A proximidade que nos afasta

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Quanto mais nos relacionamos com uma pessoa, mais a conhecemos e quanto mais a conhecemos mais temos a possibilidade de nos identificarmos com ela, ou dela nos afastarmos. Isso serve para qualquer outro tipo de relação, seja com uma marca, uma empresa, uma entidade ou uma instituição.

Com a ampliação, nos últimos anos, das possibilidades de contato com os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, através de sites de transparências, redes sociais e canais próprios de televisão, entre outros, o brasileiro pode conhecer mais os seus representantes e as ditas instituições que formam a base de nossa democracia. E, infelizmente, quanto mais conhecemos quem deveria nos representar e defender, mais percebemos um fosso entre essas instituições e a sociedade brasileira, mais nos sentimos abandonados à nossa própria sorte.

O que são, por exemplo, as sessões do Supremo Tribunal Federal, transmitidas ao vivo pela TV Justiça? Em março, vimos uma delas, que iria decidir sobre um pedido de Habeas Corpus do ex-presidente Lula, ser encerrada antes de ser concluída, porque um dos senhores ministros tinha viagem marcada. Depois, ficamos sabendo que o compromisso inadiável que Marco Aurélio Mello tinha e que o retirara, intempestivamente, da sessão que o Brasil todo acompanhava, era uma homenagem que a Academia Brasileira do Trabalho lhe faria no dia seguinte, no Rio de Janeiro. Afinal, qual deveria ser o compromisso do ministro? Com o país ou com o seu ego gigante?

No dia 4 de abril, data que então foi julgado o tal Habeas Corpus, o que se viu, mais uma vez, foi uma maratona de juridiquês, de vênias, verborragia hermenêutica e sentido hermético, que têm como principal propósito mostrar o quão são “doutos” nossos ministros e o quanto somos ignorantes, nós pobres mortais que pagamos a conta. E que conta, com auxilio moradia e tudo mais.

Como podemos esperar um novo país, se temos um Estado tão distante do povo? Como podemos confiar na Justiça se, a cada dois anos e conforme a composição do STF, temos uma interpretação diferente e oposta sobre a Constituição? Como podemos nos nortear pela nossa Carta Magna se os seus dispositivos são usados ora pra uma coisa, ora pra outra, atendendo a casuísmos políticos e aos humores dos membros da Suprema Corte?

O caso (ou descaso) do ministro Gilmar Mendes é exemplar disso. Em 2016 ele firmou convicção pela prisão em segunda instância, menos de dois anos depois, muda completamente de entendimento e vota em favor do tal “trânsito em julgado”, estimulando os recursos infindáveis, uma das principais causas da impunidade no Brasil. Sem pejo algum, destila toda a sua incoerência e toma um voo de volta pra Lisboa.

A propósito, nos últimos anos mais de 85.000 brasileiros trocaram o Brasil por Portugal e a cada mês, levas e mais levas de desesperançados e abandonados compatriotas desembarcam em terras lusitanas para tentar uma nova vida. Não sem razão, estão desistindo do Brasil.

É neste vácuo deixado pelas instituições, que germina o desencanto da população com a própria democracia e surgem candidaturas de salvadores da pátria, movimentos de desobediência civil e o desejo crescente de muitos por uma intervenção militar. É triste, é lamentável por todos os aspectos, mas são reações ao fosso profundo que se formou entre o Estado e a sociedade brasileira.