A rádio saiu do ar, SQN

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Transcorria maio de 1989, Campeonato Gaúcho em disputa e a Rádio Progresso acompanhava os jogos do Novo Hamburgo, no Torneio da Morte, que reunia os oito piores times da primeira fase da competição, para indicar os dois rebaixados.

Depois de alguns meses como plantão de estúdio, começava a chegar a oportunidade de atuar como repórter de campo e uma das primeiras escalas em jogos de Gauchão (antes apenas várzea e campeonatos amadores) foi Novo Hamburgo x Inter de Santa Maria. Tarde de domingo, muito sol e bom público no estádio Santa Rosa.

Ansiedade pouca era bobagem e minha incumbência era cobrir o time visitante, enquanto o decano Antônio Mendes cuidava dos donos da casa. Longe da modernidade atual, o repórter nos anos 80 tinha que lidar com longos cabos, além de bloco, caneta, fone de ouvido e microfone.

Times em campo e parti, sem medo de ser feliz, para as entrevistas. Chamei Mendes, meu colega de reportagem, já me aproximando de Faller, um dos nomes conhecidos na época entre os que estavam em campo, em especial pelo seu corte de cabelo, um loiro com franjinha que me permitia a fácil identificação. Antes de encontrá-lo, porém, havia circulado em todos os sentidos dentro do campo; direita, esquerda, centro, sem me preocupar com o cabo do microfone, que se espalhava pelo campo. Também não havia técnico para o suporte ou orientação.

Ao ouvir, “vai Rodrigo”, dei dois passos em direção ao entrevistado, sem notar que ao mesmo tempo, um outro jogador pisava no meu cabo, arrancando fone e quase me levando ao chão. Nervoso, sequer me dei conta que os fones estavam no chão, enquanto seguia tentando a entrevista. Como não ouvia mais a transmissão, entrei em pânico e pensei: o que fiz, tirei a rádio do ar? Pavor e vergonha. Olhei para o alto do Santa Rosa e das cabines gestos para mim. Continuava sem os fones e tentando chamar o narrador. Fui saindo do gramado, num misto de raiva e vergonha: o que eu fiz? Olhava para as gerais do Santa Rosa e mais pessoas sinalizavam, me levando a acreditar que a galera se divertia as minhas custas e reclamando que a Progresso estava fora do ar.

Já na lateral do gramado, observo alguém se aproximando. Era o bandeirinha vindo ao meu encontro e logo penso em mais problemas, quando escuto: “rapaz, isso aqui é seu? Estava no meio do gramado e temos que começar a partida”. Eram os fones, abandonados e agora, reencontrados, momento em que descobri que a rádio jamais havia saído do ar e que todos os gestos que observava eram para que buscasse o objeto perdido em campo.

Fim de jogo: Novo Hamburgo 4×1 no Inter SM, com relatos de gol e tudo mais. A vergonha ficou só pra mim, no começo de uma longa e divertida caminhada. Mas na hora, que dor de barriga…

Separados pela distância
Do arquivo de Vanius Portto

Início dos anos 90, jornada esportiva pela 1470 AM – Cinderela, de Campo Bom, com futsal em alta no Vale do Sinos. Tudo pronto para ir ao ar um duplex, contando jogos do UJR e Novo Hamburgo. No ar, dois dos maiores narradores do rádio gaúcho: Vanius Portto, em Rio Grande e Olmes Tortorelli, falando de Novo Hamburgo.

Trilha no ar, Tortorelli com sua tradicional empolgação abre a jornada bradando aos microfones: “no ar, mais uma jornada esportiva 1470, falando de Novo Hamburgo e do sul do estado. Aqui você já sabe: não há distância que nos separe”… Dito isso, a rádio saiu do ar. Durante horas.

Naquela noite, a distância separou, sim, todos que estavam ligados no futsal da Cinderela. Tortorelli se precipitou, conta em meio a risadas, Vanius Portto, hoje Chefe de Esportes da Rádio ABC 900.