2019: o ano do otimismo no agronegócio

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Nunca um ano foi tão aguardado, positivamente, por dirigentes rurais e representantes do agronegócio: o início do governo de Jair Bolsonaro em 2019, pode significar uma retomada mais robusta da agenda positiva para o Brasil a partir de medidas como a reforma da previdência, por exemplo, e uma política menos intervencionista na economia.

Demandas do setor rural é que não faltam, como exemplificou o presidente da Farsul, Gedeão Pereira, no evento de fim de ano da entidade. “Um seguro rural adequado aos produtores e fatores como abertura econômica, privatizações de serviços onerosos para o Estado e mudanças nas políticas tributária e previdenciária são nossos anseios”, relatou ele, destacando que os pedidos serão levados também ao novo governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite.

“Temos um Estado extremamente inchado nas três esferas da administração. É preciso se concentrar no que realmente é o papel do Estado e fazer concessões e privatizações nas outras áreas”, afirmou Gedeão.

Gedeão Pereira – Presidente da Farsul

Conforme relatório elaborado pela Farsul, a expectativa para o campo gaúcho, em 2019, é de um crescimento de 3,4% na área plantada de grãos: com isso, a safra deve alcançar 34,7 milhões de toneladas – acima do volume de 33,5 milhões de toneladas de 2018 mas ainda abaixo do recorde registrado na safra 2017, com 35,4 milhões de toneladas de grãos colhidas em solo gaúcho.

Economista-chefe da Farsul, Antônio da Luz reforçou o otimismo depositado em 2019, já que entende que a falta de confiança do empresário e do consumidor têm represado investimentos nos últimos meses. “Um ambiente politicamente estável permite crescimento robusto, e este é o desafio deste novo governo. Todos esperam um ambiente menos incerto”, salientou Luz.

Contudo, ele mostrou preocupação com relação aos retornos da safra de 2019, que está sendo plantada a custos altos, sob pressão da elevação do dólar – quando plantou, o produtor comprou insumos com o dólar elevado. Na hora da colheita, com a flutuação cambial para baixo, os preços pagos podem resultar em prejuízos para o agricultor.

Antonio da Luz – Economista-chefe da  Farsul – Foto: Tiago

Nas exportações, o cenário exige atenção por diversos aspectos. De acordo com a Farsul, um deles é a consolidação da China como mercado para os produtos agropecuários brasileiros e, outro, a liberação do mercado brasileiro para incentivar as exportações.

A Farsul tem levado à esfera federal o pedido para o aprofundamento do Mercosul para viabilizar a entrada de insumos com os mesmos preços praticados em estados vizinhos, já que o produtor brasileiro chega a pagar até quatro vezes mais pelos mesmos produtos. “Somos obrigados a importar produtos como trigo, arroz e leite devido a acordos comerciais e isso prejudica nosso produtor”, avalia o presidente da entidade.

Conforme Pereira, entre as dificuldades para concorrer no mercado internacional está a falta de eficiência do Brasil em relação aos seus competidores, situação que deve ser resolvida pelo caminho da qualificação. Ele exemplificou que, hoje, o setor precisa de 4,8 trabalhadores brasileiros para fazer o mesmo que um trabalhador norte-americano na agropecuária.

“Em vez de políticas assistencialistas, temos que ensinar a pescar. E isto é algo que sempre temos em vista. Só no ano passado, o Senar-RS qualificou mais de 120 mil pessoas para o trabalho no campo. São pessoas que estão mais preparadas e fazem com que, na nossa agropecuária, a eficiência do trabalhador fique bem mais próxima do que observamos nos Estados Unidos”, observou Gedeão.

No Brasil, safra maior e PIB do agro com alta de 2%
Para 2019, na visão da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), a expectativa é de uma safra maior de grãos, com clima mais favorável, além de crescimento de 2% no Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio e uma alta de 4,3% no Valor Bruto da Produção (VBP), que mede o faturamento da atividade agropecuária dentro da porteira.

As expectativas para o próximo ano são de uma safra de grãos maior que a deste ano, cuja colheita totalizou 228 milhões de toneladas, por conta do clima favorável e a incidência do El Niño. Projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que o Brasil deve colher 238,4 milhões de toneladas, número 4,6% maior que o da safra passada, o que representa um incremento de 10,4 milhões de toneladas.

