango, de 373 mil toneladas para 13,6 milhões de toneladas.

Entre os indicadores de produtividade (mão de obra, terra e capital), o maior crescimento do uso foi registrado no capital, formado por tratores, fertilizantes e defensivos. O resultado do estudo salienta que a utilização de máquinas como tratores e colheitadeiras, além dos avanços tecnológicos, foram decisivos para o elevado resultado.

A utilização de drones, por exemplo, ganha adeptos em diversas fazendas pelo Brasil. Seu uso para mapeamento aéreo permite uma visão geral da lavoura, de diferentes ângulos. Por meio dessa ferramenta, o agricultor pode avaliar a cultura por diversas perspectivas, com a ajuda de câmeras e softwares especializados.

No caso de fazendas de maior extensão, o terreno pode ser dividido em módulos com raios de abrangência de 500 metros cada um – assim, o voo do drone respeita pontos pré-estabelecidos, a fim de cobrir a área completamente.

Há ganhos, inclusive, na aplicação de insumos como defensivos. O uso drones na agricultura permite identificar toda a área com maior precisão, gerando uma economia de até 80% nos gastos com fertilizantes e agrotóxicos.

Silvia Massurhá, da Embrapa Tecnologia, concorda que muitas dessas novidades ainda têm elevado custo. “Sabemos que o grande e médio produtor são os que têm mais condições hoje de utilizar sistemas inteligentes. Na agricultura familiar, acreditamos que isso também será uma realidade, até porque a adoção dessas tecnologias pode ajudar o pequeno produtor a incrementar seu negócio e, assim, mudar de patamar”, completa.