A genética a serviço da agricultura

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Hoje, quando se analisa o cenário global da agricultura, seja qual for a perspectiva, o Brasil faz parte dos grandes players internacionais. Isso se deve, em grande parte, ao melhoramento genético.

Apenas a Embrapa mantém cerca de 80 programas de melhoramento, entre os quais estão os de soja, milho, algodão, além de espécies frutíferas tropicais e temperadas, leguminosas e oleaginosas.

Um dos métodos mais usados aplica a seleção genômica – ou seja, a capacidade de predizer fenótipos complexos utilizando a análise de marcadores moleculares. A metodologia é mais utilizada na produção de proteína animal (em bovinos e suínos), mas na área de vegetais é amplamente aplicada pela Embrapa na pesquisa em frutas como maracujá e goiaba.

A seleção e a recombinação genética, por sua vez, definem onde buscar germoplasma, por exemplo. Para se chegar ao lançamento de uma cultivar são realizados vários ciclos de seleção e recombinação, em muitos casos, centenas de vezes.

Leonardo Boiteaux, pesquisador da Embrapa Hortaliças, destaca que o melhoramento genético é importante ferramenta no combate a pragas e doenças. Apesar do desenvolvimento de diversos defensivos agrícolas, as doenças ainda são um grande entrave para a agricultura mundial com perdas que chegam a 15%. “A resistência genética não possui nenhuma característica desvantajosa. O principal destaque é que o produtor não precisa mexer no sistema produtivo, as informações estão todas na semente”, pondera ele.

  Leonardo Boiteaux

De acordo com Boiteaux, mais do que apenas desenvolver plantas mais resistentes, o melhoramento genético permite que o cultivo seja expandido geograficamente e, também, sazonalmente. Caso das hortaliças que, com raras exceções, são de clima temperado.

Exemplo é a cenoura Brasília, variedade limitada, antes do melhoramento, ao plantio no inverno. Pesquisas da Embrapa em parceria com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-Usp) resultaram em uma cultivar que aguenta bem o calor e pode ser plantada no verão.

  Hortaliças/divulgação Liliane Bello – Embrapa

“Antes dela, contávamos com exemplares europeus e japoneses, tínhamos que aplicar até 15 pulverizações por ciclo. O plantio era limitado em condições de inverno ou de clima ameno. Agora, as pulverizações são, no máximo, duas vezes, e a cenoura pode ser plantada em todas as regiões do Brasil”, ilustra.

Para levar adiante um programa intensivo de melhoramento genético, é imprescindível contar com um banco de germoplasma – apenas a Embrapa mantém 130 deles espalhados pelas suas unidades no Brasil. Boa parte deste material é resultado de intercâmbio científico com outros países.

Germoplasma é, basicamente, o material que constitui a base física da herança de um vegetal. Significa a matéria onde se encontra um princípio que pode crescer e se desenvolver, sendo definido ainda, como a soma total dos materiais hereditários de uma espécie.

Em 2014, a Embrapa inaugurou o Sistema de Informação de Recursos Genéticos Alelo (https://www.embrapa.br/alelo) – uma plataforma criada para abrigar informações sobre as coleções de germoplasma e, assim, auxiliar a gestão dos recursos genéticos e a divulgação do acervo.

Com isso, cerca de 90% das informações dos bancos genéticos brasileiros já podem ser acessadas via Alelo. Por sua vez, os dados do Alelo são migrados de forma automática para o Sistema Genesys, portal mundial de informações sobre recursos genéticos vegetais.

Apesar da grande diversidade de vegetais no mundo, a humanidade é bastante seletiva e depende de reduzido número de espécies em sua alimentação. “Apenas de 15 a 20 espécies alimentam a humanidade. Isso representa um grande risco caso surja uma doença de difícil controle”, alerta Nilton Junqueira, da Embrapa Cerrados.

De acordo com o especialista, embora o Brasil detenha a maior diversidade de espécies de plantas do planeta, o país continua dependente de germoplasma externo. Apenas no século XX o Brasil começou a “domesticar” – no jargão científico, tornar apropriadas a determinado fim, como consumo humano ou plantio em larga escala – e selecionar espécies de interesse econômico, como mandioca, cacau e feijão.

Segundo a Embrapa, a maior parte dos produtos que compõem a dieta do povo brasileiro não é originária do Brasil: foi introduzida de outros países e adaptada às nossas condições climáticas. São exemplos o arroz, feijão, milho, trigo, soja, frutíferas e hortaliças exóticas.

Existe, ainda, o pós-melhoramento genético, fase pouco discutida. Nela, são realizados os ensaios de avaliação de determinados cultivares. É nesse momento que elas são testadas em diferentes ambientes. Também é nessa fase que se fazem as avaliações técnicas junto ao mercado produtivo e se executa todo o trabalho de produção, regulamentação, lançamento e pós-venda.