Assim como a Farsul, no cenário político a CNA destaca a necessidade das reformas tributárias e da previdência pelo novo governo para permitir o crescimento do setor. Outros pontos importantes para 2019 são a melhoria nas condições de infraestrutura e logística, segurança no campo, introdução de marcos regulatórios e a ampliação da assistência técnica e gerencial para produtores com o objetivo de propor a melhoria da renda do setor agropecuário.

Para João Martins, presidente da CNA, a melhoria da infraestrutura e logística e a redução da burocracia devem estar entre as prioridades do governo Jair Bolsonaro para dar mais competitividade ao setor agropecuário brasileiro. “Somos competitivos, mas poderíamos ser muito mais se tivéssemos estradas e ferrovias mais adequadas, portos, e principalmente menos burocracia. Você tem uma porção de impostos, tributos e medidas provisórias que atrapalham o produtor”, afirmou Martins.

João Martins – Presidente da CNA

Conforme a entidade, o agronegócio brasileiro sofreu muito em 2018 devido ao ambiente institucional, em razão da greve dos caminhoneiros e do tabelamento do frete, fatores que provocaram a alta dos preços dos alimentos e dos fertilizantes. Os produtores também conviveram com o clima desfavorável, o aumento dos custos de produção e a queda dos preços e de rentabilidade.

Os dados mostram que, em maio de 2018, antes da paralisação e do tabelamento, o setor vinha contribuindo de forma expressiva para a queda dos preços dos alimentos, com deflação de 3,8% e o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2,86%, bem abaixo da meta estipulada pelo governo.

Depois do movimento de paralisação dos caminhoneiros, a partir de junho o grupo de alimentos passou a ter altas consecutivas e o IPCA naquele mês foi de 1,26%, a maior taxa para o período desde 1995 e no período de 12 meses até junho a inflação saltou para 4,39%.

No entanto, as exportações do agronegócio vão fechar no terreno positivo no ano que passou: tiveram receita de US$ 93,3 bilhões de janeiro a novembro, alta de 4,6% em relação ao mesmo período do ano passado, respondendo por 42% das vendas externas totais do Brasil. A agropecuária também deu importante contribuição na geração de empregos, com um saldo positivo de 74,5 mil postos de trabalho, 10% do total, sendo o quarto segmento que mais ofertou vagas no País.

Para a pecuária, segundo semestre pode ser mais forte
Na pecuária de corte, 2018 ficou marcado pela menor demanda de carne bovina no varejo devido ao fraco desempenho da economia. Diretor-executivo do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Rio Grande do Sul (Sicadergs), Zilmar Moussalle espera que o segundo semestre de 2019 mostre uma recuperação mais robusta da economia, o que daria suporte para um aumento no consumo das famílias – fator essencial para incrementar a venda de carne bovina.

A expectativa é repetir, em 2019, o mesmo volume de abates dos últimos anos – cerca de 2 milhões de cabeças, o que corresponde a cerca de 480 mil toneladas de carne bovina/ano produzidas nos frigoríficos do Rio Grande do Sul. A indústria, atualmente, trabalha com uma ociosidade de 35% nas plantas frigoríficas, devido justamente à redução no consumo de carne bovina.

Quando cai o poder aquisitivo, o boi perde espaço para proteínas de menor custo no varejo, como o frango e os cortes suínos. O tradicional churrasco de domingo, antes dominado por costela e maminha bovinos, está mais “democrático”: asinhas de frango e mesmo filezinho suíno são alternativas do consumidor nos tempos atuais.

Foto: Wenderson Araújo

Outro fator deve ser levado em consideração: o recente embargo russo à carne suína e de aves do Brasil, anunciado em 2017, mexeu com o varejo no ano que passou – parte do que seria exportado para os russos permaneceu represado no mercado doméstico, aumentando a oferta dessas proteínas e reduzindo seus preços.

“Suínos e frangos trabalham integrados, os produtores têm dias certos para receber os animais e abater, não podem esperar. Como não havia consumo lá fora, essa carne ficou aqui e resultou em uma proteína mais barata para as famílias”, pondera Moussalle. Com a retirada do embargo no fim de outubro de 2018, a expectativa é de normalização nas exportações de carne suína e de frango para a Rússia em 2019.

Para José Roberto Pires Weber, criador de animais da raça Angus e presidente da Associação Brasileira de Angus (ABA) até dezembro, o Brasil é um importante player no mercado internacional de carne e, muitas vezes, os embargos usam desculpas sanitárias para impor barreiras comerciais.

Foi o caso, na visão dele, da suspensão da compra da carne brasileira pelos Estados Unidos, medida tomada em 2017 e ainda em vigor. “Claro que vender para os norte-americanos abre portas, mas o embargo não prejudicou muito o agronegócio brasileiro. Temos no mercado interno 40 milhões de consumidores de alto poder aquisitivo e nosso foco de crescimento da carne Angus para os próximos anos está neles”, relata Weber.

Para Nivaldo Dzyekanski, presidente da ABA a partir de janeiro de 2019, a entidade continuará participando de eventos internacionais, como feiras de alimentação, para mostrar as qualidades da carne Angus. “E nossa carne hoje só não é mais exportada porque o câmbio é desfavorável. O preço é bem melhor no mercado interno, que absorve quase completamente nosso produto”, avalia. A perspectiva é ambiciosa: até 2020, o objetivo da ABA é aumentar em três vezes o volume de abates, chegando a 1 milhão de cabeças por ano.

Nivaldo Dzyekansky -Novo presidente da ABA
Foto:Letícia Szczesny

Leite: expectativa é de lenta recuperação
Cerca de 1/3 dos produtores gaúchos de leite abandonaram a atividade nos últimos dois anos, conforme dados do economista-chefe da Farsul, Antônio da Luz. A situação é preocupante no campo, uma vez que 2018 termina com os preços em queda, resultando, muitas vezes, em prejuízo para quem ainda permanece na atividade.

O alto custo de produção foi inimigo do produtor no ano que passou: entre os insumos, somente o milho subiu 48% entre janeiro e setembro de 2018. Ajudando a pressionar ainda mais o preço, o segundo semestre de 2018 terminou marcado por uma maior oferta de leite no Sudeste e no Centro-Oeste, tradicionais bacias leiteiras do Brasil.

Minas Geras e Goiás, dois importantes estados produtores, tiveram chuva acima da média e de forma antecipada – isso antecipou em quase 30 dias as pastagens destinadas ao gado leiteiro. O resultado é que esses estados colocaram no mercado quase 15% a mais de leite do que a média.

De acordo com o Centro de Economia Aplicada (Cepea) da Universidade de São Paulo, a demanda retraída segue influenciando com força os valores no campo. “Há alguns meses, observa-se um consumo enfraquecido de lácteos, associado à lenta recuperação econômica”, destaca o Cepea, em relatório.

Segundo o Cepea, o leite UHT é o lácteo mais consumido do Brasil e, por isso, é um item estratégico para os canais de distribuição. A venda maior ou menor do produto sinaliza, geralmente, a capacidade de compra das famílias.

As perspectivas, segundo o Cepea, são de continuidade no movimento de queda dos preços ao produtor, mas com maior intensidade, isso porque a captação continuou aumentando nos últimos meses de 2018. A saída para reduzir prejuízos e ainda ter alguma margem de lucro, em 2019, é melhorar a renda do consumidor.

E isso depende, essencialmente, de medidas econômicas como redução do desemprego e inflação controlada. “Quando você analisa o consumo de uma família e ela precisa cortar gastos, os laticínios são os primeiros da lista. O leite UHT é considerado essencial, mas queijos e iogurtes dependem de renda mais elevada”, pondera Alexandre Guerra, presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios do Rio Grande do Sul (Sindilat-RS).

Para 2019, os preços médios pagos aos produtores tendem a iniciar o ano um pouco melhores que encerraram 2018 – isso mostraria, a princípio, uma lenta recuperação para o setor no ano devido, principalmente, às projeções que indicam redução no preço do milho e da soja para o primeiro semestre de 2019.

Guerra, do Sindilat, acredita numa recuperação em cima do cenário econômico mais otimista, que deve ajudar a melhorar a renda das famílias. Outro ponto é que março e abril são, tradicionalmente, meses de menor produção leiteira. Caso aumente mesmo o consumo e se reduza a oferta a partir daqueles meses, é possível vislumbrar um melhor cenário tanto para indústria quanto para produtor. “O certo é que 2019 ainda será um ano de margens justas para todos do setor leiteiro”, completa ele.